Brasilcore: a estética que virou tendência mundial sempre esteve nas periferias brasileiras

Portal Inhaí
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Por Anna Ketleen Gonçalves Alves

A Copa do Mundo está chegando e, junto dela, uma estética volta a aparecer com força nas redes sociais: o Brasilcore. Camisas da Seleção Brasileira, peças verde e amarelas, referências ao futebol, chinelos e elementos do lifestyle brasileiro ganham espaço novamente. Mas, por trás da tendência, existe uma questão: essa estética realmente surgiu agora ou apenas passou a ser valorizada quando chegou a outros espaços?

Antes de receber um nome em inglês e ser transformado em uma tendência global, o Brasilcore já fazia parte do cotidiano das periferias brasileiras. Nas ruas, nos bailes funks, nos campos de várzea e nos bairros populares, a mistura de cores vibrantes, roupas esportivas e símbolos nacionais sempre esteve presente.

A camisa da Seleção Brasileira nunca deixou de ser uma peça de identidade. Para muitos jovens das comunidades, o futebol não representa apenas lazer, mas também sonho, pertencimento e possibilidade.

“Me lembro de crescer em torno do futebol, toda criança periférica sonha em se tornar o novo Neymar, e o esporte mais famoso do mundo é um pilar pelas ruas das favelas, o que faz automaticamente seus símbolos e uniformes serem desejo, e é claro que a Copa do Mundo só intensifica isso”, escreveu a designer Mayra Souza em matéria publicada no Steal The Look.

O estilo das ruas sempre teve forte ligação com o esporte e a cultura popular: camisas de times, peças esportivas, combinações com cores chamativas e acessórios que fazem parte da rotina de muitos brasileiros. Como afirma Mayra: “De onde eu venho, o Brasilcore sempre foi tendência.”

Quando algo que já existia ganha um novo nome

Com a força das redes sociais, uma estética que já fazia parte da vida de muitas pessoas passou a ser apresentada ao mundo como novidade. O termo Brasilcore começou a circular principalmente no ambiente digital, transformando referências brasileiras em uma tendência de moda.

O conceito reúne elementos da cultura popular e periférica, com influência do streetwear, da moda de favela, do funk e das referências esportivas. A imagem associada ao estilo costuma trazer camisas retrô, peças com o nome Brasil, jaquetas esportivas, crochês, acessórios verde e amarelo e as tradicionais Havaianas.

A Copa do Mundo de 2022 foi um dos principais momentos de crescimento da estética. O evento colocou novamente as cores do Brasil em destaque, enquanto redes sociais como TikTok, Instagram e Pinterest impulsionaram conteúdos ensinando como montar looks inspirados no Brasilcore.A partir disso, celebridades e influencers internacionais passaram a incorporar elementos brasileiros em seus visuais. Nomes como Hailey Bieber e Dua Lipa ajudaram a ampliar o alcance da estética fora do país, fazendo com que referências antes vistas como comuns passassem a ser associadas a uma tendência global.

Foto: Reprodução/Instagram/Hailey Bieber

O fenômeno também chegou ao mercado da moda. Em 2023, a Vogue França colocou o Brasilcore entre as tendências do verão no Hemisfério Norte, reforçando a popularidade da estética internacionalmente.

A diferença entre viver uma cultura e apenas reproduzi-la

Apesar da visibilidade, a popularização do Brasilcore trouxe uma discussão sobre origem e apropriação cultural.

Hoje, é comum encontrar nas redes sociais vídeos com títulos como “monte seu look Brasilcore”. Porém, muitas vezes, as referências utilizadas vêm de pessoas que não necessariamente vivem a realidade que originou essa estética.

O problema não está em outras pessoas se inspirarem na cultura brasileira, mas em quando a tendência passa a existir apenas como uma imagem. A estética vira um produto, enquanto sua história e seus criadores ficam em segundo plano.

Muitas pessoas passam a consumir a versão mais “pasteurizada” e comercial do Brasilcore, enquanto a vivência real das comunidades continua sem o mesmo reconhecimento.

Uma peça que faz parte do cotidiano popular pode ganhar outro significado quando é apresentada por grandes marcas ou influencers. A mesma estética pode ser encontrada em diferentes espaços, mas nem sempre recebe o mesmo valor dependendo de quem está usando.

Quando a periferia vira referência para o mercado

A valorização internacional do Brasilcore também abriu espaço para marcas estrangeiras utilizarem elementos da cultura brasileira em suas coleções.

Um exemplo foi a marca britânica Corteiz, que recebeu críticas de brasileiros após lançar uma coleção inspirada no uniforme da Seleção Brasileira campeã de 2002. A marca comercializou as peças no exterior, mas não disponibilizou a coleção oficialmente no Brasil, gerando debates sobre apropriação da estética brasileira.

A situação levantou uma questão: até que ponto uma cultura pode ser transformada em produto sem que as pessoas que ajudaram a construir aquela referência sejam reconhecidas?

O Brasil possui uma enorme influência cultural, mas muitas vezes seus símbolos são valorizados fora do país antes de receberem o mesmo reconhecimento internamente.

Isso também aparece no futebol. A camisa da Seleção Brasileira é um dos maiores símbolos esportivos do país, mas o acesso à peça oficial não é uma realidade para todos. Na época da publicação desta matéria, a versão jogador custava R$ 712,50, enquanto a versão torcedor era vendida por R$ 427,50 na loja oficial da Nike, fornecedora do uniforme da equipe brasileira.

Foto: Divulgação/Nike

Para muitos brasileiros, especialmente nas comunidades onde o futebol tem um papel tão presente, esses valores estão fora do orçamento. O uso de versões falsificadas não acontece apenas por escolha, mas também pela dificuldade de acesso a um produto que representa justamente a população que ajudou a construir seu significado.

Um símbolo brasileiro além das disputas políticas

Nos últimos anos, símbolos como a bandeira e a camisa da Seleção passaram por uma forte associação política, principalmente após a ascensão de movimentos ligados ao governo de Jair Bolsonaro e a apropriação desses elementos por grupos de direita.

Esse cenário fez com que parte da população se afastasse de símbolos que historicamente pertencem ao país como um todo.

A popularização do Brasilcore também trouxe uma ressignificação desses elementos, reforçando que as cores brasileiras, o futebol e a cultura nacional não pertencem a um único grupo político. Eles fazem parte da identidade de diferentes brasileiros.

Foto: Reprodução/Instagram/Camisa 4

A valorização internacional da estética pode funcionar como uma forma de apresentar o Brasil ao mundo. Porém, o país é muito maior do que uma imagem baseada apenas em praia, sol, futebol e carnaval.

O Brasilcore mostra que a cultura brasileira sempre criou tendências. A diferença é que, muitas vezes, aquilo que nasce nas ruas só recebe reconhecimento quando chega às redes sociais, às grandes marcas e aos espaços de maior visibilidade.

Como resume a pesquisadora Lúcia Alves: “O que para uns é tendência, e logo vai passar, para outros é cultura e estilo de vida. Nosso dever como comunicadores é apresentar o real significado por trás dessa estética.”



Por Midia Ninja

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