Zeneida Lima: Pajé, ambientalista e escritora amazônida é tema do enredo da Beija-Flor de Nilópolis no Carnaval de 2027

Portal Inhaí
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Por Vitória Balieiro

A atual vice-campeã do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro, Beija-Flor, escolheu Zeneida Lima como homenageada, com o tema “Zeneida: O Sopro do Pó de Louro”, que narra sua história de vida devido ao seu legado de resistência, espiritualidade e ativismo.

Em seus escritos, Zeneida se define como pajé de nascença e relata que sua trajetória na pajelança começou no ventre de sua mãe, Maria José, quando seu dom foi manifestado ao emitir sons e também foi acompanhada por sinais, como o voo de borboletas azuis sobre a barriga de sua mãe, que é lido como manifestação de Anhangá – entidade da cosmovisão indígena que representa o guardião da floresta.

Apesar de sempre ter sentido essa conexão com a espiritualidade, o evento que definiu sua entrada no universo da pajelança aconteceu aos 11 anos de idade, momento em que teve uma experiência sobrenatural na floresta enquanto apanhava açaí. Ela foi abordada por três seres azuis que a golpearam após ter recusado as frutas oferecidas por eles. Após esse episódio, Zeneida ficou desaparecida por 17 dias na mata e foi encontrada paralisada em cipós e com o corpo coberto por manchas que formavam figuras de peixes, pássaros e cobras. Seu processo de cura foi feito pelo Mestre Elpídio, que identificou que ela havia tomado uma “flechada de Anhangá” e que possuía o dom de ser curandeira. Posteriormente, ela foi assentada pajé ainda aos 11 anos por Mundico de Maruacá, em Salvaterra.

Motivada pelo anseio de manter vivos os saberes tradicionais da pajelança cabocla, Zeneida começou a registrar por escrito as memórias de sua iniciação espiritual – o que tradicionalmente era transmitido de forma oral –, marcada pela mundividência dos povos originários do Marajó e pelo culto aos Caruanas. Por meio da escrita, a ambientalista também conscientiza sobre a destruição do meio ambiente e sobre a preservação cultural. Sua primeira publicação foi o livro “O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó”, lançado em 1992, que posteriormente se tornou o enredo “Pará, o Mundo Místico dos Caruanas, nas Águas do Patu-Anu”, adaptado pela Beija-Flor de Nilópolis em 1998, e que impulsionou a vitória da escola no Carnaval daquele ano.

Um ano depois da conquista, em 1999, a ativista criou o Instituto Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia (ICMCE), na cidade de Soure, com o apoio da escritora Rachel de Queiroz. O sonho da criação do instituto surgiu a partir da vontade de mudar a realidade das crianças do Marajó – vontade essa que veio da identificação com uma infância dificultosa – e proporcionar uma educação digna, com amparo a materiais básicos e alimentação dentro de uma “escola na floresta”. A relação com a natureza e com a cultura e os saberes ancestrais são os pilares do ensino, que fortalece a identidade marajoara.

Zeneida: O Sopro do Pó de Louro

Em entrevista para o Grupo Liberal, a homenageada relata que o convite para a participação no samba-enredo foi uma surpresa, e a iniciativa partiu do patrono da escola, Anísio Abraão, com quem ela manteve uma relação de amizade que se iniciou no ano em que seus escritos foram adaptados para o enredo de 1998. Após o convite, a pajé consultou as energias para saber se aceitaria ou não. Com as energias favoráveis, Zeneida anunciou que poderiam seguir com o enredo sobre sua vida.

Para a pajé, o reconhecimento não é somente para ela, mas para toda a cultura amazônica. Ela espera que a visibilidade trazida pela escola de samba conscientize mais pessoas sobre a importância de cuidar do planeta, que está doente, e alerta que a preservação da natureza é urgente para a sobrevivência das futuras gerações. “O homem tira o ouro, tira petróleo… Pode ver que o nosso clima já não é o mesmo, já tá tudo diferente. Não é possível que ninguém esteja vendo que nós estamos à beira de um abismo”, disse.

Com a proposta artística da escola apresentada publicamente na Noite dos Enredos, na Cidade do Samba, a Beija-Flor de Nilópolis segue para a etapa da disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027, que será realizada em Belém, neste sábado, 15 de agosto, no Complexo Aldeia Amazônica, e contará com a participação de grupos de samba e de carimbó e, também, com a apresentação de sete escolas de samba paraenses.



Por Midia Ninja

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