- Comissão aponta crianças como alvo deliberado dos ataques
- Mais de 20 mil crianças teriam morrido desde o início da guerra
- Bloqueio, deslocamentos e fome agravaram situação humanitária
- Israel rejeita acusações e critica relatório
- Comissão também denuncia abusos na Cisjordânia
- Debate internacional sobre o conflito continua
Comissão independente afirma que forças israelenses teriam deliberadamente atingido crianças durante a guerra; governo israelense rejeita acusações e classifica documento como “difamatório”
Uma comissão independente vinculada às Nações Unidas (ONU) acusou Israel de ter deliberadamente atacado crianças palestinas durante a guerra na Faixa de Gaza, concluindo que as ações configurariam genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
O relatório foi divulgado nesta terça-feira (23) pela Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, e Israel. O documento analisa violações contra crianças palestinas desde o início do conflito entre Israel e Hamas, em 7 de outubro de 2023.
Segundo os investigadores, a elevada proporção de crianças mortas ao longo da guerra, somada à continuidade dos ataques mesmo após períodos de cessar-fogo, seria um dos elementos que sustentam a acusação de intenção genocida.
Israel rejeitou integralmente as conclusões do relatório e afirmou que o documento ignora as ações do Hamas e os esforços israelenses para reduzir danos à população civil.
Comissão aponta crianças como alvo deliberado dos ataques
De acordo com a investigação, as forças de segurança israelenses teriam atingido crianças palestinas de forma intencional durante as operações militares em Gaza.
O presidente da comissão, Srinivasan Muralidhar, afirmou que as evidências reunidas demonstram que menores palestinos foram mortos deliberadamente pelas forças israelenses.
Segundo o relatório, os investigadores concluíram que a morte de um número tão elevado de crianças não pode ser considerada apenas consequência indireta das operações militares.
A comissão argumenta que a continuidade do uso de armamentos de grande poder destrutivo em áreas densamente povoadas, mesmo diante do aumento do número de vítimas infantis, reforça a hipótese de que os ataques foram realizados conscientemente.
Mais de 20 mil crianças teriam morrido desde o início da guerra
O relatório estima que pelo menos 20.179 crianças morreram entre outubro de 2023 e outubro de 2025.
Esse número representaria aproximadamente 30% de todas as vítimas fatais registradas no conflito durante o período analisado.
A comissão observou que a proporção é superior à registrada em confrontos anteriores envolvendo Israel e Gaza.
Nas guerras de 2008-2009 e de 2014, por exemplo, crianças representaram cerca de 24% das mortes relacionadas aos combates.
Para os investigadores, o aumento percentual reforça a gravidade da situação enfrentada pela população infantil palestina.
Bloqueio, deslocamentos e fome agravaram situação humanitária
Além dos bombardeios, a comissão concluiu que as condições impostas à população de Gaza tiveram impacto devastador sobre crianças e adolescentes.
O relatório cita deslocamentos forçados repetidos, restrições à entrada de ajuda humanitária, escassez de alimentos, medicamentos e ataques à infraestrutura civil como fatores que contribuíram para mortes evitáveis e traumas psicológicos em larga escala.
Os investigadores também apontaram impactos severos no sistema de saúde, incluindo dificuldades no atendimento de gestantes e recém-nascidos.
Segundo o documento, houve aumento nos registros de abortos espontâneos e complicações médicas associadas à destruição ou interrupção de serviços hospitalares.
A comissão acrescenta que praticamente todas as crianças da Faixa de Gaza necessitariam atualmente de algum tipo de apoio psicológico devido aos efeitos da guerra.
Israel rejeita acusações e critica relatório
Em resposta, a missão diplomática de Israel em Genebra classificou o documento como um relatório “difamatório” e rejeitou todas as conclusões apresentadas.
O governo israelense afirmou que suas forças armadas atuam de acordo com o direito internacional e buscam minimizar danos à população civil, incluindo crianças.
Em nota, Israel declarou que o relatório ignora o contexto da guerra e as táticas utilizadas pelo Hamas durante o conflito.
As autoridades israelenses também destacaram ações realizadas para facilitar campanhas de vacinação, entrada de equipes médicas e instalação de hospitais de campanha na Faixa de Gaza.
Além disso, Israel voltou a acusar o Hamas de desviar ajuda humanitária e combustível destinados à população civil, alegação que é negada pelo grupo palestino.
Comissão também denuncia abusos na Cisjordânia
O relatório não se limita à Faixa de Gaza e também apresenta conclusões sobre a situação na Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental.
Segundo os investigadores, houve aumento significativo da violência praticada por colonos israelenses contra crianças palestinas.
A comissão afirma ainda ter documentado evidências de tortura, violência sexual e maus-tratos durante operações de prisão e detenção.
O documento relata que crianças palestinas, especialmente meninos, teriam sido submetidas a agressões físicas, privação de alimentos, humilhações e remoção forçada de roupas durante períodos de custódia.
Na avaliação da comissão, essas práticas configurariam crimes contra a humanidade, incluindo tortura e outros atos considerados desumanos.
Debate internacional sobre o conflito continua
As conclusões divulgadas pela comissão da ONU tendem a ampliar o debate internacional sobre a condução da guerra entre Israel e Hamas e sobre a situação humanitária nos territórios palestinos.
Enquanto organismos internacionais e entidades de direitos humanos cobram investigações e responsabilizações, Israel segue contestando as acusações e argumentando que suas operações militares têm como objetivo combater grupos armados responsáveis pelos ataques de 7 de outubro de 2023.
O relatório divulgado nesta terça-feira representa mais um capítulo na crescente disputa diplomática e jurídica em torno do conflito, que continua gerando repercussões políticas, humanitárias e internacionais.
