Por Valéria Oliveira – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Existe uma diretriz de diversidade que hoje guia as transmissões da FIFA na Copa do Mundo, e ela não nasceu por acaso. Ela é resultado direto da pressão e protesto do público consumidor.
Quem acompanhou as edições passadas do torneio certamente se lembra de um tipo de cena que era praticamente uma marca registrada das transmissões: a câmera passeando pela arquibancada e, de repente, um close aleatório em mulheres, com takes que claramente buscavam hipersexualizá-las.
Essa prática foi muito percebida nas Copas de 2010 e 2014, sobretudo em jogos de seleções latino-americanas, onde produziram imagens que, até hoje, voltam a circular na internet em posts com teor machista e misógino.
O detalhe mais curioso é que, na época, essa prática era tão normalizada que quase ninguém percebia a intenção por trás dela. Não se tratava de um registro espontâneo da torcida, mas de uma escolha editorial das transmissões. Enquanto os homens eram mostrados comemorando, sofrendo, cantando e chorando, as mulheres nos estádios eram reduzidas a entretenimento visual hipersexualizado.
O enquadramento ficou tão recorrente que ganhou até um apelido na internet: “Pervcam”. E, desde a Copa de 2018, ele foi tecnicamente proibido pela FIFA, o que faz do Mundial deste ano apenas a segunda edição da história sem esse tipo de abordagem explícita nas transmissões oficiais.
A mudança editorial adotada pela FIFA
O ponto de virada teve nome: Thomas Mandl, um criador de conteúdo alemão, que iniciou uma campanha de conscientização sobre o tema produzindo vídeos onde ele fotografava torcedoras em jogos seguindo uma lógica totalmente diferente do que era feito pelos cinegrafistas que produziam para o Mundial. A repercussão foi tamanha que grupos que monitoram discriminação no futebol passaram a pressionar a FIFA diretamente.
Um dos vídeos produzidos por Mandl, expondo como as mulheres eram retratadas durante os jogos, viralizou e alcançou milhões de pessoas. A FIFA respondeu à pressão oficialmente e, antes das semifinais da Copa de 2018, a entidade orientou emissoras e equipes de transmissão a evitarem closes em mulheres baseados apenas em estereótipos de beleza. Essa orientação se consolidou como padrão nas Copas de 2022 e, a partir de então, se tornou uma mudança editorial na produção de conteúdos audiovisuais das competições oficiais.
O que fica para as próximas Copas?
O caso mostra como o setor audiovisual também precisa refletir sobre diretrizes de diversidade e inclusão, contribuindo, na prática, para discursos de respeito e o fim de estereótipos de gênero. Seja no futebol, na publicidade ou no entretenimento, a forma como os personagens são representados importa tanto quanto quem aparece em cena.
Hoje, o enquadramento das mulheres nas transmissões segue uma lógica mais parecida com a que sempre foi aplicada aos homens: elas aparecem torcendo, comemorando gols, vibrando com a seleção, pintadas com as cores do time ou emocionadas com o resultado da partida, sem que a câmera busque ângulos ou closes com intenção sexualizante. A diferença é perceptível quando a torcedora deixou de ser tratada como “detalhe estético” da cobertura e passou a ser retratada como o que sempre foi: parte da torcida, com a mesma paixão e protagonismo dados aos torcedores homens.
