Depois do Oscar, a Copa aproxima Brasil e Noruega

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Por Hugo Chaves – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A história do futebol costuma fabricar rivalidades com paciência. Não basta um grande jogo, é preciso que haja outro, depois outro, até que a memória coletiva transforme eventos em tradição. No caminho do Brasil, a Noruega, entretanto, parece ter sido escalada pelo acaso para um papel muito maior do que sua participação na história sugeriria. Brasil e Noruega se enfrentaram apenas quatro vezes, mas o suficiente para que o país escandinavo acumulasse uma pequena coleção de façanhas sobre os brasileiros: uma vitória na fase de grupos da Copa do Mundo de 1998, mais dois empates (1988 e 2006) e uma vitória (1997) em três jogos amistosos, estando, assim, invicta contra o país do futebol.

Em 2026, o duelo ganhou um capítulo improvável fora das quatro linhas e um determinante dentro de campo. Enquanto o brasileiro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, chegava como um dos favoritos ao Oscar de melhor filme estrangeiro, foi o norueguês Valor Sentimental, de Joachim Trier, quem saiu consagrado com a principal estatueta internacional da noite. Agora, às vésperas de um Brasil x Noruega num mata-mata de Copa do Mundo, o torneio escreverá uma sequência à história que o cinema parecia ter encerrado.

Afinal, a Copa do Mundo e o Oscar compartilham mais do que imaginamos. Em ambos, atletas e artistas deixam de representar apenas suas equipes ou suas obras para se transformarem em símbolos coletivos, carregando sobre os próprios corpos expectativas, memórias e identidades. Cinema e futebol são, cada um à sua maneira, linguagens artísticas capazes de emocionar multidões e contar histórias. Quando Brasil e Noruega se encontrarem, estarão colocando em cena diferentes formas de imaginar, representar e competir como nação. 

Capa da Revista Placar após a derrota do Brasil para a Noruega na última rodada da fase de grupos de 1998 (FOTO: Arquivo Placar)

Se o Brasil costuma ser explicado ao mundo pelo futebol, a Noruega construiu sua projeção internacional por outros caminhos. Um país que conquistou sua independência apenas em 1905 transformou a própria organização do Estado em elemento central de sua identidade nacional. Não por acaso, há décadas figura entre os primeiros colocados do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU e frequentemente aparece no topo dos rankings de qualidade de vida e felicidade. Esses resultados ajudaram a consolidar a imagem internacional de uma sociedade que fez do bem-estar coletivo não apenas uma política pública, mas um traço de sua identidade.

Essa tal felicidade pouco tem a ver com um otimismo ingênuo ou uma suposta vocação nórdica para a alegria. Os indicadores medem, sobretudo, a capacidade de uma sociedade oferecer condições para que seus cidadãos vivam com dignidade: educação e saúde universais, pouca desigualdade social, confiança nas instituições, baixos índices de corrupção, liberdade para tomar decisões sobre a própria vida e uma sólida rede de proteção social. A Noruega aparece no topo desses rankings porque transformou segurança, estabilidade e confiança em patrimônio coletivo. Possivelmente, o maior legado de seu Estado de bem-estar social seja ter produzido uma sociedade em que a felicidade deixa de ser entendida como emoção passageira e passa a ser tratada como consequência de um projeto político de longo prazo.

A Noruega também sintetiza uma das contradições mais fascinantes do século XXI. Enquanto produz quase toda a sua eletricidade por fontes renováveis e financia projetos de preservação ambiental ao redor do mundo, permanece como a maior produtora de petróleo e gás da Europa Ocidental, enriquecendo com a exportação dos combustíveis fósseis que alimentam a crise climática global. Para seus críticos, trata-se de uma evidente hipocrisia; para seus defensores, é uma estratégia utilizar a riqueza do petróleo para financiar a transição energética.

Curiosamente, esse mesmo argumento aparece hoje no Brasil, onde o governo Lula defende a exploração de petróleo na Foz do Amazonas como instrumento para impulsionar uma economia mais sustentável. A Noruega, portanto, não é apenas um exemplo de sustentabilidade, mas um país que aprendeu a administrar o paradoxo entre prosperar graças ao petróleo e investir em um futuro que pretende superar sua dependência. Não por acaso, até Erling Haaland, seu rosto mais conhecido no mundo, atua como embaixador do Conselho Norueguês da Pesca, promovendo internacionalmente a imagem de um país que busca conciliar competitividade econômica e responsabilidade ambiental. 

FOTO: Reprodução Instagram / @bacalhaudanoruegabrasil

Na Copa do Mundo, a imagem mais viral da campanha norueguesa é a “Remada Viking”, em que milhares de torcedores simulam o movimento sincronizado dos antigos barcos escandinavos. O que rapidamente tomou conta de estádios, praças e redes sociais, curiosamente, trata-se de uma tradição recém-inventada, criada em 2025 por um professor de escola, para dar aos noruegueses uma identidade visual própria nas arquibancadas. A escolha está longe de ser aleatória. A Remada Viking parece sintetizar uma releitura contemporânea que transforma um imaginário de conquista em um gesto coletivo, no qual o que importa já não é invadir novos territórios, mas remar na mesma direção. Como uma equipe em campo, um barco viking jamais atravessaria o mar pela força de um único homem. Sua velocidade depende do sincronismo entre dezenas de remadores. Talvez seja essa a imagem que os noruegueses tenham escolhido para representar sua seleção: não a exaltação de guerreiros individuais, mas a potência de um povo que aprende a mover-se em conjunto.

Os vikings permanecem como um dos pilares do patrimônio histórico-cultural da Noruega, ainda que hoje sejam apresentados de forma muito mais crítica do que heroica. Pesquisadores alertam que aqueles navegadores também foram comerciantes, exploradores e agentes de uma época marcada por violência e escravidão, recusando tanto a romantização quanto o apagamento desse passado. 

Joachim Trier não é um embaixador da sustentabilidade norueguesa nem se utiliza do imaginário viking para desenvolver sua linguagem artística, mas promove a valorização cultural do país por meio do cinema. Em seu primeiro filme, A Pior Pessoa do Mundo, Trier já esboça sua genialidade na observação delicada de personagens imperfeitos, a recusa em julgá-los e a confiança de que o cinema pode expressar emoções mais pelo enquadramento e pelos silêncios do que pelos diálogos. O diretor noruegues cria personagens que erram, hesitam e fogem, não por fraqueza, mas porque carregam a dúvida como matéria-prima da existência humana. No sentido oposto, Haaland – o atacante fenômeno, o mais letal do mundo nos últimos cinco anos – é genial justamente por não flertar com a dúvida, e gerar encanto a partir da efetividade de seus movimentos.

Em Valor Sentimental, Trier dá um passo além. Seu personagem principal é um cineasta brilhante, celebrado pelo mundo inteiro, mas incapaz de dirigir a própria intimidade na relação com as filhas. Trier parece compreender que toda grande vocação cobra um preço invisível. A genialidade ilumina os palcos, mas frequentemente escurece os corredores de casa. A reconciliação final, do cineasta com sua filha atriz, emociona pois não acontece nas palavras, mas nos enquadramentos, nos silêncios e na forma como a câmera permite que compartilhem o mesmo espaço, num prazer compartilhado. Premiado no Oscar, Trier transforma a intimidade norueguesa em linguagem universal. Seus filmes levam ao mundo não apenas histórias ambientadas na capital Oslo, mas maneiras norueguesas de amar, silenciar, ocupar a cidade e lidar com a memória. Assim como Haaland internacionaliza a excelência esportiva norueguesa, Trier projeta no imaginário global uma certa maneira de ser Noruega, fazendo pelo país aquilo que poucos artistas conseguem – transformar hábitos cotidianos em patrimônio cultural.

Oslo sob o olhar de Joachim Trier em “A Pior Pessoa do Mundo” (Foto: Sound:as)

Kleber Mendonça Filho, por sua vez, expressa sua inventividade à brasileira. O Agente Secreto cativou o mundo e o Brasil por conseguir exalar brasilidade nos jeitos de ser e por tocar num tema duro, como a ditadura, a partir de interações cotidianas. Enquanto a ditadura militar buscava apagar pessoas, ideias e documentos, o filme transforma a própria memória em protagonista. Seu personagem central não empunha armas; é um professor universitário, cuja maior ameaça ao autoritarismo reside na capacidade de interpretar o mundo e gerar ambientes que enojam as elites por representarem um país esteticamente moderno e menos preconceituoso. 

Marcelo, o professor interpretado por Wagner Moura, não deixa de lembrar João Saldanha, jornalista, intelectual e treinador da Seleção Brasileira afastado às vésperas da Copa de 1970 quando sua independência política chegou ao limite com o projeto de controle simbólico da ditadura. Embora ficção e realidade, ambos descobrem nos anos 70 que talento e inteligência não protegiam quem insiste em falar com autonomia. É possível ouvir os ecos desta tradição também na Seleção atual. Vinícius Júnior transformou sua projeção internacional em uma plataforma de enfrentamento ao racismo, mobilizando mudanças na legislação internacional e pressionando a FIFA a tratar o tema com outra urgência. Em contextos distintos, o professor perseguido, o técnico censurado e o craque atacado revelam uma mesma constante da história brasileira: nossos destaques sofrem quando ultrapassam o lugar social que lhes é designado. Quando a palavra ganha a mesma força que o talento, deixa de ser apenas expressão e passa a incomodar estruturas de poder. Pensar, falar e agir tornam-se, então, formas de insubordinação.

O Agente Secreto parece nos ensinar que a memória também é um território nacional. Ela pode ser ocupada, censurada, saqueada ou preservada. A ditadura fez desaparecer documentos, histórias e vidas porque sabia que um país sem memória se torna mais fácil de reinventar segundo os interesses do poder. São os arquivos, as lembranças, e as histórias compartilhadas que transformam uma população em comunidade. Por isso, toda violência autoritária é também uma violência contra o patrimônio cultural de uma nação, já que esquecer também é uma forma de escrever a história.

Entendendo que uma nação também é aquilo que consegue lembrar coletivamente, o futebol talvez seja um dos maiores arquivos afetivos do país. Poucos lembram o nome de presidentes ou de figuras históricas relevantes, enquanto milhões sabem exatamente onde estavam no tetra de 1994, no penta de 2002 ou durante os sete gols alemães em 2014. O que os documentos oficiais deixam escapar, a lembrança compartilhada de um gol, de uma narração ou de uma camisa frequentemente preserva. Se Kleber Mendonça alerta contra o esquecimento político na sutileza do cinema bem feito, o futebol brasileiro resiste ao esquecimento afetivo na memória da catarse coletiva e familiar.

Há, também, o craque no cinema. Depois de conquistar reconhecimento internacional em produções estrangeiras, Wagner Moura retorna para interpretar uma história profundamente brasileira. O movimento lembra os grandes jogadores que, depois de brilharem nos maiores clubes do mundo, encontravam na camisa da Seleção um palco de outra natureza. Romário foi extraordinário no Barcelona, Ronaldo encantou Milão e Madri, mas havia algo de irreproduzível quando representavam o Brasil. Não jogavam apenas por um clube ou por uma carreira, mas por uma memória coletiva. Com Wagner Moura acontece algo semelhante. Depois de Hollywood, ele volta para falar do Brasil em português, como se algumas histórias só pudessem ser contadas na própria língua. Em um Oscar e em uma Copa do Mundo, atacantes ou atores, em algum momento, deixam de representar apenas a si mesmos, tornando-se arquivos vivos de um país inteiro, carregando no corpo a tarefa, sempre incompleta, de contar ao mundo quem somos.

Celebração nas ruas no dia do Oscar reuniu brasileiros em torcida semelhante ao dia de um jogo de Copa do Mundo (Foto: Brenda Alcantara/AFP via Getty Images)

No fim das contas, Brasil e Noruega chegam a este confronto trazendo muito mais do que duas seleções em busca de uma vaga nas quartas de final. Cada país carrega consigo uma maneira particular de se apresentar ao mundo. O Brasil projetou sua identidade sobretudo por manifestações populares capazes de transformar talento em patrimônio coletivo, tendo o futebol como sua linguagem mais universal. A Noruega construiu reconhecimento internacional combinando bem-estar social, inovação ambiental e uma curiosa capacidade de conviver com os paradoxos do próprio desenvolvimento. Quando Copa do Mundo e Oscar colocam essas nações frente a frente tornam-se arenas simbólicas onde diferentes projetos de sociedade disputam reconhecimento, memória e prestígio. 

Há, porém, uma diferença sutil entre o cinema e o futebol. É certo que ambas produzem memórias permanentes, porém, o esporte guarda uma singularidade que dificilmente uma premiação pode reproduzir: seus personagens continuam voltando ao palco, e é justamente essa possibilidade de novos capítulos que faz do futebol uma arte tão sedutora. Ele não apaga o passado mas oferece, a cada noventa minutos, o direito de imaginar uma nova versão da própria história. Se Valor Sentimental permanecerá para sempre como o filme que superou O Agente Secreto na noite do Oscar, o Brasil é favorito para demarcar seu lugar na arte futebolística sobre a Noruega. Se o cinema preserva a memória de um país, o futebol preserva a esperança de que ela nunca esteja definitivamente escrita.



Por Midia Ninja

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