A queda do gigante: como o vôlei masculino brasileiro virou sinônimo de crise

Portal Inhaí
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Por Joaquim Morais

Em julho desse ano, o Brasil ficou fora da fase final da Liga das Nações (VNL) pela primeira vez desde 2018, quando o torneio foi criado em substituição à antiga Liga Mundial e ao Grand Prix. A equipe comandada por Bernardinho fechou a fase classificatória em 9º lugar, com sete vitórias e cinco derrotas, e nem chances matemáticas teve depois que a Bulgária venceu os Estados Unidos e fechou a conta contra o time brasileiro.

Isoladamente, seria só mais um resultado ruim, apesar de surpreendente. Mas colocado diante do contexto das últimas décadas, essa campanha acentua o cenário de sucateamento e queda de qualidade das equipes nacionais, e é só a ponta do iceberg.

Uma década de resultados inesperados

Prata em Barcelona 92, ouro em Atenas 2004 e ouro no Rio 2016. O Brasil construiu um dos maiores legados do esporte mundial. E é justamente o tamanho desse sucesso que torna o tombo mais visível e mais difícil de engolir.

O histórico recente da seleção masculina de vôlei impressiona pela quantidade de “primeiras vezes”:

  • Tóquio 2021: Brasil fica de fora do pódio olímpico pela primeira vez desde 2000, com um 4º lugar amargo;
  • 2022: a seleção perde a liderança do ranking mundial da Federação Internacional de Vôlei (FIVB), posição assegurada por 20 anos, e deixa de figurar o top 3 no mesmo ano;
  • Paris 2024: primeira eliminação nas quartas de final desde 2000, na edição de Sidney;
  • Mundial 2025: eliminado ainda na fase de grupos, algo que não acontecia desde 1970;
  • VNL 2026: pela primeira vez no campeonato, fora da fase final da liga.

Problemas de reposição

Um dos pontos mais citados por ex-jogadores e comentaristas é a transição mal resolvida depois do fim do ciclo de nomes como Bruninho, Lucão e Leal. A seleção que ficou não conseguiu, até agora, construir uma identidade própria, com oscilações frequentes diante das principais potências, sobretudo em posições estratégicas como levantador e central, onde a fila de reposição esvaziou. Além da falta de grandes nomes e talentos que se destacam no cenário, ponto que o país sempre se destacou com grandes nomes como: Ricardinho, Giba e Serginho.

Bernardinho, que retornou ao comando técnico com a missão de reconstruir o time, tem sido parcialmente poupado das críticas: ele mesmo reconheceu publicamente, após a eliminação na VNL, que as cobranças são legítimas e que o grupo tem um “longo processo pela frente”.

Falhas desde a base

Se a seleção principal vive o pior momento do século, dá pra dizer que o problema começou antes, nas categorias de base. Os números dos times de formação masculinos mostram uma derrocada que já dura mais de uma década:

  • Sub-21: entre 1993 e 2009, o Brasil emendou nove pódios seguidos no Mundial da categoria. Desde 2011, foram só duas medalhas e nenhum título. Na última edição, em 2025, a equipe terminou em 18º lugar;
  • Sub-19: entre 1989 e 2005, seis títulos e um vice em nove edições disputadas. A partir de 2007, o Brasil não sobe mais ao pódio. Já são dez edições seguidas sem medalha, e o pior resultado histórico da categoria também veio na edição mais recente, com um 10º lugar;
  • Sub-17: o Mundial da categoria só existe desde 2024. Na estreia, o Brasil ficou em 8º lugar. Resultado esse que, segundo analistas do próprio esporte, já reflete o cenário atual da modalidade no país.

A última vez que uma categoria de base masculina subiu ao pódio foi em 2019, no bronze do Sub-21, time que ainda tinha nomes como o central Guilherme Voss e o oposto Welinton Oppenkoski. Desde então, a fila de talentos que deveria estar abastecendo a seleção principal simplesmente não chegou, o que ajuda a explicar por que a transição pós-geração do Rio 2016 está sendo tão dolorosa. Não é só pela saída dos veteranos, é porque não havia um contingente pronto de alto nível pra substituí-los.

Problemas de financiamento e gestão

Por trás da falta de jogadores prontos está uma discussão mais antiga. O Brasil não modernizou o projeto de formação de atletas no ritmo de seleções como Polônia, França, Itália e Japão, segundo especialistas. Técnicos vitoriosos nas categorias de base, como o caso de Marcos Lerbach, hoje trabalhando no Japão, já apontaram publicamente que o país deixou de priorizar a formação, tanto nos clubes quanto nas seleções, e que boa parte dos campeonatos de base sobrevive mais pelo esforço isolado de clubes formadores do que por iniciativa estruturada da própria Confederação Brasileira de Voleibol (CBV). 

Enquanto a crítica de descaso institucional persiste, o investimento privado na base tem crescido. O Comitê Brasileiro de Clubes (CBC) soma mais de R$ 61 milhões aplicados no vôlei desde 2017, em parceria com a CBV, com foco declarado em fortalecer clubes formadores, muitos deles regionais, de menor visibilidade, mas responsáveis por boa parte do surgimento de novos talentos.

Os clubes já não aguentam mais a conta

Se a crise técnica é a parte visível, a crise de gestão é o motor por trás dela. A Superliga, principal competição nacional organizada pela CBV, opera no vermelho. Segundo o próprio balanço da confederação, a edição 2024/25 fechou com custo de cerca de R$ 17 milhões, enquanto os clubes reclamam de premiações baixas e falta de transparência sobre as receitas.

O descontentamento chegou a um ponto de ruptura em outubro de 2025, quando os clubes da elite masculina e feminina decidiram articular a criação de uma Liga Independente para tirar da CBV a gestão comercial da competição, nos mesmos moldes da Liga Forte União, do futebol, e que a Volleyball World, braço comercial criado pela Federação Internacional em parceria com a gestora CVC Capital Partners, fez no vôlei mundial. 

A diferença de valores ajuda a entender a revolta já que hoje a CBV oferece uma ajuda de custo de R$ 60 mil por clube na Superliga. Com o modelo discutido para a nova liga, que já tem proposta da XP Investimentos para captar cerca de R$ 70 milhões junto a investidores, além de interesse manifestado por Globo Ventures e Livemode, cada equipe poderia receber entre R$ 2 e 4 milhões por temporada. A expectativa é que CBV, clubes e investidores avancem nas discussões ao longo de 2026, com a meta de fechar um modelo antes da temporada 2026/27, marcada para novembro.

Procurada pela imprensa, a CBV afirmou publicamente que segue aberta a propostas, sugestões e críticas dos clubes.

O que fica?

A crise do vôlei masculino brasileiro não nasceu na quadra da VNL 2026, ela vem sendo construída em anos de resultados decrescentes, categorias de base sustentadas mais pelo esforço isolado do que por projeto institucional, e uma relação cada vez mais desgastada entre a CBV e os clubes. A pergunta que fica pro ciclo olímpico de Los Angeles 2028 é se a reformulação em curso dentro de quadra, com a nova geração, e fora dela, com a possível liga independente, vai chegar a tempo de reverter o quadro ou se o Brasil vai precisar se acostumar, ao menos por um tempo, a não ser mais favorito.

O legado brasileiro se deu pelo caratér da modalidade no país ou foi sustentado pela sorte de ter uma geração com grandes nomes?



Por Midia Ninja

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