É real, montagem ou IA? Observatório acompanha como a inteligência artificial entra na disputa política brasileira

Portal Inhaí
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Por Vinicius Francisco

Um vídeo imita apresentadores do Jornal Nacional anunciando um resultado eleitoral que nunca aconteceu. Outro mostra o presidente Lula em uma situação inventada. Em uma terceira publicação, uma candidata usa inteligência artificial abertamente para divulgar seu número nas urnas. No celular, tudo isso pode aparecer misturado a vídeos reais, notícias, memes e propaganda. Como saber o que aconteceu de verdade, o que é brincadeira e o que foi criado para enganar?

É nesse terreno que atua o Observatório IA nas Eleições, iniciativa da Data Privacy Brasil e da Aláfia Lab, financiada pela Luminate. O projeto funciona como uma espécie de radar e arquivo público: procura casos em que a inteligência artificial aparece no debate político, registra quem publicou, onde o conteúdo circulou e em que contexto foi usado. A ideia é acompanhar como essa tecnologia entra na formação da opinião política, na decisão de voto e na confiança no processo eleitoral.

O site já reúne exemplos bastante diferentes. Em agosto, um vídeo feito com IA simulou os jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos anunciando uma vitória de Flávio Bolsonaro à Presidência. Apesar da aparência de telejornal, o conteúdo foi classificado pelo Observatório como sátira. Há também imagens geradas por IA com Lula, peças críticas ao presidente e um vídeo de uma página pró-Lula que transformou integrantes da família Bolsonaro em bonecos de Lego. Uma candidata ao governo do Amazonas, por sua vez, utilizou a tecnologia para divulgar seu próprio número eleitoral.

Os exemplos ajudam a entender uma diferença essencial: aparecer no Observatório não significa automaticamente que um conteúdo seja falso, ilegal ou desinformativo. A inteligência artificial pode ser usada em propaganda assumida, humor ou crítica política. Também pode fabricar uma informação falsa e apresentá-la como verdadeira. Por isso, o projeto diferencia conteúdos satíricos daqueles considerados enganosos e registra se foram usados para atacar ou favorecer atores políticos.

Um caso envolvendo Lula mostra como essa fronteira pode ficar confusa. No início do ano, imagens do presidente de sunga foram alteradas com IA: apoiadores aumentaram artificialmente seus músculos, enquanto críticos produziram outra versão para fazê-lo parecer mais velho. As peças tinham intenção de sátira, mas alguns usuários acreditaram que as imagens eram verdadeiras.

Por trás dessas montagens está a chamada inteligência artificial generativa, tecnologia capaz de criar textos, imagens, áudios e vídeos a partir de comandos. Quando a manipulação consegue imitar de forma convincente o rosto ou a voz de alguém e apresentar uma situação falsa como se fosse real, temos um deepfake. Em termos simples: é possível fazer uma pessoa parecer dizer ou fazer algo que nunca aconteceu.

O Observatório acompanha também deepnudes, imagens sexualizadas falsas produzidas com IA, além de conteúdos sintéticos relacionados a discurso de ódio e outras violações de direitos humanos. Um vídeo ou imagem pode, portanto, servir para fazer rir, conquistar votos, atacar uma candidatura ou espalhar uma narrativa inventada. O que interessa ao projeto é entender como aquela peça entra na conversa política.

Como esse radar funciona

Não existe uma ferramenta capaz de vasculhar automaticamente toda a internet e encontrar cada postagem feita com inteligência artificial. O trabalho envolve buscas frequentes em TikTok, Instagram, Facebook, X e Google, além do acompanhamento de veículos jornalísticos e agências de checagem. A equipe procura termos como “deepfake”, “inteligência artificial” e “eleições” e acompanha perfis de possíveis candidatos e outras figuras relevantes da política brasileira.

Quando encontra um caso, o Observatório registra informações que ajudam a reconstruir sua história: quando foi publicado, em qual plataforma, quem fez a postagem, qual o formato e em que contexto o conteúdo apareceu. O público também pode colaborar e enviar materiais pelo próprio site para análise da equipe.

O monitoramento não fica restrito aos meses oficiais de campanha. O projeto trabalha com a ideia de “campanha permanente”, que, apesar do nome técnico, descreve algo bastante familiar: políticos disputam atenção, constroem suas imagens e enfrentam adversários nas redes durante o ano inteiro. Um vídeo publicado meses antes da eleição pode voltar a circular perto da votação e ganhar um peso completamente diferente.

Esse acompanhamento, porém, tem limites. As próprias plataformas digitais reduziram o acesso de pesquisadores aos seus dados, dificultando uma visão completa do que circula nas redes. Além disso, as buscas podem mostrar resultados diferentes para cada pessoa, porque as plataformas selecionam conteúdos de acordo com o comportamento de seus usuários.

Por isso, o banco do Observatório não é um levantamento de tudo o que foi produzido com IA na política brasileira. É um conjunto de casos encontrados e documentados a partir da metodologia do projeto. Essa diferença é importante para não transformar seus números em uma fotografia absoluta da internet.

Quando a discussão chega ao celular

Para quem não acompanha tecnologia ou pesquisa eleitoral, o tema pode parecer distante. Mas é na tela do celular que seus efeitos ficam mais concretos. Em maio, por exemplo, o Observatório registrou um vídeo que manipulava a imagem do jornalista Hélter Duarte para atribuir a ele a informação falsa de que Lula teria 72,9% das intenções de voto. O material circulou no TikTok e foi posteriormente desmentido por uma agência de checagem.

Em outro caso, conteúdos feitos com IA simularam notícias sobre uma suposta operação dos Estados Unidos contra o Brasil. As publicações usavam a aparência de telejornal e imagens manipuladas de Lula e Donald Trump para dar credibilidade a uma informação falsa.

É aí que documentar esses conteúdos pode ajudar. Um vídeo pode ser apagado, reaparecer em outro perfil ou circular sem qualquer informação sobre sua origem. Ao registrar quem publicou, quando surgiu e em qual contexto a inteligência artificial foi usada, o Observatório cria uma referência para jornalistas, pesquisadores e para o próprio público acompanharem essas estratégias.

O projeto não pretende dizer ao eleitor em quem votar nem funciona como um botão que determina automaticamente o que é verdadeiro ou falso. Seu papel é oferecer contexto num ambiente em que uma sátira pode ser confundida com notícia, uma propaganda pode parecer espontânea e uma fala que nunca existiu pode chegar ao celular com rosto e voz de uma pessoa real.

Com ferramentas capazes de fabricar cenas convincentes em poucos minutos, a pergunta “é verdade ou mentira?” começa a ganhar outras companheiras: quem publicou? De onde veio? Há uma fonte confiável? É humor, propaganda ou está tentando se passar por um fato?

Em uma eleição atravessada pela inteligência artificial, aprender a fazer essas perguntas também passou a fazer parte do ato de se informar.

Serviço

O Observatório IA nas Eleições disponibiliza gratuitamente os casos documentados, a metodologia utilizada na pesquisa, relatórios e um canal para que o público envie conteúdos para análise.

Acesse o Observatório IA nas Eleições



Por Midia Ninja

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