A piscina como refúgio: crianças voltam às aulas de natação em Gaza após três anos  

Portal Inhaí
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Por Renan Paiva

Depois de três anos de guerra, centenas de crianças voltaram a participar de aulas de natação em piscinas construídas artesanalmente na costa da Faixa de Gaza. Feitas com sacos de areia, escombros e trabalho voluntário, as estruturas oferecem mais do que uma atividade esportiva: são espaços temporários de proteção, convivência e reconstrução da infância.

Quem organiza é Amjed Tantesh, que ensina natação em Gaza desde o fim dos anos 1990 e hoje é ele próprio um deslocado, vivendo em Deir al Balah. Em entrevista à agência EFE, ele contou que, ao chegar à cidade, encontrou um lugar sem parques, sem áreas de lazer, sem nada que lembrasse o que as crianças conheciam antes.

Dez aulas contra o medo

A iniciativa, apoiada pela campanha internacional Swim With Gaza, prevê dez aulas para cada criança. As oito primeiras acontecem nas piscinas naturais montadas na praia, onde os alunos ganham confiança e aprendem noções básicas de segurança aquática. As duas últimas são no mar aberto, a etapa que simboliza a autonomia conquistada ao longo do curso.

A rotina combina ensino técnico e acolhimento. Cada grupo deve ter um instrutor para cerca de dez crianças, com professores e salva-vidas acompanhando as atividades. A proposta inclui transporte até a praia, espaço para troca de roupa, lanche e cuidados básicos durante as aulas. Tantesh conta com uma equipe de mais de 50 monitores, e as turmas são abertas a meninos e meninas.

Segundo a campanha, ensinar uma criança ao longo das dez aulas custa cerca de 70 dólares, com alimentação incluída. A meta de arrecadação foi ampliada para 133 mil dólares, o suficiente para atender aproximadamente 1.900 crianças. Cinco das 14 piscinas planejadas ao longo da costa já foram financiadas. A ambição declarada é maior: alcançar 10 mil alunos nos próximos meses, com capacidade estimada em 2.500 crianças por mês.

Não é apenas uma meta esportiva. Em Gaza, onde muitas famílias foram deslocadas e vivem em tendas, garantir que uma criança saiba nadar pode significar reduzir o risco de afogamento. Todos os anos, crianças morrem afogadas nas praias do território. A ausência de piscinas, equipamentos, salva-vidas e aulas regulares transforma o aprendizado em questão de segurança pública, e não de recreação.

Quem está dentro da água

Em seis semanas, cerca de 700 crianças passaram pelas aulas, sendo a maioria delas órfãs, segundo Tantesh. Pela manhã, as turmas são gratuitas e reservadas a quem perdeu os pais em ataques. À tarde, as piscinas abrem para quem chegar.

A reportagem do jornal britânico The Guardian, assinada por Seham Tantesh, em Gaza, e Emma Graham-Harrison, em Jerusalém, ouviu algumas dessas alunas. Alma Shabat, de 13 anos, viu a mãe morrer em um ataque em maio. Depois de três semanas de aula, contou que o nado livre virou seu estilo preferido, que fez amizades novas e que deixou de ter medo das ondas e do mar aberto.

Maryam al Musri, de 10 anos, perdeu o pai na guerra e diz que a piscina lhe oferece a chance de treinar, brincar e respirar um ar diferente do ar da barraca onde vive. 

Laila Qahman, de 14, perdeu o irmão de 7 anos quando uma mesquita perto de onde o menino brincava foi bombardeada. Ela sonha em ser farmacêutica e relatou que ia à praia dia sim, dia não, porque ali sentia estar vivendo a própria vida, em vez de escutar o barulho dos bombardeios de dentro de uma tenda.

Um mar entre a guerra e a infância

Para muitas dessas crianças, a experiência é inédita. Não há aula formal em Gaza há três anos, e quase todos os prédios escolares foram danificados ou destruídos. São cerca de 700 mil crianças em idade escolar no território, e apenas uma minoria consegue vaga nas escolas improvisadas em tendas mantidas por organizações humanitárias.

Em junho, a Comissão de Inquérito da ONU sobre os Territórios Palestinos Ocupados divulgou um relatório sobre o impacto do conflito nas crianças, cobrindo o período entre outubro de 2023 e março de 2026. O documento contabiliza mais de 20 mil crianças mortas e cerca de 44 mil feridas nos dois primeiros anos de guerra, e afirma que a deficiência deixou de ser uma condição médica individual para se tornar um traço demográfico definidor entre os menores de Gaza. Um levantamento da organização War Child com o Centro de Treinamento Comunitário para Gestão de Crise, feito com mais de 500 crianças e responsáveis, apontou que 96% delas sentem que a própria morte é iminente.

Há um cessar-fogo em vigor desde outubro de 2025, mas ele não encerrou as mortes. Na quinta-feira passada (6), a UNICEF informou que pelo menos 300 crianças morreram desde o início da trégua, uma média de uma por dia. A população segue concentrada em cerca de um terço do território que ocupava antes da guerra.

Nesse contexto, a piscina vira uma espécie de sala de aula a céu aberto. Ali as crianças aprendem a flutuar, coordenar movimentos, controlar a respiração e confiar no próprio corpo. Também aprendem a esperar a vez, cuidar dos colegas e reconhecer os limites do mar. São conhecimentos simples em qualquer outro lugar. Em Gaza, podem representar uma forma concreta de proteção.

Escombros que viram abrigo

A história da academia começou em 1996, quando a Palestina estreou em Jogos Olímpicos, em Atlanta, e atletas de Gaza puderam competir pela primeira vez no maior palco do esporte. Tantesh quis chegar lá, mas começou tarde demais como nadador profissional e decidiu perseguir o objetivo por meio de uma geração seguinte.

Havia também um motivo mais imediato. Todo verão, famílias lotavam a praia para se refrescar, quase ninguém sabia nadar e não havia salva-vidas. O maior obstáculo no início, segundo ele, foi convencer os pais: o mar era visto como uma ameaça.

Os primeiros anos de aula aconteceram no porto de Gaza, onde os quebra-mares seguravam as ondas. Depois vieram as piscinas ao longo da costa, onde cerca de 11 mil pessoas aprenderam a nadar. A maior tinha mais de mil metros quadrados e havia sido construída com os restos de casas bombardeadas em 2014. Todas foram destruídas nos ataques a partir de 2023, que também mataram dezenas de alunos e ao menos seis treinadores.

Sem máquinas e sem material para reerguer instalações convencionais, a equipe escolheu uma saída comunitária: construir na própria praia, com o que estava disponível. O que sobrou da destruição passou a servir de parede, delimitando espaços e protegendo as crianças das correntes mais fortes. A precariedade revela a dimensão da crise, mas também a capacidade de organização de quem ficou. Quando não há aula, as piscinas seguem abertas à comunidade.

O irmão que ensinou a nadar

O projeto é também uma homenagem. O irmão mais velho de Tantesh, campeão de karatê, foi morto em um ataque no ano passado, enquanto os dois deixavam a casa da família sob ordem de evacuação israelense. Foi ele quem ensinou Amjed a nadar e quem o levou ao esporte. Morreu nos braços do irmão.

Segundo o The Guardian, ver as crianças deixarem o horror para trás por algumas horas tem sido parte da própria recuperação de Tantesh. Ele diz que a primeira pessoa a quem esse projeto ajudou foi ele mesmo.

Esporte como direito

Em situações de guerra, iniciativas esportivas costumam ser tratadas como secundárias diante das necessidades de alimentação, abrigo e atendimento médico. Mas a experiência de Gaza mostra que o direito ao esporte também está ligado à saúde física e mental, à dignidade e à reconstrução social.

Uma criança não deixa de ser criança porque vive em uma zona de conflito. Ela continua tendo direito a brincar, aprender, conviver e imaginar um futuro. Oferecer essas possibilidades não significa ignorar a violência. Significa impedir que a violência ocupe todos os espaços da existência.

Há ainda um efeito coletivo. O programa movimenta professores, salva-vidas e profissionais de apoio, gerando trabalho em um lugar onde as oportunidades foram drasticamente reduzidas. Financiar as aulas, na leitura da campanha, também é ajudar essas famílias a se sustentarem.

Ainda assim, a piscina funciona como refúgio, não como solução. Ela não substitui escolas, hospitais, moradias ou políticas de proteção, e não resolve a guerra. O que oferece é um intervalo de segurança e a lembrança de que reconstruir uma sociedade começa por garantir que suas crianças possam ocupar espaços sem medo.

A liberdade de voltar à água

“Gaza foi destruída. Mas o mar continua chegando”, afirma a campanha Swim With Gaza. As ondas seguem quebrando na costa, a maré continua subindo e baixando, e um novo dia começa.

A frase pode soar apenas poética, mas carrega uma realidade concreta: mesmo diante da devastação, a vida insiste em reaparecer. Ela surge nos corpos das crianças que entram na água, no trabalho dos professores voluntários e nas mãos que levantam muros de areia para construir uma piscina.

Ao final das dez aulas, quando os alunos chegam ao mar aberto, o aprendizado ultrapassa a técnica. Cada braçada é uma resposta ao confinamento. Cada mergulho afirma que a infância não pode ser reduzida à sobrevivência.

Em Gaza, nadar é aprender a permanecer à tona. É um gesto de cuidado, uma medida de segurança e, sobretudo, uma forma de dizer que o futuro ainda não foi completamente tomado pela guerra.

Serviço

O projeto divulga atualizações e formas de apoio pelo site da campanha Swim With Gaza: swimwithgaza.com



Por Midia Ninja

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