A crise política e social na Bolívia se intensificou neste domingo (18), quando os bloqueios de estradas e a greve por tempo indeterminado convocada por sindicatos e organizações sociais contra o presidente Rodrigo Paz completaram 14 dias sem sinais de solução. Enquanto diversas rodovias seguem interrompidas em diferentes regiões do país, grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales avançam pelo altiplano boliviano rumo a La Paz para exigir a renúncia do mandatário.
A chamada “Marcha pela Vida para salvar a Bolívia” percorreu cerca de 40 quilômetros neste domingo, saindo da localidade de Calamarca até El Alto. A mobilização reúne setores camponeses, indígenas e operários alinhados a Evo Morales, que rejeitam as medidas econômicas planejadas pelo governo de Paz.
“Vamos chegar ao quilômetro zero, na Praça Murillo, para nos somarmos à mobilização até a renúncia deste presidente incapaz e fascista”, declarou o dirigente sindical Juan Yupari à imprensa local.
A marcha começou na última segunda-feira em Caracollo, cidade localizada a 188 quilômetros ao sul de La Paz, e deve se unir nesta segunda-feira à Federação de Camponeses de La Paz Túpac Katari, à Central Operária Boliviana (COB) e a outras organizações que mantêm protestos e bloqueios em várias regiões do país.
Operações policiais deixam detidos e feridos
Os bloqueios resistiram às operações realizadas por policiais e militares que tentaram desbloquear as principais vias que mantêm a capital boliviana parcialmente isolada. Segundo informações oficiais, ao menos 47 pessoas foram detidas e cinco ficaram feridas durante as ações de desocupação realizadas no sábado.
Entidades sociais denunciam, no entanto, que a repressão teria deixado vítimas fatais. Vicente Salazar, porta-voz da Federação Departamental de Trabalhadores Camponeses de La Paz Túpac Katari, afirmou que duas pessoas morreram nos municípios de Ingavi e El Alto durante as operações policiais. As autoridades bolivianas negam as mortes.
Entre os feridos há pessoas com lesões oculares e faciais que precisaram de atendimento médico. Também foram registradas denúncias de agressões contra jornalistas e impedimentos ao trabalho da imprensa, além de confrontos entre manifestantes e moradores em alguns pontos de bloqueio.
O defensor do povo da Bolívia, Pedro Callisaya, pediu que o direito ao protesto seja exercido de forma pacífica e afirmou que toda intervenção estatal deve respeitar os princípios de legalidade, necessidade e proporcionalidade no uso da força.
“Hemos exhortado de manera permanente e incansable al diálogo. Hoy, ante el escenario de crispación que vive el país, convocamos nuevamente a las partes a dialogar de manera sincera, profunda y humana”, afirmou Callisaya em declarações reproduzidas pela rádio Erbol.
Petro fala em “insurreição popular”
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, comentou neste domingo a situação boliviana e afirmou que o país vive uma “insurreição popular”.
“Bolivia vive una insurrección popular. Es la respuesta a la soberbia geopolítica”, escreveu Petro em sua conta na rede X.
O mandatário colombiano também declarou que seu governo está disposto a colaborar para uma saída pacífica da crise, caso seja convidado pelas partes envolvidas.
Petro ainda pediu que “não haja presos políticos em nenhuma parte das Américas” e defendeu a construção de uma “democracia profunda e multicolor” na região.
