Em um dos congressos mais tradicionais do meio evangélico brasileiro, uma fala rompeu protocolos, atravessou as redes sociais e colocou no centro do debate um tema historicamente silenciado dentro das igrejas: violência doméstica, abuso sexual e omissão institucional.
Durante o 41º Congresso dos Gideões Missionários da Última Hora 2026, realizado em Camboriú, Santa Catarina, a Pastora Helena Raquel utilizou o púlpito para denunciar práticas de violência e abuso dentro de ambientes religiosos, em um discurso que ultrapassou 11 milhões de visualizações em poucos dias.
O evento, considerado um dos maiores congressos missionários do país, reuniu milhares de pessoas e contou com transmissão nacional pelas redes e canais religiosos.
“PARE DE ORAR POR ELE E DENUNCIE”
Conhecida nas redes sociais por suas pregações de forte tom bíblico e profético, Helena Raquel abandonou a lógica tradicional de aconselhamento religioso centrado apenas na oração e fez um apelo direto às mulheres vítimas de violência.
Para de orar por ele hoje. Deus me trouxe aqui pra usar os minutos que pregadores no Brasil gostariam de usar pra salvar a tua vida da morte. Comece a orar por você”, afirmou.
Em seguida, a pastora orientou mulheres a procurarem proteção institucional e romperem ciclos de violência doméstica.
Você precisa ter coragem para sair e fazer a denúncia em uma delegacia de apoio à mulher ou qualquer outra. Você precisa, com urgência, ligar para alguém de confiança e buscar um lugar seguro. Por último, não acredite no pedido de desculpas, porque quem agride, mata; saia daí.”
A fala ganhou repercussão justamente por confrontar uma prática ainda recorrente em determinados ambientes religiosos: a orientação para que vítimas permaneçam em relações abusivas em nome da preservação familiar ou da manutenção da imagem institucional da igreja.
ABUSO, PEDOFILIA E O SILÊNCIO RELIGIOSO
O momento mais impactante da pregação ocorreu quando Helena Raquel abordou diretamente casos de abuso sexual e pedofilia envolvendo lideranças religiosas.
Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso.”
Ou é pastor, ou é abusador.”
As declarações repercutiram nacionalmente por romperem uma barreira raramente enfrentada em grandes eventos evangélicos transmitidos em larga escala. Ao associar abuso à responsabilização criminal — e não à proteção institucional — a pastora deslocou o debate da esfera exclusivamente espiritual para o campo dos direitos humanos e da proteção das vítimas.
Pelo aplicativo de mensagens WhatsApp para receber atendimento ou denunciar, basta enviar uma mensagem para o número (61) 99611-0100 ou pelo link https://wa.me/5561996110100
Ela também criticou a cultura de silêncio dentro de determinadas comunidades religiosas.
A maior parte das pessoas que são vítimas, em igrejas evangélicas, de violência doméstica ou de violência sexual, são orientadas a não denunciar o culpado, para evitar escândalos.”
QUANDO O PÚLPITO SE TORNA ESPAÇO DE DENÚNCIA
A repercussão do discurso não se explica apenas pelas frases de impacto, mas pelo contexto em que foram ditas.
Tradicionalmente voltado à pregação missionária e à mobilização religiosa, o Congresso dos Gideões raramente se torna palco para debates públicos sobre violência institucional dentro das próprias igrejas.
Ao utilizar esse espaço para tratar de feminicídio, abuso sexual e omissão religiosa, Helena Raquel rompeu um protocolo histórico do segmento evangélico midiático.
Durante a fala, ela citou dados sobre feminicídio no Brasil e mencionou informações relacionadas ao consumo de pornografia infantil, afirmando que o problema atravessa toda a sociedade — inclusive ambientes religiosos.
Não existe unção que justifique abuso. Não existe chamado que autorize agressão. Se agride… não representa Deus.”
RELIGIÃO, DIREITOS HUMANOS E RESPONSABILIDADE INSTITUCIONAL
A repercussão da pregação também evidencia uma mudança importante dentro do debate religioso contemporâneo: cresce a pressão para que igrejas deixem de tratar violência doméstica e abuso sexual apenas como questões espirituais e passem a reconhecer sua dimensão criminal, psicológica e social.
O discurso da pastora encontrou ampla circulação justamente porque dialoga com uma demanda cada vez mais presente entre mulheres evangélicas: a necessidade de romper estruturas de silêncio e proteção institucional de agressores.
Mais do que uma fala viral, a pregação de Helena Raquel abriu uma fissura pública em um debate historicamente tratado nos bastidores das instituições religiosas.
No fim, o que viralizou não foi apenas uma frase forte dita no púlpito. Foi o deslocamento de uma lógica antiga — aquela em que vítimas eram orientadas apenas a suportar, orar e permanecer em silêncio — para uma nova exigência social: denunciar, proteger e responsabilizar.
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