
Na manhã desta quinta-feira (3), a Polícia Civil de Pernambuco deflagrou a 17ª Operação de Repressão Qualificada do ano, batizada de Pactum Amicis. Sob o comando do delegado Jeová Miguel, da 3ª Delegacia de Combate à Corrupção (3ª DECCOR), a operação tem como alvo uma suposta organização criminosa envolvida em corrupção ativa e passiva, fraudes em licitação e lavagem de dinheiro.
Foram cumpridos mandados de busca e apreensão, além de ordens de prisão, bloqueio de bens e suspensão de exercício de funções públicas. Entre os alvos está o prefeito de Pesqueira e liderança do povo Xukuru, Cacique Marcos Luidson de Araújo, além de dois vereadores indígenas da mesma etnia. Esta ação representa mais um capítulo na longa história de criminalização e perseguição que o povo Xukuru enfrenta por parte do Estado brasileiro.
Histórico de criminalização
O povo Xukuru do Ororubá, com território situado no agreste pernambucano, carrega uma longa trajetória de violações. Em 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado brasileiro por negligência na demarcação do território Xukuru e pela omissão diante da violência contra o povo. A sentença evidenciou o que lideranças indígenas denunciam há décadas: a conivência do Estado e suas instituições com a repressão.
A perseguição, no entanto, remonta a muito antes, quando o Estado brasileiro proibiu práticas religiosas ancestrais. Paralelamente, ameaças e ataques contra lideranças se intensificaram. O Cacique Xikão, referência do povo, foi continuamente ameaçado e ignorado pelas autoridades.
Em 1992, Everaldo Bispo, filho do pajé, foi assassinado. Três anos depois, o procurador da Funai, Geraldo Rolim, foi morto. Em nenhum dos casos houve responsabilização ou reconhecimento da ligação com a disputa por terras indígenas.
A escalada de violência culminou, em 1998, com o assassinato brutal de Cacique Xikão. Após sua morte, sua companheira, Dona Zenilda, passou a ser alvo de tentativas de criminalização. Em 2001, Chico Quelé foi assassinado, e lideranças como Danda e o vice-cacique Seu Zé de Santa também enfrentaram processos judiciais.
Em 2002, o povo Xukuru viveu uma das violações mais graves de sua fé: a exumação do corpo de Xikão, autorizada em total desrespeito às tradições espirituais. No mesmo ano, o fazendeiro acusado de ser o mandante do assassinato do cacique apareceu morto em sua cela, encerrando o processo sem justiça.

A perseguição política se moderniza
O ano de 2003 marcou uma nova etapa: o Cacique Marcos, filho de Xikão, sobreviveu a um atentado que resultou na morte de dois companheiros. O conflito em Cimbres gerou mais criminalizações. Em 2004, Véio, filho de Chico Quelé, foi assassinado, e mais dois indígenas foram incriminados.
Décadas depois, a perseguição continua, agora em outro contexto, uma vez que ele ocupa o cargo de prefeito. Em 2020, Cacique Marcos foi eleito prefeito de Pesqueira, mas impedido de assumir o cargo por conta de uma condenação judicial controversa, que depois foi anulada pelo STJ, em 2023, reconhecendo o erro judicial.
Ainda assim, a perseguição não acabou. Em 2024, a campanha eleitoral foi marcada por ataques organizados contra sua imagem, mas o cacique saiu novamente vitorioso. Agora, em 2025, se vê outra vez no centro de uma operação policial que, para muitos, tem motivações políticas e mira diretamente a liderança de um povo que resiste há mais de três décadas.
Mudam os atores, mas a prática é a mesma: a rede de perseguição com um novo agente, o delegado Rossine, que faz uso político das instituições e da máquina de desinformação contra o Cacique Marcos.
A ofensiva contra o Cacique Marcos, prefeito de Pesqueira e liderança do povo Xukuru, não se dá apenas nos tribunais ou em operações policiais.
Ela se estrutura numa rede bem articulada, onde o delegado Rossine exerce um papel central, articulando o uso seletivo de instituições do Estado e ferramentas de propaganda digital para alimentar uma narrativa de criminalização.
O histórico começa a se evidenciar em 2022, quando a DRACCO (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) deflagrou uma operação que, embora não tivesse o Cacique Marcos como alvo, foi amplamente explorada pela mídia como indício de corrupção na Prefeitura de Pesqueira. Sem apresentar qualquer prova de envolvimento direto do cacique, o caso foi amplificado de forma distorcida, criando um clima de suspeita generalizada.
O episódio serviu de base para uma campanha de desgaste político que teve Rossine como articulador. Em 2023, o delegado registrou um boletim de ocorrência alegando ter sido ameaçado pelo cacique. Em seguida, por meio da ADEPE (Associação dos Delegados de Polícia de Pernambuco), enviou um ofício solicitando que o caso fosse remetido para a mesma DRACCO, a mesma delegacia que estava no comando da operação anterior e que, novamente, está à frente da investigação deflagrada em 2025. Juristas consultados pela reportagem apontam que acusações de ameaça não são, tecnicamente, de competência da DRACCO, o que levanta dúvidas sobre a motivação e legalidade da movimentação.
A atuação de Rossine vai além dos autos: ele também conta com uma rede ativa de desinformação e ataques virtuais. Seu marqueteiro, Chico Lopes, desempenha papel estratégico nessa engrenagem. Já agora, em abril de 2025, após a nova operação da Polícia Civil, Chico divulgou nas redes sociais um card anunciando a live “Pesqueira Nua e Crua”, em tom de espetáculo político-midiático. A promessa de expor versões distorcidas de um processo ainda em andamento e sob segredo de justiça reforça a suspeita de uso político da operação. Trata-se de uma tentativa de direcionar a opinião pública antes mesmo de qualquer decisão judicial, uma prática que, em democracias sérias, seria vista como grave violação ética.
Para o povo Xukuru, a operação Pactum Amicis não é sobre corrupção, é sobre continuidade. Continuidade de uma lógica colonial que criminaliza quem ousa ocupar espaços de poder e reivindicar seus direitos. A cada tentativa de silenciamento, o povo resiste. E resiste, como sempre, com o peso da memória e a força de uma história que o Estado insiste em ignorar.