Quem banca o poder? Doações milionárias criam zona de sombra nas eleições de 2026

Portal Inhaí
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Por Vinicius Francisco

Você sabe quem está por trás da campanha de quem pede seu voto? A pergunta parece simples, mas as contas eleitorais nem sempre oferecem uma resposta.

Até 24 de agosto, os partidos haviam declarado R$ 43,4 milhões em doações privadas para sua manutenção, segundo levantamento da Folha de S.Paulo com dados do Tribunal Superior Eleitoral. O valor supera a metade dos R$ 78 milhões recebidos diretamente pelas campanhas.

Entre os maiores doadores, 114 pessoas deram mais de R$ 20 mil cada, somando R$ 24,4 milhões. Do total recebido pelas siglas no ano, R$ 21,7 milhões entraram entre junho e agosto. Em 2025, quando não houve eleição, os doadores acima de R$ 20 mil somaram R$ 15,4 milhões, e nenhuma contribuição individual ultrapassou R$ 1 milhão.

As doações não são secretas. Nome, valor e data aparecem no sistema de contas partidárias, separado das contas dos candidatos. As campanhas devem informar seus recebimentos à Justiça Eleitoral em até 72 horas. Se o partido transferir o mesmo recurso privado a um candidato, também precisa identificar o doador original.

A zona de sombra surge quando a sigla mantém a contribuição para suas atividades e, separadamente, envia recursos públicos a uma candidatura. A conta eleitoral registra o partido e o fundo utilizado, mas não mostra se quem financiou a estrutura partidária influenciou aquela escolha.

O Fundo Eleitoral é dinheiro público exclusivo das eleições. O Fundo Partidário pode custear tanto o funcionamento das legendas quanto campanhas. A doação privada não se transforma em verba pública. O que os dados não revelam é se ela pesou na distribuição desses fundos.

Um dos casos envolve o Republicanos. Em junho, 16 pessoas ligadas a empresas do setor sucroenergético doaram cerca de R$ 1,3 milhão ao diretório nacional. Depois, a campanha de Tarcísio de Freitas recebeu R$ 8,8 milhões da legenda: R$ 7,8 milhões do Fundo Eleitoral, enviados pelo diretório nacional, e R$ 1 milhão do Fundo Partidário, repassado pelo diretório paulista.

A proximidade das operações não prova que esses doadores financiaram Tarcísio nem que houve acordo. Ela expõe a pergunta que o sistema não responde: contribuições privadas à estrutura partidária influenciam a distribuição de recursos públicos?

À Folha, representantes das empresas disseram que as contribuições foram pessoais e legais. Republicanos e a campanha de Tarcísio não responderam ao jornal.

Também constam nos registros R$ 3 milhões do governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta, ao Republicanos; R$ 2 milhões de José Seripieri Filho, controlador da Amil, ao diretório municipal do PT em Araraquara; e R$ 2 milhões do ex-ministro Fabiano Silveira ao MDB da Paraíba. Os registros mostram que doações milionárias para a manutenção partidária atravessam diferentes legendas e setores econômicos.

As contas definitivas de 2026 devem ser apresentadas até 30 de junho de 2027, mas os registros provisórios já são públicos e devem ser divulgados pelo TSE em tempo real. Os nomes, portanto, não ficam escondidos até o próximo ano. O que pode permanecer invisível é seu eventual vínculo com uma candidatura.

Desde 2015, empresas não podem financiar partidos ou campanhas. As doações citadas foram feitas por pessoas físicas, mesmo quando se trata de empresários, executivos ou integrantes do agronegócio.

Os dados não provam crime, irregularidade ou troca de favores. A questão é de transparência democrática. Se o eleitor precisa cruzar sistemas e fundos para entender como o dinheiro circula, as informações podem ser públicas e, ainda assim, as relações de poder permanecer nas sombras.



Por Midia Ninja

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