Samuel Beckett, ‘Os Banshees de Inisherin’, ‘Anemone’ e aquilo que nunca se resolve

Portal Inhaí
5 Min Read


Por Mauriceia Rocha

Uma dupla de homens, uma estranha e aparente normalidade, um tom desolador de deslocamento, fantasmas da ausência, pessimismo, o tempo lento da ampulheta, memórias, a ausência de propósito, um humor sombrio, exílio… Estamos falando dos filmes “Os Banshees de Inisherin” (2022), de Martin McDonagh, e “Anemone” (2025), de Ronan Day Lewis, mas, tranquilamente, poderíamos estar descrevendo Esperando Godot, peça de teatro escrita por Samuel Beckett em 1949.

Nada de grandioso realmente acontece. O silêncio grita e revela tentando esconder, há pausas, ações contidas e a tensão é pacata. A natureza, para além de cenário, envolve simbolicamente os personagens; seja em uma ilha fictícia que isola Pádraic (Colin Farrell) e Colm (Brendan Gleeson) do resto do mundo, ou na névoa da floresta onde Ray Stoker (Daniel Day Lewis) se autoexila, envolto a anêmonas, conhecidas como flores do vento, as favoritas de seu pai, até a única árvore representando a passagem cíclica do tempo, onde Vladimir e Estragon aguardam, aguardam e aguardam.

As três histórias trazem a guerra como ferida aberta, quase como uma presença assombrosa — ou melhor, uma banshee: criatura da mitologia irlandesa que geme para anunciar que a morte se aproxima. Esperando Godot é a peça central que representa o Teatro do Absurdo, movimento que espelha o desespero e a falta de sentido no ser humano pós-Segunda Guerra Mundial. Dizem que Vladimir e Estragon seguem esperando até hoje por uma intervenção, uma salvação, um deus (seja com letra maiúscula ou minúscula). Já em “Anemone”, Ray é torturado por sua própria consciência, diante de seu passado como ex-soldado britânico envolvido em conflito na Irlanda do Norte, e em “Os Banshees de Inisherin”, “uma guerra entre dois amigos enquanto uma guerra maior acontece lá fora”, segundo palavras do próprio roteirista e diretor em entrevista à Exame Pop, referindo-se ao contexto em que o filme se desenrola: 1923, durante a Guerra Civil Irlandesa, quando a população se dividia em lados opostos entre a República da Irlanda e o Reino Unido.

“Os Banshees de Inisherin”. Foto: Divulgação

Irlanda essa que também é um ponto de intersecção entre os artistas criadores. Martin é britânico, filho de irlandeses, enquanto Ronan, estadunidense, passou parte de sua infância em terras irlandesas, e Beckett é um dos filhos ilustres do país. Os artistas também se encontram no teatro, já que McDonagh é também dramaturgo. Além da notável influência da linguagem teatral para descrever cenas rotineiras, vale ressaltar que “Os Banshees de Inisherin” já foi uma peça, que com os anos se desfez e se tornou um roteiro, mantendo do original apenas o título. Já Ronan também transparece suas outras vertentes artísticas em seu longa-metragem de estreia. Seu lado pintor e escultor aparece através “da criatura”, como ele assim a chama — figura recorrente em suas obras, com pescoço alongado, rosto humano e um minúsculo pênis.

Ademais, todo o diálogo que as obras cinematográficas travam com a obra de Beckett, ambos os filmes acrescentam mais uma camada de imobilidade às suas tramas: a da masculinidade como prisão, travando caminhos e comunicações. Colm prefere cortar os próprios dedos da mão para afastar o melhor amigo; Ray prefere abandonar a família e lidar com suas dores sozinho, deixando um legado geracional de dor e violência para seu próprio filho. Em contrapartida, na vida real, o protagonista Daniel Day Lewis volta de seu exílio como ator, protagonizando e co-roteirizando a película, deixando um legado geracional artístico e de prestígio.

“Os Banshees de Inisherin” está disponível no streaming Disney+, “Anemone” ainda não tem previsão de estreia nos cinemas brasileiros, e Esperando Godot volta e meia está em cartaz através de algum grupo ou companhia teatral, por se tratar de um clássico que envelhece cada vez melhor.



Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *