Quando o Festival Bananada surgiu em Goiânia, em 1999, seu território era bem definido: rock alternativo, bandas locais, uma cena que precisava de palco numa cidade conhecida nacionalmente pela força do sertanejo. Ninguém, naquele momento, apostaria que aquele mesmo festival estaria, 27 anos depois, com BaianaSystem, Gaby Amarantos e Arnaldo Antunes dividindo a programação com bandas de rock como os Boogarins.
Mas foi exatamente isso que aconteceu. E não por acidente.
Viabilizado pela Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras e realização do Ministério da Cultura, o Bananada transformou esse investimento em algo mais amplo do que um festival de música.
O produtor Fabrício Nobre criou o Bananada para resolver um problema concreto: dar visibilidade a artistas independentes que não encontravam espaço nos circuitos comerciais da capital goiana. O ponto de partida era o rock, mas a proposta nunca foi exclusiva. Era, antes de tudo, uma forma de ocupar um vazio.
Nas primeiras edições, o festival reunia bandas locais e nomes emergentes da música alternativa brasileira. Ao lado da Monstro Discos, selo fundado pelo próprio Nobre, o Bananada começou a construir uma rede que conectava artistas, produtores e públicos de diferentes regiões do país.
Esse movimento inicial tornou possível tudo o que viria depois.
Quando a cena mudou, o Bananada mudou junto
A virada dos anos 2000 para os anos 2010 trouxe uma transformação profunda na música brasileira. A internet derrubou fronteiras entre gêneros. Artistas começaram a misturar referências que antes pareciam incompatíveis. O público jovem passou a consumir funk, rap, forró eletrônico e rock no mesmo dia, na mesma playlist.
Muitos festivais escolheram ignorar essa mudança e se mantiveram fiéis a uma identidade de gênero. O Bananada fez o movimento oposto: abriu a programação.
Ao longo das edições, o festival recebeu Refazenda, referência da música nordestina contemporânea; Maria Gadú, voz da MPB de uma nova geração; e Heavy Baile, coletivo que reinventou o funk carioca com elementos eletrônicos e experimentação. Cada um desses nomes representava não apenas um estilo diferente, mas uma fatia da pluralidade que a cena brasileira estava produzindo.
Não se tratava de tentar agradar a todos. Era uma leitura consistente de que a música independente no Brasil nunca coube em uma caixa só.
O que diferencia o Bananada dos outros grandes festivais
A maioria dos festivais de grande porte opera com uma lógica de identidade de gênero. Há os de rock, os de música eletrônica, os de música brasileira, os de jazz. Essa especialização facilita a comunicação com o público e reduz o risco de dissonância entre as atrações.
O Bananada escolheu um caminho mais difícil — e mais fiel ao que a música independente brasileira realmente é: múltipla, híbrida e inclassificável.
