Preparo psicológico pode influenciar desempenho na Copa do Mundo

Portal Inhaí
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Por Joaquim da Silva Morais

A Copa do Mundo simboliza o ápice do futebol em nível global, mas também representa um dos ambientes de maior pressão psicológica do esporte. Nos bastidores, o maior torneio do mundo revela um cenário bem menos glamouroso. Vestir a camisa de uma seleção significa carregar nas costas a expectativa de milhões de torcedores, o julgamento constante das redes sociais e a cobrança agressiva da mídia. Esse cenário tem levado clubes e federações a entenderem que o preparo mental não é mais um adicional, mas sim um elemento central do desempenho esportivo.

A pressão de representar um país

Diferentemente do futebol de clubes, a Copa envolve fatores emocionais ligados à identidade nacional e ao simbolismo da camisa. Psicólogos do esporte apontam que a pressão aumenta especialmente em seleções favoritas ao título, como Brasil, Alemanha e Argentina. Durante a Copa de 2014, disputada no Brasil, o componente emocional tornou-se um dos temas centrais após episódios de choro e ansiedade dos jogadores brasileiros antes de disputas decisivas, sobretudo depois da dramática eliminação da seleção naquela edição.

Segundo a psicóloga esportiva Regina Brandão, que trabalhou com a Seleção Brasileira durante a Copa de 2014, a pressão foi um fator prejudicial ao grupo. “A impressão que eu tive era que os jogadores tinham qualidades muito importantes, mas pouca experiência para enfrentar situações de muita cobrança”, afirmou em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em julho de 2014. “A equipe não conseguiu acertar o jogo em si, e isso foi gerando uma redução na autoconfiança, apesar de toda a experiência”, acrescentou.

Especialistas também destacam que a pressão psicológica varia conforme a expectativa sobre cada seleção. Enquanto equipes consideradas menos promissoras atuam sob menor cobrança, países historicamente vencedores convivem com exigências constantes por resultados.

O que engloba o trabalho psicológico

Hoje, no esporte de alto rendimento, o acompanhamento psicológico é considerado indispensável na preparação dos atletas, inclusive entre as seleções. Trabalhos voltados ao controle da ansiedade, fortalecimento da autoconfiança, gestão emocional após derrotas e preparação para disputas de pênaltis passaram a fazer parte da rotina dos jogadores.

Há também estratégias modernas que incluem dinâmicas coletivas para fortalecer os laços internos e até simulações reais de estresse, nas quais atletas treinam sob o barulho de torcidas hostis e cenários de erro extremo para acostumar o cérebro à tomada de decisão em meio ao caos.

A urgência desse debate ficou explícita na Copa do Catar, em 2022. Após a eliminação para a Croácia, críticas reacenderam a discussão sobre a decisão da comissão técnica brasileira de não levar um psicólogo dedicado à competição. Especialistas argumentaram que o acompanhamento psicológico contínuo poderia auxiliar os atletas a lidar melhor com frustrações, ansiedade e pressão competitiva.

O impacto do calendário e da fadiga mental

Outro fator importante é o desgaste físico e emocional causado pelo calendário do futebol moderno. Um relatório da FIFPro, sindicato internacional dos jogadores profissionais, mostrou que atletas que disputaram a Copa do Catar relataram fadiga mental, emocional e física devido ao curto período de preparação e descanso antes do torneio. Segundo o levantamento, 20% dos jogadores afirmaram sofrer fadiga mental extrema; 44% relataram fadiga física crescente; e 86% desejavam um período maior de preparação antes daquela edição da Copa.

O estudo também apontou que o tempo médio de preparação das seleções caiu significativamente em comparação com edições anteriores do Mundial. O período de transição entre clubes e seleções despencou de históricos 37 dias para pouco mais de uma semana. Um dos jogadores entrevistados chegou a dizer que o retorno imediato foi “praticamente suicídio”, em reportagem publicada pelo GE em 2023, ao relatar o desgaste físico e emocional provocado pela falta de tempo para preparação.

De olho na Copa de 2026

Alguns dos principais nomes do futebol mundial já tratam a saúde mental como prioridade estratégica. A Inglaterra é um dos principais exemplos. Depois de anos acumulando eliminações traumáticas em disputas de pênaltis, a seleção passou a investir em acompanhamento psicológico antes da Copa de 2018. A psicóloga Pippa Grange trabalhou diretamente com os jogadores para melhorar confiança, controle emocional e liderança dentro do grupo. O resultado ganhou destaque quando os ingleses venceram uma disputa por pênaltis em uma Copa do Mundo pela primeira vez em décadas, em 2018, contra a Colômbia.

Além disso, o técnico Thomas Tuchel afirmou que está priorizando “química”, comunicação e perfil emocional dos jogadores na montagem do elenco. A comissão inglesa implementou métodos pouco convencionais para preparar os atletas para o desgaste mental e físico do Mundial de 2026, como treinos em tendas de calor e umidade, yoga para controle do estresse, monitoramento corporal por sensores e acompanhamento individualizado da recuperação emocional e física.

Outro exemplo é a Alemanha, assombrada pelas eliminações precoces nas Copas de 2018 e 2022. Neste ciclo, o técnico Julian Nagelsmann passou a focar fortemente na reconstrução emocional e da identidade da seleção para 2026. Em entrevistas recentes à FIFA, o comandante afirmou que deseja recuperar características históricas do futebol alemão, como “mentalidade”, “reação” e “espírito coletivo”. O treinador também destacou a importância de criar um ambiente mais leve para os jogadores jovens, que chegam pressionados após os fracassos recentes da equipe em Copas do Mundo.

No caso do Brasil, a CBF sinalizou uma mudança de postura ao integrar permanentemente a psicóloga Marisa Santiago à comissão técnica da Seleção Principal desde 2024. O objetivo é que o trabalho de gestão da pressão e inteligência emocional seja contínuo, evitando intervenções de última hora na Copa de 2026.

No futebol de altíssimo nível, a diferença tática e técnica entre as grandes seleções não é o único fator que define o resultado de uma partida. Quando o tempo começa a contar, a vitória provavelmente não ficará com a equipe que possui o maior potencial, mas com aquela que souber conduzir uma partida equilibrada, controlar a ansiedade e não permitir que a pressão decida o rumo do jogo.



Por Midia Ninja

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