‘Aquele que Viu o Abismo’, uma distopia nacional direto das mãos de Gregorio Gananian e Negro Leo

Portal Inhaí
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Por Hyader Epaminondas

Toda distopia nasce no instante em que uma sociedade deixa de reconhecer o próprio reflexo, e o futuro, então, deixa de ser uma hipótese e passa a funcionar como uma lente de aumento sobre as rachaduras do presente. É dessa compreensão que emerge “Aquele que Viu o Abismo”, e sua cena de abertura apresenta um protagonista à beira de pôr fim à própria existência, como se, depois de encarar o abismo por tempo suficiente, restasse apenas responder ao olhar que ele devolveu.

Em vez de imaginar um amanhã distante, Gregorio Gananian e Negro Leo deslocam alguns passos à frente as angústias políticas, sociais e existenciais do Brasil contemporâneo, revelando um país onde o colapso não explode de uma só vez, apenas se torna impossível de ignorar. Eles apostam em uma frequência aguda e persistente para provocar um desconforto quase analógico, como se a própria trilha sonora estivesse se deteriorando conforme o filme avança. O efeito dialoga diretamente com as imagens que intercalam fotografias e registros do cotidiano, transformando memórias aparentemente banais, lentamente deformadas por uma interferência invisível.

O cinema brasileiro de ficção científica sempre encontrou na escassez uma forma particular de inventividade, transformando limitações orçamentárias em potência estética e política. “Aquele que Viu o Abismo” amplia essa tradição ao compreender que sua motivação não está em imaginar tecnologias mirabolantes ou espetáculos apocalípticos, mas em construir um universo onde o espaço, o silêncio e o personagem carregam as marcas de um país que parece ter perdido a capacidade de distinguir progresso de decadência. O gênero deixa de funcionar como escapismo para se tornar um instrumento de diagnóstico, fazendo da distopia um espelho desconfortável da realidade brasileira, mesmo sendo ambientado na China.

Há uma ironia amarga em assistir ao filme em uma década na qual a realidade insiste em ultrapassar a ficção. As guerras transmitidas em tempo real pelas redes sociais, a ascensão da inteligência artificial capaz de fabricar imagens e discursos indistinguíveis do real, o avanço da crise climática e o desgaste das instituições democráticas produziram um mundo em que o absurdo deixou de causar espanto. Basta ficar alguns minutos em qualquer rede social para comprovar a paranoia do protagonista.

“Aquele que Viu o Abismo” percebe essa transformação e evita tratar a distopia como profecia. Seu interesse está menos em prever o futuro do que em registrar o instante em que uma sociedade passa a conviver com a exceção como se ela fosse apenas mais um aspecto da normalidade.

Foto: Divulgação

Há uma perversidade silenciosa no excesso. Quando todos disputam nossa atenção ao mesmo tempo, a sensibilidade deixa de se expandir e começa a atrofiar. E o filme compreende esse mecanismo ao retratar personagens que caminham entre tragédias sem a energia necessária para reagir a elas. Não porque sejam indiferentes, mas porque foram lentamente treinados por uma cultura de estímulos incessantes a consumir até mesmo o horror como mais um conteúdo. A distopia do filme não nasce apenas do autoritarismo ou da desigualdade, mas de uma sociedade que perdeu a capacidade de permanecer afetada pelo próprio sofrimento.

Se as distopias do século passado temiam a bomba nuclear ou um Estado totalitário, as de hoje parecem menos preocupadas com a destruição imediata do que com a erosão lenta da experiência humana. É significativo que esse futuro seja imaginado na China, país frequentemente associado ao avanço tecnológico, à vigilância digital e à velocidade da transformação urbana. Não porque o filme pretenda apontar um culpado, mas porque identifica ali um símbolo das contradições do século XXI: um mundo onde a eficiência substitui o afeto, os algoritmos competem pela atenção e o excesso de estímulos produz uma sociedade cada vez mais incapaz de sentir o peso da própria realidade.

É justamente nessa recusa ao espetáculo que o longa encontra sua identidade. Gregorio Gananian e Negro Leo compreendem que o medo mais duradouro não nasce das explosões ou da destruição visível, mas da banalização do colapso. A cada escolha estética, o filme reforça a sensação de que seus personagens habitam um mundo onde a esperança não desapareceu completamente, apenas foi soterrada por anos de desgaste político, econômico e emocional.

O abismo do título não representa apenas um lugar ou um destino inevitável, mas a experiência coletiva de uma sociedade que, diante da sucessão de crises, já não consegue distinguir se ainda está caminhando em direção ao precipício ou se aprendeu a viver à sua beira.



Por Midia Ninja

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