No segundo dia da Feira do Livro de São Paulo, os escritores Leo Cunha e Tino Freitas, ao lado da ilustradora PriWi, participaram de uma conversa sobre um dos temas mais presentes na cultura brasileira: o futebol. A partir do livro ilustrado É Dia de Futebol, os autores discutiram infância, acessibilidade, representatividade e o direito de diferentes pessoas ocuparem os espaços tradicionalmente associados ao esporte.
A obra acompanha a experiência de uma menina em seu primeiro jogo de futebol no estádio, narrando as emoções da partida com o olhar curioso e sensível de uma criança. A história nasceu das vivências pessoais dos autores, especialmente da relação de Tino Freitas com sua neta de seis anos, diagnosticada com Atrofia Muscular Espinhal (AME), cuja paixão pelo futebol e pelos passeios ao estádio inspirou parte da narrativa.
Leo Cunha relembrou que a ideia do livro começou durante uma conversa informal com Tino, em um hotel, quando discutiam a possibilidade de criar uma história em que texto e imagem não reproduzissem exatamente a mesma informação. Essa proposta se tornou uma das características centrais da obra, na qual ilustração e narrativa dialogam de forma complementar, criando novas camadas de interpretação para os leitores.

A responsabilidade de traduzir visualmente essa proposta ficou com PriWi, ilustradora e apaixonada por futebol. Em suas imagens, o estádio ganha cores, movimento e emoção, acompanhando o olhar da protagonista e reforçando a ideia do futebol como parte fundamental da cultura brasileira. As ilustrações ajudam a construir uma experiência que aproxima leitores de diferentes idades da atmosfera única de um dia de jogo.
Apesar de voltado ao público infantil, o livro aborda temas complexos. Os autores destacaram que a obra atravessa discussões sobre identidade nacional, pertencimento, feminismo, racismo, acessibilidade e consciência de classe. Para Tino Freitas, a escolha de uma menina como personagem principal foi uma decisão consciente diante da histórica predominância masculina nas narrativas esportivas. “A ideia de ser uma menina vem da falta de representatividade dentro do futebol”, explicou o autor.
PriWi também compartilhou sua experiência como mulher apaixonada por futebol em um contexto frequentemente marcado pelo machismo. Para ela, o esporte é um espaço de construção de afetos, memórias e identidade coletiva. “Futebol é um lugar onde todos nós podemos crescer, qualquer pessoa. Às vezes, nem todo mundo pode ir ao estádio, mas tudo aquilo que sentimos, todo o caminho que leva até ele, é representativo”, afirmou.
Tino ressaltou que a intenção do livro é ampliar a diversidade de personagens presentes na literatura esportiva infantil e permitir que mais crianças se reconheçam nas histórias que leem. “A ideia é que a gente pudesse oferecer aos leitores da nova geração a possibilidade de se reconhecer aqui dentro”, destacou.


A conversa também chamou atenção para a importância da torcida como parte essencial do universo futebolístico. PriWi observou que, muitas vezes, as narrativas sobre futebol se concentram apenas nos atletas, ignorando o papel daqueles que vivem o esporte das arquibancadas. “Quando as pessoas pensam na cena do futebol, pensam em ser jogador, na oportunidade de jogar. Mas a torcida é muito importante. Ela também contribui para o futebol”, afirmou.
Ao final do encontro, os autores realizaram uma leitura coletiva de É Dia de Futebol para as crianças presentes. A atividade aproximou o público da trajetória de Clarice, protagonista da obra, que acompanha seu primeiro dia no estádio. Encantadas com a narrativa, as crianças compartilharam suas próprias experiências com o futebol, contaram histórias de idas aos estádios e participaram de uma conversa descontraída com os autores e a ilustradora PriWi, mostrando a força da literatura infantil para criar identificação, estimular a imaginação e ampliar o diálogo sobre pertencimento e inclusão.
