Oscar 2027 pode se tornar a edição com mais filmes LGBTQIAPN+ da história

Portal Inhaí
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Por Mateus Felipe

O Oscar 2027 caminha para o que pode se tornar uma edição histórica. Isso porque, além do número expressivo de produções LGBTQIAPN+ nos principais festivais internacionais de cinema nesta temporada, vários países escolheram tais narrativas para representá-los na disputa pela indicação à categoria de Melhor Filme Internacional. Porém, apesar do avanço aparente, o cenário geopolítico atual aponta um contexto bem diferente.

A luta pelos direitos de pessoas LGBTQIAPN+ passa por um momento de retrocesso legislativo no mundo todo, marcado pela perda de proteções e por poucos avanços. De acordo com levantamentos de agências internacionais, 65 países ainda consideram crime as relações entre pessoas do mesmo gênero. Em 2025, o número de países com leis punitivas voltou a subir depois de quase dez anos, impulsionado por novas regras, recriminalização e penas mais duras em nações como Burkina Faso, Trinidad e Tobago e Senegal. 

Além disso, pelo menos 63 territórios mantêm barreiras legais que limitam a liberdade de expressão sobre diversidade sexual, proibindo falar sobre identidade de gênero e orientação sexual. No aspecto financeiro, os grupos de defesa perderam muito dinheiro com o fim de programas de ajuda dos Estados Unidos no começo de 2025, o qual retirou US$ 125 milhões em verbas e deixou muitos projetos parceiros sob risco de fechar.

Toda essa instabilidade política reflete diretamente na indústria cinematográfica. O relatório Where We Are in Film, da GLAAD, mostra que a presença de personagens queer nos lançamentos dos dez maiores estúdios caiu para 20,4% em 2025, representando a terceira queda seguida desde o recorde de 28,5% em 2022. 

Consequentemente, essa piora prejudicou a diversidade como um todo e fez a proporção de personagens LGBTQIAPN+ não brancos cair para 30%. Porém, o dado mais crítico é direcionado à comunidade trans, pois nenhum personagem transgênero apareceu nas produções analisadas. Esse apagamento ilustra o contexto atual em que crescem os ataques políticos contra pessoas trans em vários lugares. Do mesmo modo, o gênero infantil e de animação registrou zero inclusão de personagens LGBTQIAPN+ em 2025, enquanto grandes franquias e sequências cinematográficas reduziram ou eliminaram papéis queer anteriormente presentes em suas narrativas.

Apesar do cenário alarmante, enquanto grandes estúdios adotam posturas comercialmente cautelosas, realizadores independentes utilizam festivais e novas estéticas para responder diretamente às tensões internacionais, guerras e ondas de conservadorismo. Essas produções, além de conquistarem destaques e prêmios nos principais festivais ao longo de 2025 e 2026, agora chegam com força para a temporada 2027 do Oscar.

Com narrativas que vão desde revisões históricas, ficção científica até dramas de amadurecimento e visões contemporâneas sobre identidade, reunimos onze produções LGBTQIAPN+ que hoje ocupam lugares diferentes na corrida rumo à edição quase centenária da premiação estadunidense. Se confirmadas, essas indicações podem estabelecer um marco histórico para o cinema queer e uma resposta clara ao mundo.

“A Bola Preta” (La Bola Negra) – Espanha

Dirigida e roteirizada por Javier Calvo e Javier Ambrossi, a história se baseia na peça inacabada “La Piedra Oscura”, do dramaturgo espanhol Federico García Lorca, e atravessa 85 anos da história espanhola através da vida de três homens gays em épocas diferentes, cujas memórias, amores e silenciamentos se espelham e revelam feridas esquecidas do país. O elenco reúne Álvaro Lafuente Calvo (Guitarricadelafuente), Milo Quifes, Carlos González e Miguel Bernardeau, além de participações de Penélope Cruz e Glenn Close.

Vencedor do prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes de 2026, o longa foi confirmado como representante oficial da Espanha na disputa por uma vaga entre os indicados a Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Além da corrida internacional, o filme também é apontado como um dos favoritos a figurar em categorias como Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado. Com estreia confirmada nos cinemas brasileiros para janeiro de 2027, a obra também abre o 28º Festival do Rio no dia 1º de outubro de 2026, no Cine Odeon.

“No Caminho” (En el Camino) – México

Representante oficial do México, este drama de road movie narra o encontro entre Veneno, um jovem andarilho que ganha a vida como garoto de programa em paradas de caminhão, e Muñeco, um caminhoneiro solitário. À medida que viajam juntos, os dois constroem uma intimidade inesperada em um universo marcado pelo machismo, enquanto segredos do passado ameaçam a vida de ambos. Os protagonistas são interpretados por Víctor Miguel Prieto e Osvaldo Sánchez.

Sob direção e roteiro de David Pablos, o longa estreou no Festival de Veneza 2025, onde venceu o prêmio de Melhor Filme na mostra Orizzonti e conquistou o prestigiado Queer Lion Award, além de ter sido exibido na edição passada da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme já está disponível em plataformas de streaming e aluguel digital.

“Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte” (Teenage Sex and Death at Camp Miasma) – Estados Unidos

Dirigido e roteirizado por Jane Schoenbrun, o longa acompanha uma cineasta queer contratada para dirigir uma nova sequência de uma franquia slasher decadente. Obcecada em escalar a atriz que interpretou a final girl do filme original, ela viaja até um acampamento abandonado para encontrá-la, e as duas mergulham em um universo psicossexual marcado por desejo, delírio e violência. O elenco principal traz Hannah Einbinder e Gillian Anderson.

A produção estreou como filme de abertura da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes 2026, onde venceu a Queer Palm. Distribuído pela Mubi, o filme está nos cartazes dos cinemas brasileiros desde agosto e, apesar de o gênero terror ser pouco valorizado pela Academia, é citado por críticos como uma aposta para indicações em categorias técnicas e de atuação.

“Elsinore” – Reino Unido

Com direção de Simon Stone e roteiro de Stephen Beresford, a cinebiografia é centrada nos meses finais da vida do ator britânico Ian Charleson, conhecido por papéis em “Carruagens de Fogo” e “Gandhi”. Ambientado no outono de 1989, o filme retrata o momento em que Charleson assume o papel-título de “Hamlet” no National Theatre de Londres. Diagnosticado com AIDS, o ator escondeu a gravidade de sua saúde para realizar as 24 apresentações históricas da peça. O elenco principal traz Andrew Scott no papel de Charleson, ao lado de Olivia Colman como sua médica, além de Billie Piper, Johnny Flynn e David Dawson.

O filme estreou mundialmente no Festival de Telluride 2026 e foi confirmado como abertura do Festival de Londres deste ano. A atuação de Andrew Scott foi aclamada pela crítica especializada, colocando-o entre os nomes mais fortes cotados para o Oscar de Melhor Ator e, com isso, abrindo a possibilidade de torná-lo o primeiro homem abertamente gay a vencer o prêmio principal de atuação da Academia. Ainda sem trailer oficial divulgado, o longa estreia em novembro nos cinemas americanos e, até o momento, ainda não há data de lançamento confirmada no Brasil.

(O filme não possui trailer oficial até o momento.)

Foto: Divulgação

“Chove Sobre Babel” (Llueve sobre Babel) – Colômbia

Lançado em 2025, o longa colombiano tem direção, roteiro e produção da estreante Gala del Sol e propõe uma releitura surrealista e punk do “Inferno”, de Dante, ambientada em Cali. A história se passa na boate Babel, um purgatório governado pela personificação da morte, chamada La Flaca, onde os frequentadores apostam anos de suas vidas. O elenco traz Saray Rebolledo no papel principal, além dos atores Felipe Aguilar Rodríguez, Jhon Narváez e John Alex Castillo.

O filme estreou mundialmente no Festival de Sundance e, além de passar pelo Festival Internacional de Cinema de Roterdã, integrou a mostra Midnight Movies do Festival do Rio de 2025. Neste ano, a Academia Colombiana de Artes e Ciências Cinematográficas selecionou o filme como a escolha oficial do país para disputar o Oscar de Melhor Filme Internacional e também o Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-Americano.

“Coward” – Bélgica

Aposta oficial da Bélgica, “Coward” é o terceiro longa do cineasta Lukas Dhont e tem roteiro escrito em parceria com Angelo Tijssens. Ambientado no front de batalha da Primeira Guerra Mundial, em 1916, a trama acompanha Pierre, um jovem soldado recém-chegado às trincheiras belgas, e seu envolvimento com Francis, um soldado que organiza espetáculos de teatro para elevar o moral das tropas em meio à destruição do conflito.

O filme estreou na competição oficial do Festival de Cannes 2026, onde os atores principais, Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, venceram em conjunto o prêmio de Melhor Ator. A produção, que marca o retorno do diretor belga à corrida do Oscar após o sucesso de “Close”, já tem presença confirmada na programação do 28º Festival do Rio, com distribuição da Mubi em parceria com a O2 Play.

“Barbara Para Sempre” (Barbara Forever) – Estados Unidos

Dirigido por Brydie O’Connor e uma das possibilidades à indicação de Melhor Documentário no Oscar 2027, o documentário é uma exploração construída a partir de material de arquivo sobre a vida, a obra e o legado da cineasta experimental lésbica Barbara Hammer, pioneira na autorrepresentação queer no cinema e falecida em 2019. Guiado pela própria voz de Hammer, o filme reúne décadas de registros pessoais que ela fez de seu corpo, de suas relações e de sua trajetória artística.

O longa estreou na Competição de Documentários dos Estados Unidos do Festival de Sundance 2026, onde venceu o Jonathan Oppenheim Editing Award, e também passou pela Berlinale, onde levou o Teddy Award de Melhor Documentário. No Brasil, integrou também a seleção oficial da 15ª edição do festival Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, na mostra Exibições Especiais.

“Feito Pipa” – Brasil

Dirigido por Allan Deberton e escrito por André Miranda, o drama brasileiro acompanha a história de Gugu, um garoto de 11 anos apaixonado por futebol, dança e maquiagem, criado de forma livre e afetuosa pela avó, Dilma. Quando ela começa a apresentar sintomas avançados de Alzheimer, o menino esconde a situação por medo de ser forçado a morar com o pai distante e rígido, o caminhoneiro Batista. O elenco conta com o jovem Yuri Gomes como protagonista, acompanhado por Teca Pereira, Lázaro Ramos, Carlos Francisco e Georgina Castro.

Vencedor do Urso de Cristal de Melhor Filme e do Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus do Festival de Berlim 2026, além de quatro prêmios e uma Menção Honrosa para Yuri Gomes no 54º Festival de Cinema de Gramado, o longa foi anunciado nesta quarta-feira (16/9) pela Academia Brasileira de Cinema como representante oficial do Brasil na disputa por uma vaga entre os indicados a Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Entre os seis finalistas, “Feito Pipa” concorria com “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, outro título de temática queer. O filme estreia nos cinemas brasileiros em novembro de 2026, depois de passar pela mostra Première Brasil no 28º Festival do Rio, em outubro.

“Club Kid” – Estados Unidos

Longa de estreia do diretor Jordan Firstman, o filme acompanha Peter, um promoter mergulhado na vida noturna queer de Nova York, cuja rotina de festas é interrompida pela chegada repentina de um filho de dez anos que ele não sabia que tinha. A partir daí, o protagonista precisa repensar a identidade adulta que vinha evitando.

O filme estreou no Festival de Cannes 2026, onde recebeu recepção calorosa da crítica e do público, e chega aos cinemas americanos em distribuição limitada pela A24 no dia 6 de novembro. No Brasil, será exibido na cerimônia de encerramento internacional do Festival do Rio 2026.

“Fantasy” – Eslovênia

Escolha oficial do país na disputa internacional do Oscar, o filme acompanha a rotina de três amigas tomboys cuja convivência e percepções sobre gênero, desejo e identidade se transformam ao conhecerem Fantasy, uma mulher trans. Escrito e dirigido pela cineasta eslovena Kukla, reúne no elenco principal as atrizes Alina Juhart, Sarah Al Saleh, Mina Milovanović e Mia Skrbinac.

A obra estreou mundialmente no Festival de Locarno 2025 e passou pelos festivais de Sarajevo e Vancouver. No Brasil, o longa estreou em outubro do mesmo ano na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

“Clarissa” – Nigéria/Estados Unidos

Dirigido pelos irmãos gêmeos Arie e Chuko Esiri, o filme adapta o romance “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf, para os dias atuais em Lagos, na Nigéria. A trama acompanha Clarissa, uma mulher da alta sociedade nigeriana, enquanto organiza uma festa em sua casa e rememora relações e sentimentos do passado. Entre as lembranças está Sally, mulher por quem a protagonista nutriu, ainda jovem, uma conexão profunda e um romance nunca plenamente vivido. O elenco reúne Sophie Okonedo no papel principal, além de Ayo Edebiri, David Oyelowo, India Amarteifio e Toheeb Jimoh.

O longa estreou na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes 2026, sendo apenas a segunda produção nigeriana selecionada na história do festival, e concorreu à Queer Palm, justamente por essa leitura da relação entre Clarissa e Sally. Distribuído pela Neon, o filme chega aos cinemas americanos em 11 de dezembro de 2026 e é apontado por veículos especializados como um possível concorrente em categorias como Melhor Atriz, para Sophie Okonedo, e Melhor Roteiro Adaptado.

(O filme não possui trailer oficial até o momento.)

Foto: Divulgação

A pré-lista do Oscar 2027 será divulgada em 15 de dezembro de 2026. A lista oficial de indicados sai em 21 de janeiro de 2027, e a cerimônia acontece em 14 de março do mesmo ano. Neste intervalo, ficará claro quantas dessas produções chegarão à disputa final pela estatueta e se outras produções do gênero terão reconhecimento nas demais categorias.

A mensagem, entretanto, está clara. Em um momento de recuos legislativos, cortes de financiamento e apagamento de personagens queer nas telas dos grandes estúdios, tais obras mostram que a existência LGBTQIAPN+ mais do que nunca deve ser contada e premiada.



Por Midia Ninja

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