Por Kaio Phelipe
Toda revista literária escolhe o que merece ser lido. Criada por Ewerton Ulysses Cardoso em Salvador, há cinco anos, a revista O Odisseu acompanha a produção literária brasileira, sem o filtro do mercado tradicional, que se espreme para caber em uma bolha.
A inspiração para fundar a revista veio de leituras que Ewerton acompanhava, em especial o Suplemento Pernambuco. Essa referência ajudou a dar forma a um olhar sobre o que se produzia fora do eixo comercial, para colocar em prática o conceito de bibliodiversidade. O interesse pela literatura independente surgiu desde os primeiros números, impulsionado pelo vínculo com a cena soteropolitana e pela presença de colaboradores ligados à Universidade Federal da Bahia. As matérias que mais circulavam no início eram as que discutiam essas obras.

Essa escolha editorial encontrou uma cena em expansão e rompeu com o vício do jornalismo cultural de repetir os mesmos nomes e os mesmos lançamentos dentro de um repertório estável. As publicações independentes cresciam em todo o Brasil. Autores encontravam outros caminhos para colocar seus livros em circulação, e uma quantidade cada vez maior de leitores passou a buscar outras opções de leitura. A resposta de Ewerton foi tratá-los sem a condescendência que acompanha a literatura independente e com o mesmo interesse e rigor dedicados aos escritores já reconhecidos. Ewerton e O Odisseu passaram a registrar o movimento que crescia e a produzir condições para que ele fosse acompanhado de perto.
Recentemente, a revista marcou presença em duas das principais festas literárias do país, integrando a programação paralela da Flip, em parceria com a Casa Acaso, e, durante a Flipelô, em sua cidade de origem, participou da programação oficial. A presença nesses eventos não representa uma mudança de natureza da publicação, mas desdobra o trabalho construído ao longo dos anos por Ewerton, que levou para esses espaços o repertório do início na UFBA, os colaboradores que mantêm o alto nível das publicações, os autores independentes e a maneira de pensar a circulação literária.
Ao mesmo tempo em que esses grandes eventos aconteciam, O Odisseu recebeu outro reconhecimento muito importante. Uma pesquisa de conclusão de curso está sendo realizada na PUCRS, tendo a revista como objeto de estudo. Para Ewerton, essa talvez seja “a maior validação ou consagração que a revista poderia receber”. Seu trabalho passou a ser observado pela academia como parte da história da literatura brasileira.
