Por Marjourie Corrêa
Em agosto de 2016, Colin Kaepernick transformou um gesto silencioso em um dos maiores símbolos do ativismo esportivo contemporâneo. Dez anos após se recusar a ficar de pé durante a execução do hino nacional dos Estados Unidos, o ex-quarterback da NFL continua longe dos gramados, mas sua atuação fora deles foi reconhecida pela American Civil Liberties Union (ACLU). Em julho de 2026, a organização o homenageou com o Ralph Ellison Award for Defenders of Civil Rights and Civil Liberties.
O prêmio reconhece figuras públicas que se destacam na salvaguarda das garantias fundamentais e da igualdade social. Ao receber a honraria, Kaepernick reforçou a urgência de defender a dignidade humana em um cenário global que ainda exige mobilização constante.
A homenagem também traz de volta a pergunta que acompanha sua história há uma década: o que aconteceu com o atleta que perdeu espaço no esporte profissional ao transformar sua visibilidade em plataforma de protesto?
De promessa do Super Bowl ao ostracismo na liga
Kaepernick chegou à NFL em 2011, selecionado pelo San Francisco 49ers na segunda rodada do Draft. Em sua segunda temporada, assumiu a titularidade com um estilo dinâmico, que combinava um braço potente a uma capacidade atlética incomum para correr com a bola, e liderou a equipe até o Super Bowl XLVII.
Em seis anos na liga, acumulou 12.271 jardas aéreas, 72 touchdowns por passe e mais de 2.300 jardas corridas. Contudo, após temporadas subsequentes com oscilações de desempenho coletivo e trocas de comissão técnica, ele rescindiu seu contrato com os 49ers ao fim de 2016.
Foi exatamente naquele ano que sua carreira tomou um rumo definitivo. Preocupado com a violência policial e o racismo estrutural contra a população negra nos Estados Unidos, Kaepernick decidiu não se levantar durante o hino. Inicialmente, permaneceu sentado no banco de reservas. Após dialogar com Nate Boyer, ex-jogador e veterano das Forças Especiais do Exército, passou a se ajoelhar, um ato que Boyer sugeriu por ser ao mesmo tempo respeitoso e solene.
Em pouco tempo, o companheiro de equipe Eric Reid se juntou ao movimento, e o ato se espalhou por outras franquias e modalidades. A reação, no entanto, não foi uma unanimidade. Enquanto apoiadores viam ali uma corajosa manifestação pelos direitos civis, críticos, incluindo o então candidato à presidência Donald Trump, acusavam o gesto de desrespeitar a bandeira e as Forças Armadas.
E o posicionamento teve um preço. Ao se tornar agente livre em 2017, Kaepernick não recebeu propostas de nenhuma das 32 equipes da NFL. Aos 29 anos e com um currículo de Super Bowl, o bloqueio gerou controvérsia imediata. No mesmo ano, ele abriu um processo contra a liga por conluio comercial, alegando que os donos das franquias haviam se unido para bani-lo em virtude de suas posições políticas. O litígio foi encerrado em 2019 por meio de um acordo confidencial. E ele nunca mais jogou uma partida oficial.
Se a carreira no futebol americano terminou de forma precoce, a atuação comunitária escalou mundialmente. Em 2016, fundou o Know Your Rights Camp, iniciativa voltada à educação, liderança e conscientização de jovens negros e de minorias. Dois anos depois, em 2018, tornou-se o rosto de uma histórica campanha da Nike sob o mote “Acredite em algo. Mesmo que isso signifique sacrificar tudo”.
O seu gesto ressoou nos anos seguintes, instigando protestos de atletas como Megan Rapinoe e Kenny Stills e ganhando dimensão ainda maior após o assassinato de George Floyd, em 2020, quando o mundo esportivo cobrou da própria NFL uma postura coerente com as pautas raciais.
Consolidação do legado
Com o prêmio concedido pela ACLU, em 2026, fica nítido que a trajetória de Kaepernick vai muito além das estatísticas em campo. Dez anos após se ajoelhar pela primeira vez, o ex-quarterback mantém o trabalho social com a juventude e se prepara para lançar o seu livro de memórias, “The Perilous Fight”, fechando o ciclo de uma década de protesto.
Kaepernick entrou na NFL como um talentoso quarterback e saiu como uma das figuras mais emblemáticas da cultura contemporânea. Pode até ter saído dos gramados, mas construiu uma voz que segue ecoando em todo o esporte.
