Haiti: uma nação que não deve ser esquecida

Portal Inhaí
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Por Júlia Ferro

Na última quarta-feira (17), a seleção haitiana realizou seu último jogo da fase de grupos da Copa do Mundo contra o Marrocos, despedindo-se oficialmente da competição como última colocada do Grupo C. No entanto, o feito da classificação para o Mundial, após 52 anos, representa uma grande vitória para o povo haitiano, que há décadas enfrenta uma profunda crise humanitária.

O país caribenho atravessa grandes dificuldades desde 2010, quando foi atingido por um terremoto de magnitude 7,3 na escala Richter. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), além da enorme destruição territorial causada pelo fenômeno, estima-se que cerca de 230 mil pessoas morreram e mais de 1 milhão ficaram desabrigadas.

A situação do Haiti se agravou ainda mais após 2016, quando, depois de um processo eleitoral que durou mais de um ano, foi eleito presidente Jovenel Moïse. Segundo o G1, seu governo foi marcado por protestos que exigiam sua renúncia, motivados pela extensão de seu próprio mandato e pela tentativa de alteração da Constituição para ampliar seus poderes. Esses fatores intensificaram a insatisfação popular e, em julho de 2021, Moïse foi assassinado por um grupo de homens armados.

Desde então, a nação ficou impossibilitada de realizar novas eleições. Sem um novo presidente, o Haiti passou a ser dominado por uma série de gangues violentas, que controlam regiões estratégicas e aterrorizam a população.

Em 2024, o país liderou a taxa de homicídios, de acordo com levantamento do Instituto Igarapé, e atualmente é considerado o país mais pobre das Américas, segundo o Banco Mundial.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, relatou em coletiva de imprensa que a crise provocada por esses grupos forçou 1,5 milhão de pessoas a fugirem para o interior do país e deixou mais da metade dos 11,7 milhões de habitantes dependentes de ajuda humanitária para se alimentar.

Todas essas circunstâncias culminaram no fato de que boa parte da seleção haitiana nunca chegou a pisar no próprio país que representa na Copa do Mundo. De acordo com a BBC News Brasil, apenas 10 dos 26 convocados nasceram no Haiti; os demais são filhos da diáspora haitiana.

Pelos mesmos motivos, a seleção também precisou disputar as eliminatórias da Copa como mandante em campos neutros, fora do território haitiano, já que o Stade Sylvio Cator, principal estádio do país, permanece fechado após ter sido tomado por gangues.

Apesar de todas as dificuldades, o Haiti garantiu sua vaga na Copa do Mundo de 2026 ao vencer a seleção da Nicarágua por 2 a 0, em 2025, assegurando sua segunda participação na competição, da qual estava ausente desde 1974.

Embora a seleção haitiana já tenha sido eliminada, sua presença na fase de grupos representou a garra e a persistência do elenco diante das adversidades. A trajetória acendeu uma faísca de alegria e esperança no povo haitiano, que durante muitos anos recorreu à torcida por outras seleções de futebol, principalmente a brasileira.

Durante todo o período em que a seleção do Haiti esteve ausente da Copa do Mundo, sua população nunca deixou de demonstrar enorme carinho e torcida pela seleção brasileira.

Essa paixão não surgiu por acaso. Em 2004, a ONU promoveu uma partida amistosa entre a seleção brasileira e a seleção haitiana, que ficou conhecida como “Jogo da Paz”. O objetivo era incentivar o desarmamento, e a principal proposta consistia na troca de armas de fogo por ingressos para a partida, permitindo à população acompanhar de perto diversos ídolos do futebol, como Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho.

Créditos: Arquivo CBF

A equipe brasileira venceu por 6 a 0, mas, segundo informações do ex-volante Edu Gaspar ao site da FIFA, o placar ficou em segundo plano diante da alegria dos caribenhos ao verem grandes jogadores atuando diante de seus olhos. Eles comemoraram cada gol da seleção brasileira como se fosse de seu próprio país, e a nação estava tomada pelas cores verde e amarelo.

Esse laço entre a população haitiana e a seleção brasileira perdura até os dias atuais. Em entrevista concedida à emissora Globo neste mês, Frantzdy Pierrot, atacante da seleção haitiana, destacou o tamanho do significado do futebol brasileiro para os haitianos:

“Os haitianos amam o Brasil porque amam futebol e eles também se identificam com o espírito de luta dos brasileiros, porque somos parecidos nesse aspecto. A conexão entre haitianos e brasileiros é algo difícil de explicar”, disse ele.

Atualmente, de acordo com o G1, cerca de 200 mil haitianos vivem no território brasileiro, o que reforça ainda mais os motivos para que o coração dessas pessoas esteja dividido entre o futebol dos Granadeiros e o da única seleção pentacampeã do mundo.



Por Midia Ninja

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