Fuga de cérebros na Amazônia: por que estudantes deixam a região em busca de oportunidades?

Portal Inhaí
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Por Evelyn Ludovina

Todo mundo se lembra do dia em que foi aprovado na universidade. O ensino superior abre portas e cria novas perspectivas, mas, para estudantes da Amazônia Legal, permanecer na região após a graduação nem sempre é uma opção. Diante da falta de oportunidades de trabalho e pesquisa, muitos acabam deixando a Amazônia em direção às regiões Sul e Sudeste do país em busca de melhores condições para seguir suas trajetórias. Esse movimento, marcado pela saída de profissionais qualificados de seus territórios de origem, é conhecido como fuga de cérebros.

Marcelo Lopes, bacharel em Agronomia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), no campus de Cametá, é natural do município e, durante a graduação, teve diversas experiências acadêmicas, incluindo a participação em projetos desenvolvidos junto a comunidades rurais da região. Mesmo possuindo experiência na área e vivendo em um território marcado pela atividade agrícola e rural, percebeu que as oportunidades para atuar dentro do próprio estado ainda são limitadas.

Com a proximidade do fim do curso, Marcelo passou a procurar editais de mestrado e, em 2022, foi aprovado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, com foco na área rural, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Depois, seguiu para o doutorado no mesmo programa. A decisão de continuar na carreira acadêmica também foi motivada pela falta de perspectivas profissionais no Pará. “Decidi não seguir direto para a carreira profissional porque eu sabia que ia terminar o curso e ficar desempregado”, conta.

Arquivo Pessoal

Para o pesquisador, falta incentivo do poder público para criar condições que permitam a permanência de profissionais qualificados nos locais onde se formaram. Além do conhecimento científico adquirido na universidade, esses profissionais carregam conhecimentos sobre os territórios e as comunidades onde vivem, o que poderia ampliar o retorno dos investimentos em educação para a própria sociedade local.

“Cametá perde uma mão de obra muito qualificada, e existe uma dupla importância de manter esses profissionais, porque essas pessoas conhecem, para além do teórico, a realidade das ilhas, quilombos e comunidades rurais de terra firme e poderiam somar ainda mais em projetos. Acho que as oportunidades em Cametá existem, mas também há um descaso público, em todas as esferas, em fortalecer o espaço rural”, afirma.

O volume de recursos que chega às regiões Sul e Sudeste é maior do que o destinado aos estados do Norte. Isso ocorre porque os critérios de avaliação das agências de fomento valorizam o histórico prévio de publicação e o número de programas consolidados, o que gera um ciclo em que quem já tem mais estrutura tende a aprovar mais projetos.

“Aqui eu pude vislumbrar um conjunto maior de oportunidades de emprego, não só na minha área, mas com um leque maior que me proporciona poder pensar em um futuro mais concreto aqui no Rio”, conta.

Mas deixar as raízes para trás não é uma tarefa fácil. Além da saudade de quem parte do lugar onde nasceu, o estudante precisa lidar com uma cultura diferente da sua, novas formas de falar, de comer e de se relacionar com a natureza e com as pessoas. Em meio a esse processo de adaptação, ainda precisa enfrentar o preconceito.

“Ou as pessoas de outros estados, principalmente do Centro-Sul do país, fetichizam a gente ou esperam que a gente tenha performances muito aproximadas de comunidades indígenas, tenha trejeitos e enxergam a gente como indígenas. Ou elas nos diminuem, o que é muito comum. Quando a gente sai, além de deixar o nosso estado sabendo que poderíamos estar contribuindo academicamente, também sofremos preconceito como se fôssemos inferiores”, conta Marcelo.

O pesquisador afirma que mantém o sonho de voltar ao Pará, mas condiciona o retorno à existência de uma boa oportunidade de emprego. “Eu sinto muita falta do estado e, mesmo estando há quatro anos no Rio de Janeiro, ainda é muito difícil lidar com a distância e ficar longe da minha família, dos rios, das ilhas, da nossa alimentação e do nosso modo de vida”, conclui.



Por Midia Ninja

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