- U: Quem é Josyara hoje, depois desse percurso entre Juazeiro, Salvador e São Paulo? O que dessa trajetória virou identidade e o que ainda está em construção?
- U: O violão mais percussivo virou a tua marca, moldada pelo sertão, e então pelo litoral e pela metrópole. Como foi encontrar essa batida? Foi paralelo a um processo de autoconhecimento?
- U: Você já disse que, para você, foi tranquilo que a sexualidade existisse na música que faz. Nesse mês de visibilidade lésbica, o que essa frase significa hoje e o que ainda falta para que outras mulheres lésbicas na música sintam o mesmo?
- U: Agora que você tá confirmada no Primavera, muito chique, eu quero saber o que você espera desse show. Tem algum spoiler?
- U: O que podemos esperar pra Josyara do futuro?
Por Isaac Urano
No Dia Nacional do Orgulho Lésbico, celebramos um violão que carrega genealogia, um instrumento tocado quase como percussão, que aproxima sua obra do samba de roda. Um som que se expande, de “Estreite”, com Giovani Cidreira, lançado no início da pandemia, até o giro que se aprofunda em “AVIA”, disco de 2025 com parcerias de Liniker, Pitty, Chico Chico e Juliana Linhares, sempre reconhecível pela voz, pelo violão e pela escrita que são só dela.
Por trás dessa sonoridade, tem um percurso. Josyara chama de sertão, litoral e metrópole os espaços que marcaram sua trajetória. Nasceu em Juazeiro, no norte da Bahia, saiu de casa aos 15 anos, passou por Salvador antes de se fixar em São Paulo, e leva essa geografia inteira dentro das composições, do sertão árido às figuras de Yemanjá e Iansã, temperadas de saudade do Recôncavo, mas com a vida na capital paulista.

U: Quem é Josyara hoje, depois desse percurso entre Juazeiro, Salvador e São Paulo? O que dessa trajetória virou identidade e o que ainda está em construção?
J: Existe em mim um paradoxo. Sou a mesma, mas, para ser quem sou, precisei mudar. Ouvi há pouco sobre a ideia do tempo espiralar, em que aquilo que “já foi” não fica necessariamente para trás, mas coexiste com o agora. Acho que me reconheço nisso.
Juazeiro, Salvador, São Paulo, as pessoas, os encontros, as experiências e todas essas memórias continuam presentes e fazem parte de quem sou hoje. Mas essa identidade não está acabada. A construção segue junto com a vida.
U: O violão mais percussivo virou a tua marca, moldada pelo sertão, e então pelo litoral e pela metrópole. Como foi encontrar essa batida? Foi paralelo a um processo de autoconhecimento?
J: Foi uma necessidade. Eu não tinha como ter uma banda e precisava ganhar um dinheirinho. Então tive que ser autossuficiente o bastante para fazer valer cada apresentação.
Claro que, nesse caminho, fui buscando e encontrando influências, ferramentas e inspirações. E acho que isso inevitavelmente foi também um processo de autoconhecimento. Quanto mais eu descobria as possibilidades do violão, mais entendia a minha própria maneira de fazer música, o que me interessava, o que eu queria dizer e como eu queria soar.
Com o tempo e a dedicação, aquilo que nasceu de uma necessidade foi sendo totalmente assimilado ao meu trabalho e virou parte da minha linguagem musical.
Teve um disco que me marcou muito e me encorajou a seguir acreditando nessa força da voz e do violão: “Aos Vivos”, de Chico César. Entre tantas outras grandes obras e artistas que me atravessaram, esse álbum teve um papel importante para que eu seguisse o meu caminho.
U: Você já disse que, para você, foi tranquilo que a sexualidade existisse na música que faz. Nesse mês de visibilidade lésbica, o que essa frase significa hoje e o que ainda falta para que outras mulheres lésbicas na música sintam o mesmo?
J: A música sempre foi um lugar onde eu posso vazar as emoções com honestidade. Ela segue sendo esse pilar existencial para mim. Então, nesse sentido, nunca me pareceu possível separar da música aquilo que faz parte de quem eu sou.
Mas não adianta pedirmos que a lesbofobia acabe sem mexer numa estrutura que também é machista, racista e homofóbica. Essas violências seguem muito firmes na nossa sociedade. É cultural odiar as mulheres, e isso está em todo lugar, inclusive dentro do próprio mundo LGBTQIAP+.
Acredito que a arte é um espaço importante para provocar essas discussões e também para avançarmos. Já conquistamos muito, mas ainda há muito a transformar para que outras mulheres possam existir, amar e criar sem que isso represente um risco ou uma limitação.

U: Agora que você tá confirmada no Primavera, muito chique, eu quero saber o que você espera desse show. Tem algum spoiler?
J: É a minha segunda vez no festival e fiquei super feliz. O line-up está incrível, né? Espero que as pessoas cheguem cedo para conseguirem curtir tudo.
Vou levar músicas do AVIA, meu disco lançado em 2025, e vou costurá-las com canções dos meus outros álbuns. Quero contar um pouco dessa história, desse percurso todo que me fez chegar até aqui. Acho que vai ser bem bonito. Tomara que as pessoas curtam.
U: O que podemos esperar pra Josyara do futuro?
J: Vou lançar música nova ainda este ano, e esse single vai dar um primeiro sopro das novidades que me habitam. Acho que ele já aponta um pouco para os caminhos que venho descobrindo.
Josyara recusa tratar a identidade como algo fechado. Quando fala do tempo espiralado, descreve uma lógica de continuidade, a ideia de que Juazeiro, Salvador e São Paulo não são fases superadas, mas camadas que seguem ativas dentro do que ela faz hoje. É essa lógica que explica o violão nascido de uma necessidade prática e transformado em linguagem, e que explica também por que a sua identidade, dentro da música, nunca foi separada de todas as camadas que formam o arranjo da sua música.
Roberto Mendes, referência do Recôncavo baiano que ela cita como influência, resumiu isso numa entrevista à CartaCapital, dizendo que a percussividade do violão dela impressiona e que ela é uma compositora rara e visceral. Às vésperas do Primavera Sound e de um single novo ainda para este ano, Josyara segue escrevendo essa mesma trajetória: sertão, litoral e metrópole, como um percurso que não pede pressa para se completar, aos poucos construindo-se na matéria-prima baiana.
