Relatório da UNAIDS: Winnie Byanyima alerta que cortes no financiamento colocam em risco décadas de avanços contra o HIV

Portal Inhaí
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Por Vinicius Francisco

“Apesar dos avanços históricos, o impulso para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública está perdendo força.”

Foi com esse diagnóstico que a UNAIDS apresentou o relatório especial Unidas e Unidos para Acabar com a AIDS durante a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro. O documento reúne os principais indicadores da resposta global ao HIV e conclui que, embora o mundo disponha hoje de ferramentas capazes de reduzir novas infecções e ampliar o acesso ao tratamento, a diminuição do financiamento internacional, o enfraquecimento das organizações comunitárias e as restrições aos direitos humanos colocam em risco os avanços conquistados nas últimas décadas.

Ao apresentar o relatório, a diretora-executiva da UNAIDS, Winnie Byanyima, afirmou que produzir evidências científicas é apenas parte da resposta à epidemia. Segundo ela, transformar essas evidências em políticas públicas, garantir financiamento sustentável e ampliar o acesso às novas tecnologias serão fatores decisivos para que o mundo alcance a meta de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.

Os dados mostram que a resposta global continua avançando. Em 2025, foram registradas 1,2 milhão de novas infecções por HIV e 570 mil mortes relacionadas à AIDS, os menores níveis em mais de três décadas. O relatório também aponta que 32,1 milhões das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV estavam em tratamento antirretroviral, o equivalente a 78% dessa população.

Apesar desses resultados, a UNAIDS alerta que a epidemia permanece marcada por profundas desigualdades. Oito milhões e novecentas mil pessoas continuam sem acesso ao tratamento, enquanto apenas 55% das crianças vivendo com HIV recebem terapia antirretroviral. O documento também destaca que, embora sete países tenham reduzido em pelo menos 78% as novas infecções desde 2010, a epidemia continua crescendo em 21 países, e metade das novas infecções entre adultos ocorre entre populações-chave e seus parceiros sexuais.

A realização da AIDS 2026 no Brasil reforça a importância desse debate. Pela primeira vez sediada na América Latina, a maior conferência mundial sobre HIV/AIDS acontece em um momento em que novas tecnologias ampliam as possibilidades de prevenção e tratamento, mas a sustentabilidade da resposta global depende, cada vez mais, de decisões políticas, financiamento e acesso equitativo.

Se os indicadores epidemiológicos mostram que o mundo acumulou avanços importantes, o principal alerta da UNAIDS está na capacidade de manter esses resultados nos próximos anos. Para a agência, a resposta liderada pelas comunidades tornou-se um dos pilares mais ameaçados da luta contra o HIV.

O relatório destaca que as organizações comunitárias continuam desempenhando papel essencial na prevenção, na testagem, na vinculação ao tratamento, na adesão terapêutica e na defesa dos direitos humanos. Ainda assim, elas receberam apenas 25% do financiamento externo destinado à resposta ao HIV em 2024, embora prestem serviços dos quais dependem 22% das pessoas vivendo com HIV e até 60% das populações-chave.

Os efeitos da redução dos recursos já aparecem na oferta de serviços. Em levantamento realizado em 47 países, a UNAIDS identificou uma queda de 50% nos serviços comunitários relacionados à PrEP e ao cuidado em HIV. Entre organizações voltadas para gays e outros homens que fazem sexo com homens, a redução chegou a 85%. Os serviços destinados a profissionais do sexo diminuíram 82%, enquanto aqueles voltados a sobreviventes de violência baseada em gênero registraram queda de 72%.

Durante a apresentação do relatório, Winnie Byanyima afirmou que fortalecer essas organizações não é apenas uma estratégia de saúde pública, mas uma condição para alcançar as metas globais de enfrentamento da epidemia. Segundo ela, a UNAIDS continuará utilizando evidências para demonstrar os impactos dos cortes no financiamento e defender políticas capazes de ampliar o acesso à prevenção, ao tratamento e às novas tecnologias.

O relatório também chama atenção para o contexto dos direitos humanos. Em 159 dos 198 países e territórios analisados, o espaço cívico foi classificado como restringido, reprimido ou fechado, cenário que, segundo a agência, dificulta a atuação das organizações da sociedade civil e amplia as barreiras de acesso aos serviços de saúde para populações historicamente mais vulnerabilizadas.

Brasil entre os destaques da prevenção

Lançado no Rio de Janeiro, o relatório também destaca o Brasil entre os países que ampliaram o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP). Segundo a UNAIDS, o número de pessoas que utilizaram a estratégia ao menos uma vez no último ano passou de 165 mil para 233 mil, um crescimento de 41%.

O dado reforça o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) na incorporação de novas estratégias de prevenção e dialoga com um dos principais debates da AIDS 2026: como garantir que tecnologias inovadoras, como o lenacapavir para prevenção do HIV, sejam incorporadas de forma rápida, equitativa e sustentável aos sistemas públicos de saúde.

Para pesquisadores, gestores, ativistas e educadores comunitários reunidos na conferência, ampliar o acesso às inovações será tão importante quanto garantir recursos para manter programas comunitários que, há décadas, aproximam populações vulnerabilizadas dos serviços de prevenção e tratamento.

O relatório também identifica a inovação como uma oportunidade para acelerar o controle da epidemia, desde que as novas tecnologias sejam acompanhadas por políticas que garantam acesso equitativo. Entre os destaques está o início da implementação do lenacapavir semestral para prevenção do HIV. Até junho de 2026, mais de 50 mil pessoas já haviam recebido o medicamento em nove países da África Subsaariana. A UNAIDS também destaca iniciativas que reduziram seu custo para US$ 40 por pessoa ao ano em alguns países de alta carga da epidemia.

No Brasil, entretanto, a incorporação da nova tecnologia ainda enfrenta obstáculos. Durante a AIDS 2026, o diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, Draurio Barreira, informou que o governo brasileiro ainda não chegou a um acordo com a Gilead para incorporar o lenacapavir ao Sistema Único de Saúde (SUS) como estratégia de PrEP. Segundo ele, a proposta apresentada pelo Brasil foi recusada pela farmacêutica, mantendo as negociações em impasse.

O caso brasileiro ilustra um dos principais alertas do relatório da UNAIDS: a inovação científica, por si só, não encerra uma epidemia. Durante a apresentação do documento, Winnie Byanyima defendeu que ampliar o acesso às novas tecnologias exigirá compromisso dos governos, mecanismos para estimular a produção de medicamentos genéricos e políticas capazes de reduzir preços e acelerar a disponibilidade dessas ferramentas, especialmente nos países de baixa e média renda.

O financiamento, porém, permanece como o principal desafio apontado pela agência. Em 2025, os recursos destinados à resposta ao HIV em países de baixa e média renda caíram de US$ 18,8 bilhões para US$ 17,6 bilhões, uma redução de 6%. Já o financiamento internacional sofreu retração ainda maior, passando de US$ 8,8 bilhões para US$ 7,3 bilhões, uma queda de 18% e o menor nível registrado em quase duas décadas.

Apesar desse cenário, a UNAIDS sustenta que ainda é possível mudar o rumo da epidemia. Segundo o relatório, a implementação dos compromissos assumidos pelos governos poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030.

Mais do que um balanço epidemiológico, o documento apresentado na AIDS 2026 é um chamado à preservação de uma resposta ao HIV construída ao longo de mais de quatro décadas por pesquisadores, profissionais de saúde, gestores públicos, organizações comunitárias e pessoas vivendo com HIV. A avaliação da UNAIDS é que o conhecimento científico, por si só, já não é a principal barreira. O desafio passa a ser transformar inovação em acesso, proteger os direitos humanos e garantir financiamento suficiente para que os avanços da ciência alcancem quem mais precisa.

No Rio de Janeiro, onde, pela primeira vez, a maior conferência mundial sobre HIV/AIDS é realizada na América Latina, a mensagem da UNAIDS foi direta: o mundo dispõe das ferramentas para mudar o curso da epidemia. O que determinará se a meta de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 será alcançada são, agora, as decisões políticas tomadas pelos governos, o fortalecimento da resposta liderada pelas comunidades e o compromisso global com o financiamento da saúde.



Por Midia Ninja

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