O QUE TORNA UMA NAÇÃO FORTE?

Zadoque Cardoso
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A reportagem publicada pela BBC nesta semana, repercutindo as declarações do presidente norte-americano Donald Trump sobre a suposta fragilidade da política brasileira, gerou o tipo de debate que já se tornou comum em tempos de polarização. Enquanto alguns enxergaram uma ofensa à soberania nacional, outros utilizaram a fala para reforçar suas próprias convicções políticas. 

Mas talvez a discussão mais interessante não esteja na opinião de um líder estrangeiro sobre o Brasil. A verdadeira questão é outra: o que torna uma nação forte?

A resposta costuma ser procurada na economia, na influência internacional ou na capacidade de um governo impor suas decisões. São fatores importantes, sem dúvida. Contudo, a experiência histórica demonstra que o desenvolvimento sustentável depende de algo menos visível e, muitas vezes, menos valorizado: a qualidade das instituições e a capacidade de participação da sociedade.

Nos últimos anos, o Brasil assistiu à retomada de diversos espaços de participação social previstos na Constituição Federal de 1988. Entre 2022 e 2024, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), houve um crescimento expressivo na realização de conferências nacionais voltadas à formulação de políticas públicas. Educação, saúde, direitos humanos, assistência social, igualdade racial e diversas outras áreas voltaram a reunir representantes do poder público e da sociedade civil para discutir prioridades e construir propostas coletivas.

Em outubro de 2025, Brasília sediou a 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, reunindo delegados de todos os estados brasileiros após quase uma década sem realização da etapa nacional. Antes disso, milhares de pessoas participaram das etapas municipais e estaduais. Em Guarulhos, por exemplo, a 3ª Conferência Municipal LGBTQIA+ reuniu representantes da sociedade civil, universidades, movimentos sociais, gestores públicos e instituições comprometidas com a construção de políticas públicas voltadas à cidadania e aos direitos humanos.

Para muitos, esses encontros podem parecer apenas eventos temáticos. Eu os vejo de outra forma.

Vejo nesses espaços um dos exercícios mais sofisticados de governança democrática existentes no país.

Ao longo do processo que culminou na 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, estiveram representadas instituições públicas e organizações da sociedade civil com trajetórias distintas, mas comprometidas com a construção democrática. Participaram representantes da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH), da Aliança Nacional LGBTI+, de coletivos regionais e movimentos independentes de todo o país, além de integrantes do Ministério Público, da Defensoria Pública, da Ordem dos Advogados do Brasil, de universidades públicas e privadas, conselhos de direitos e gestores das três esferas federativas. A diversidade de atores presentes demonstra que as conferências nacionais não são apenas espaços de reivindicação. São ambientes institucionais de diálogo, negociação e formulação de propostas capazes de aproximar Estado e sociedade na construção de políticas públicas.

A experiência observada em Brasília reproduz, em escala nacional, um processo que se inicia nos territórios. Em Guarulhos, a 3ª Conferência Municipal LGBTQIA+ reuniu representantes da OAB Guarulhos, da Coordenadoria de Políticas de Diversidade Sexual (CPDS), da Subsecretaria de Políticas da Diversidade, de universidades, movimentos sociais, lideranças comunitárias e organizações da sociedade civil para discutir propostas voltadas à promoção da cidadania e dos direitos humanos. As deliberações construídas nessa etapa seguiram para a 4ª Conferência Estadual dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Estado de São Paulo, espaço que reuniu delegados de diversas regiões paulistas e consolidou propostas posteriormente encaminhadas à 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, realizada em Brasília. Essa trajetória demonstra como a participação social opera na prática: ideias construídas localmente são debatidas, aperfeiçoadas e incorporadas a agendas mais amplas, conectando realidades municipais às decisões de alcance nacional. É justamente essa capacidade de transformar experiências locais em formulação de políticas públicas que torna a participação social um instrumento estratégico de fortalecimento institucional.

Essa discussão é particularmente importante porque existe uma relação direta entre participação social, governança e desenvolvimento econômico.

O cientista político Robert Putnam, ao estudar o desempenho institucional de diferentes regiões da Itália, identificou que comunidades com maior capacidade de cooperação e confiança tendiam a apresentar melhores resultados econômicos e institucionais. Décadas depois, organismos internacionais como o Banco Mundial passaram a incorporar a qualidade da governança e das instituições entre os fatores centrais para compreender por que algumas sociedades prosperam mais do que outras.

A lógica é simples.

Empresas precisam de previsibilidade para investir. 

Trabalhadores precisam de oportunidades para desenvolver suas capacidades. Governos precisam de legitimidade para implementar políticas públicas. Nenhum desses objetivos é alcançado de forma duradoura em ambientes marcados pela desconfiança permanente entre Estado e sociedade.

Por essa razão, participação social não deve ser compreendida apenas como uma agenda ligada à cidadania ou aos direitos humanos. Ela também é uma agenda de desenvolvimento.

Quando a sociedade participa, produz informações mais qualificadas sobre seus problemas. Quando essas informações chegam aos espaços de decisão, aumentam as possibilidades de construção de políticas públicas mais eficientes. E quando as instituições conseguem responder às demandas sociais com legitimidade e previsibilidade, criam-se condições mais favoráveis para o crescimento econômico, para a inovação e para a redução das desigualdades.

Essa talvez seja uma das lições mais importantes do nosso tempo.

Em um cenário global marcado por disputas geopolíticas, transformações tecnológicas aceleradas e desafios econômicos cada vez mais complexos, a força de uma nação não pode ser medida apenas por indicadores financeiros ou pela capacidade de seus governantes.

Nações fortes são aquelas capazes de construir instituições confiáveis, promover diálogo entre diferentes setores da sociedade e transformar divergências em soluções coletivas.

Por isso, ao refletirmos sobre a suposta fragilidade da política brasileira, talvez valha a pena olhar para além das manchetes. A soberania nacional não é construída apenas nos palácios, nos tribunais ou nos parlamentos. Ela também é construída nas conferências nacionais, estaduais e municipais, nos conselhos de direitos, nas universidades, nas entidades de classe, nos movimentos sociais e em todos os espaços onde cidadãos decidem participar da construção do futuro comum.

Afinal, democracias maduras não são aquelas que eliminam conflitos. São aquelas que desenvolvem instituições capazes de transformá-los em aprendizado, desenvolvimento e progresso coletivo.


Zadoque Cardoso é estrategista em governança humana e desenvolvimento institucional, advogado, consultor, palestrante e colunista. MBA em Gestão de Pessoas e Liderança pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB Guarulhos. Escreve sobre governança, direitos humanos, diversidade, desenvolvimento econômico e transformação social.


Fontes e referências consultadas: BBC Brasil, IPEA, 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, ANTRA, FGV e Robert Putnam.

Fontes e referências consultadas

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