Talvez essa seja uma pergunta incômoda demais para um país acostumado a transformar a roupa das mulheres em assunto de política.
Dez anos depois do impeachment de Dilma Rousseff, uma outra história chama atenção. Não porque um terno caro seja prova de corrupção. Não é. Não porque um alfaiate tenha responsabilidade pelos atos de seus clientes. Também não tem. E muito menos porque uma costureira possa ser responsabilizada pelas escolhas políticas de quem veste suas criações.
Mas porque, quando olhamos para os grandes escândalos brasileiros, existe uma coisa que permanece quase sempre no mesmo lugar: o poder continua usando terno.
De um lado, aparece o alfaiate dos famosos, citado no escândalo envolvendo fraudes no INSS. De outro, surge o nome de outro alfaiate, mencionado em uma conversa relacionada ao Banco Master.
E então começam as perguntas sobre o preço dos ternos.
Dez mil. Vinte mil. Cinquenta mil. Cem mil reais.
Valores que impressionam.
Mas a roupa, por si só, não explica nada.
Um terno caro não transforma ninguém em criminoso. Um vestido caro tampouco transforma uma mulher em corrupta.
E é justamente aí que começa a reflexão.
Quando era um vestido
Durante os anos em que Dilma ocupou a Presidência da República, seu guarda-roupa foi inúmeras vezes transformado em pauta política e jornalística.
A roupa era analisada.
O vestido era comentado.
O cabelo era comentado.
O corpo era comentado.
O estilo era comentado.
Até o preço de peças usadas pela presidenta se transformava em assunto público.
A costureira e a estilista entravam na narrativa.
A aparência da mulher que ocupava o Palácio do Planalto parecia fazer parte do julgamento sobre a própria governante.
E talvez seja necessário perguntar: quantos homens que ocuparam aquele mesmo espaço tiveram sua competência política medida pela qualidade do corte de seus ternos?
Quantos tiveram seu governo discutido a partir do preço de uma gravata?
Quantos tiveram sua capacidade administrativa colocada em dúvida porque usavam um relógio caro?
Quantos foram transformados em símbolo de frivolidade porque vestiam uma roupa de grife?
Agora é o terno
Hoje, os ternos voltaram à conversa.
Mas agora estamos falando de homens poderosos.
Banqueiros.
Empresários.
Advogados.
Políticos.
Autoridades.
Ministros.
Homens que circulam entre instituições financeiras, escritórios de advocacia, tribunais, Congresso Nacional, governos e grandes negócios.
O alfaiate aparece.
O preço aparece.
O tecido aparece.
O ateliê aparece.
Mas existe uma diferença fundamental: o terno não costuma ser utilizado para explicar quem aquele homem é.
O homem veste o terno.
A mulher, muitas vezes, é transformada na roupa que veste.
O banqueiro, o ministro e o político
É impossível discutir poder no Brasil sem falar daqueles que historicamente ocuparam seus espaços mais altos.
O banqueiro.
O empresário.
O deputado.
O senador.
O ministro.
O magistrado.
O ministro do Supremo Tribunal Federal.
O presidente.
A maioria desses espaços continua sendo ocupada por homens.
E homens poderosos podem circular de terno sem que o terno seja transformado em julgamento moral sobre sua masculinidade, sua competência ou sua legitimidade.

Quando um banqueiro usa um terno de dezenas de milhares de reais, a discussão deveria ser sobre o dinheiro, sua origem, suas relações e os negócios envolvidos — não sobre o alfaiate que costurou a roupa.
Quando um ministro do STF veste um terno caríssimo, a pergunta relevante para a democracia não deveria ser simplesmente quanto custou o tecido.
A pergunta deveria ser sobre transparência, patrimônio, conflitos de interesse, relações institucionais e responsabilidade pública.
E exatamente o mesmo critério deveria valer para mulheres.
A costureira não é o poder
Existe ainda outra personagem nessa história que não podemos esquecer: a costureira.
Durante muito tempo, a costura foi associada ao trabalho feminino, artesanal, doméstico e invisibilizado.
Enquanto o alfaiate ganhou status de profissão ligada à elegância masculina, ao poder e às elites, a costureira muitas vezes permaneceu associada ao trabalho silencioso de confeccionar aquilo que outra pessoa apresentaria ao mundo.
Mas a costureira não é a presidenta.
O alfaiate não é o banqueiro.
O tecido não é o dinheiro.
A roupa não é o crime.
E uma agulha não costura responsabilidade criminal.
Quem deve responder por seus atos é quem os pratica.
Dez anos depois
Dez anos depois do impeachment de Dilma Rousseff, talvez seja hora de olhar para aquela história com outras lentes.
No campo progressista, muitos de nós continuamos entendendo aquele processo como um golpe político.
Mas a história não terminou ali.
O Brasil continuou produzindo escândalos.
Continuou produzindo investigações.
Continuou produzindo banqueiros poderosos.
Continuou produzindo políticos influentes.
Continuou produzindo ministros.
Continuou produzindo homens vestidos de terno ocupando as salas onde decisões bilionárias são tomadas.
E continuou produzindo mulheres sendo julgadas pelo vestido.
Essa diferença merece ser discutida.
Não para proteger ninguém.
Não para acusar ninguém.
Mas para perguntar se aplicamos a mesma régua moral quando o poder veste uma mulher e quando veste um homem.
Afinal, quem veste o poder?
Talvez o problema nunca tenha sido o vestido de Dilma.
Talvez também não seja o terno do banqueiro.
Nem o terno do ministro.
Nem o terno do deputado.
Nem o alfaiate.
Nem a costureira.
O problema começa quando usamos a roupa para julgar alguns enquanto esquecemos de investigar aquilo que realmente importa em outros.
Porque roupa pode ser cara.
Luxo pode ser questionável.
Desigualdade pode ser revoltante.
Mas nenhuma dessas coisas, sozinha, prova corrupção.
O que precisa ser investigado é o dinheiro.
O que precisa ser fiscalizado são as relações.
O que precisa ser cobrado é o poder.
E talvez essa seja a pergunta que deveríamos fazer dez anos depois:
Será que o Brasil sempre julgou o poder pela roupa — mas nunca julgou da mesma maneira quem veste o terno?
