O vertiginoso crescimento da complexidade dos códigos informáticos das últimas décadas não apenas dá base para uma extrema simplificação do uso das tecnologias pelo cidadão comum – dispensando conhecimentos técnicos para operações bastante difíceis – como instaura um ambiente mais simples e direto, com menos formalidades, em diferentes aspectos da vida. A criação e absorção de um enorme grau de sofisticação e de abstração pela tecnologia vem possibilitando uma interação mais fluida, simples e intuitiva entre as pessoas. Pouco a pouco, nos libertamos da casca das formalidades que vertebram, ou vertebravam, o sentido do mundo ao nosso redor. Da era moderna mecânico-formal, vamos passando rapidamente para uma era digital-informal.
Do mecânico ao elétrico, do eletrônico ao digital e finalmente à grande convergência que vivemos nos últimos vinte anos, o intenso desenvolvimento tecnológico atual paradoxalmente diminui a sensação de artificialidade e abstração que desde a Revolução Industrial invade e devora o mundo da vida com suas gaiolas de ferro. Não que a alienação tenha desaparecido, mas, ao gerarem tamanho nível de intuitividade, o ambiente digital e sua informalidade são capazes de possibilitar uma espécie de reencantamento, ao dissolver estratos nauseantes de alienação burocrática e formal do século XX.
Isso por um lado; por outro, contribuem para aumentar a sensação de medo e insegurança, irracionalismos e violências, também produto da mesma destruição das formalidades. Há um uso massificador das tecnologias no ambiente pós-massivo, anti-intelectualista, anticiência, antissistema, antiarte; mas também uma nascente cultura digital e a emergência de novos sujeitos políticos e culturais.
A questão é a forma como interagimos com a tecnologia, se com um uso heterônomo, colonizado por algoritmos, ou estético-criativo e ampliador de repertórios pessoais e sociais. Tecnologicamente, há novas possibilidades de produção aberta e livre, mas também de entretenimento e consumo massificado. O mercado voraz e a ultradireita feroz fazem isso: tentam impor seu modelo de mundo – e em grande medida conseguindo-o. Mas não se pode negar que, ao mesmo tempo, e pelo menos em camadas médias da população e nas periferias, há mais participação e oportunidade de uma menor deglutição passiva e massificada do mundo ao nosso redor. É uma encruzilhada. É possível se coisificar, mas também gerar uma vida mais própria, ativa e criativa. Tecnologicamente, podemos deixar para trás camadas do “esquecimento do ser” promovido pela era industrial e seus homens-massa – com mais interatividade, liberdade, autonomia e intuitividade, mas também agir ao contrário, como heterônomos consumidores, passivamente manipulados pelos algoritmos. Depende de desenvolvimento crítico, criativo, do comum em vez de seguirmos como homens-massa passivos dopaminados por algoritmos: depende de cultura digital e não do simples uso funcional da internet.
No início privilégio do Estado, do mercado e depois da sociedade civil organizada, a tecnologia digital chegou há pouco tempo à mão do cidadão comum, que com isso pode, se quiser (será que quer?), se libertar de intermediações das outras instâncias, dos governos, empresas, partidos, igrejas, associações e gerar (ou não) para si mesmo e para a sociedade, mais autonomia. Sim, estamos numa encruzilhada. O ambiente digital nos dá a possibilidade de escapar do consumo acrítico dos produtos da indústria cultural tradicional, mas apenas na condição de estarmos preparados para seu uso não instrumental. Mesmo que a maioria ainda siga em um viés consumista e massificador desses meios (um comportamento que segue o do século XX), do ponto de vista das possibilidades tecnológicas, com os softwares livres e a cultura de rede, a possibilidade de liberdade de uso, recombinações e expressões simbólicas livres é muito maior que em qualquer outro momento da História. Mais uma vez: depende de desenvolvermos uma cultura, uma educação, uma ética para esta nova circunstância tecnológica que varre o mundo.
Abre-se espaço para as manipulações e o fascismo, mas também para os saberes e modos de ser periféricos, urbanos e rurais antes sem espaço no debate público. Por um lado, essa rebelião traz à cena um homem-massa digital, muito mais perigoso para as formalidades e as instituições que o homem-massa da era industrial descrito por Ortega y Gasset. Há também uma possibilidade de desmassificação da sociedade, talvez utópica, mas necessária até para a nossa sobrevivência como espécie. Ortega temia que o homem-massa do século XX invadisse tudo. Pois o do século XX não era nada perto do que o atual pode fazer com seus smartphones a cada dia mais avançados.
No entanto, mais que o “download” e o consumo, como diz o ativista digital Cláudio Prado, a questão do ponto de vista cultural é o que estamos fazendo com o “upload”, a possibilidade sem igual de expressão simbólica que temos com o advento da internet. A enorme via do upload desintermediado tem trazido a diversidade das visões periféricas e sua rica informalidade para a rede, de um modo totalmente diferente de quando só havia os jornais, o rádio e a televisão. Também tem liberado instintos antes controlados pelas instituições, as normas e as formalidades. Essa atual conexão ponto a ponto, pessoa a pessoa, conecta indivíduos entre si e esses com o mundo. Desintermediados, jogados sozinhos no mundo líquido, isso nos exige ainda mais o esforço natatório de fazermos a nós mesmos. A tecnologia, hiperformalizada em algoritmos e fórmulas do digital de hoje, vem liberando, para o bem e para o mal, a vida de dentro de sua presente casca de formalidade. A informalidade liberada coloca em xeque legitimações, fundamentações e justificativas. Põe em crise a educação do Estado e do mercado, as artes instituídas, as ideias de desenvolvimento, as visões predominantes, as versões oficiais. Em disputa, certo espectro liberal-anarquista ronda o mundo e em sua mão sua principal arma: a informalidade, muito mais viva, real, que os sacos plásticos das convenções em que vivíamos como única natureza até bem pouco tempo.
Profetas e adivinhos cibernéticos não param de anunciar o mundo novo, possível e impossível, produto da técnica. É um mundo com cada vez menos mediadores e intermediários, com menos espaços de objetividade sólidos (sem nada sólido, na verdade, mas coagulações do mundo líquido), tradicionais: um mundo informal. Também um ar de liberalismo social e cultural parece rejuvenescer (às vezes num sentido de juvenil e até infantilizado) o mundo e, ao mesmo tempo, atormentá-lo. Deixa-o velho a cada ano, a cada semestre, quase a cada mês. Como será que vai ser? O que vai acontecer em uma década, em cinco, em três anos, um mês? Ninguém sabe.
Atormenta-nos a presença cotidiana do passado, quase uma sombra a nos seguir a cada nova invenção tecnológica, a cada novo software que nos empurra imediatamente não para a frente, mas para trás, para o ontem, à medida que eles surgem. Nunca se viveu o passado como vivemos hoje. Com tanta velocidade, percorremos em um curtíssimo espaço de tempo estágios da história que levavam vidas inteiras para se produzir em épocas anteriores. Deteriorações, dissoluções, deposições. O paradoxo é que vivemos ares de futuro sem poder sair de um passado-presente inquietante a que o avanço tecnológico nos condena, diante de tantas atualizações necessárias de nossos próprios sistemas para acompanhar a marcha insana. É uma sensação de rompimento de um mundo, que ora parece voo, ora queda livre. As convergências tecnológicas da primeira metade do século XX eram uma brisa da tempestade que já chegou e que parece virar um furacão a revirar por completo as formas como vivemos.
Aberta a caixa de Pandora, espalha-se pelo mundo uma cultura que pressiona poderes e espaços constituídos, rotulados, peremptórios, terminantes, definitivos, expressos, patentes, ainda não compreendida de todo. O mercado, o Estado, as igrejas e partidos (a sociedade civil organizada) tentam dominar para seus interesses essa informalidade. Ajudada pelos ajustes constantes dos algoritmos das big techs, a ultradireita aproveita os reforços de comportamentos das redes sociais essencialistas para espalhar sua palavra e suas ações.
O informal, o sem forma, o sem leis e sem regras (da arte, da convivência, dos direitos) está em disputa. E quem pode mais, quem tem mais dinheiro, dados e tecnologia, mexe mais nas entranhas do homem-massa digital, manipula-o, fazendo-o pensar que escolhe, consome e pensa com autonomia.
Com o digital, se de um lado vemos a veloz explosão de liberdade de ser até o que não se quer ser, de outro há o estilhaçamento de espaços de objetividade a nos jogar num ambiente fragmentário de identidades em que grupos e indivíduos se fecham dia a dia, buscando passar pela tempestade agarrados a tábuas de salvação vindas do passado, tradições, identidades artificiais etc. É como se o mundo novo, admirável e apavorante, nos transformasse mais uma vez em bárbaros balbuciantes. Por não conhecer completamente os novos códigos, nos voltamos a velhas tábuas de leis, usos e dogmas antigos. Inventados e formais, claro, e essa é uma das muitas contradições de certo pensamento pretensamente libertário. Precisamos entender este mundo em transformação. O nosso ambiente vai se refazendo dia a dia, mas ainda não temos cultura suficiente para ele: não temos a cultura digital necessária para o período que se anuncia: o fim da era mecânico-formal. O crepúsculo do mundo mecânico-formal é uma experiência negativa transnacional. As normas do passado, as regras, as leis, estão em crise. O irônico é: bastou conectar os indivíduos e os liberar da necessidade de intermediários e se revelou o profundo abismo entre leis, regras e o formal abstrato com a vida real. Que as normas verticais tinham bem menos enraizamento no mundo real do que a paz burguesa imaginava sempre se desconfiou e se denunciou, mas não da forma constrangedora como vemos sua derrocada nos dias de hoje, na esteira do upload mundial de ideias novas e velhas.
O certo é que a tecnologia faz o mundo mudar sua relação com as normas, as regras, as tradições, os usos, as leis, as representações formais. O fato de hoje ser cada vez menos importante haver intermediários entre a produção, a circulação e o consumo de bens, serviços e ideias, faz com que o informal, a opinião, o relativo ao individual dominem um espaço enorme na nossa sociedade, pressionando os campos e suas legitimações. Esses elementos ocupam o que antes era o lugar da objetividade e de uma racionalidade instrumental que se derramava do processo produtivo da era mecânica para a sociedade como um todo. De qualquer forma, vemos emergir uma razão informal, uma inteligência do comum, do improviso e da gambiarra.
Na luta política, o digital libera uma informalidade de potência sem igual que tem hackeado parte das estruturas e se mostra com enorme poder de organizar redes e coletivos, de esquerda e de direita – muitas com gambiarras discursivas aplicadas ao declínio do período mecânico-formal em que vivemos.
Há, por exemplo, uma disputa entre a ideia de um Estado mais poroso, mais horizontal, em rede, e um Estado arbitrário e conservador ante o mesmo problema de dissolução da forma e dos marcos. No lado direito do espectro político, aumenta-se o uso de gambiarras sofistas, de explicações microcausais e simplificações esfarrapadas. Saímos aos tropeços do período mecânico-formal para o digital-informal que, hoje, da mesma maneira, abre imensos espaços tanto para as visões mais arcaicas, a violência e a intolerância quanto para os avanços da sociedade. É preciso construir uma “cultura digital-informal” que, no caminho inventivo da gambiarra, nos proteja da hiperinformalidade destrutiva gerada no vácuo da dissolução da formalidade lógico-mecânica deixada abruptamente para trás.
* Escritor, doutor em Filosofia pela Universidad de León (Espanha), diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura (MinC)
