Os Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3) para renovar o Congresso em uma eleição que pode redefinir os últimos dois anos do segundo mandato de Donald Trump. Entre os grupos que podem influenciar o resultado está o eleitorado latino, que enfrenta uma escalada de políticas antimigratórias, operações de deportação em massa e o aumento do custo de vida.
Com aproximadamente 36 milhões de pessoas habilitadas a votar, a comunidade latina representa uma força eleitoral cada vez mais importante no país. Segundo pesquisa do Pew Research Center, 51% dos eleitores latinos registrados pretendem votar em candidatos democratas para a Câmara dos Representantes, enquanto apenas 24% apoiam os republicanos.
O resultado representa uma mudança significativa em relação às eleições presidenciais de 2024, quando Trump ampliou seu apoio entre os latinos e conquistou quase metade dos votos desse eleitorado, segundo os dados apresentados pela reportagem do TN.
Dois anos depois, o cenário é diferente. Apenas 24% dos eleitores latinos aprovam o desempenho do presidente, enquanto 74% consideram que suas políticas econômicas pioraram a situação dos Estados Unidos.
O descontentamento também aparece em outra pesquisa, realizada pelo The New York Times em setembro, segundo a qual 78% dos eleitores hispânicos consultados preferiam que o Partido Democrata assumisse o controle do Congresso.
Deportações e medo nas comunidades migrantes
A política migratória de Trump se tornou um dos principais fatores de rejeição ao governo entre os latinos.
Desde seu retorno à Casa Branca, a administração republicana intensificou operações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), ampliando detenções e deportações em diferentes regiões do país.
Segundo os dados apresentados pelo TN, quase 200 mil pessoas foram detidas em operações migratórias nos últimos quatro meses. Um levantamento do Migration Policy Institute (MPI) aponta que aproximadamente 980 mil pessoas foram deportadas durante o segundo mandato de Trump.
A repressão afeta não apenas imigrantes sem documentação regular, mas também famílias inteiras, especialmente aquelas em que convivem pessoas com diferentes situações migratórias.
Em entrevista ao TN, María Bilbao, ativista da American Friends Service Committee, organização que atua na defesa dos direitos de imigrantes, destacou que o medo das detenções passou a fazer parte da vida cotidiana de muitas comunidades.
“Desde meu trabalho na Flórida, vejo muita preocupação com o impacto das políticas migratórias. As detenções, as deportações e o medo estão afetando não apenas as pessoas sem documentos, mas também famílias inteiras com diferentes situações migratórias”, afirmou.
O clima de insegurança também modifica a rotina de milhares de pessoas, que evitam sair de casa ou limitam seus deslocamentos ao trabalho por receio de abordagens de agentes migratórios.
Segundo o Pew Research Center, 62% dos eleitores latinos consideram que o governo Trump foi longe demais nas deportações. Além disso, sete em cada dez avaliam que as políticas da administração prejudicaram a população hispânica.
Economia e custo de vida também pesam nas urnas
Embora a política migratória tenha grande impacto sobre a comunidade latina, a economia aparece como a principal preocupação eleitoral.
De acordo com o Pew Research Center, 86% dos eleitores latinos consideram a situação econômica muito importante para definir seu voto, enquanto 64% atribuem essa mesma importância à imigração.
O aumento dos preços dos alimentos, da moradia, dos combustíveis e da energia pressiona o orçamento das famílias trabalhadoras.
A ativista María Bilbao ressaltou que a dificuldade de chegar ao fim do mês é uma preocupação concreta entre os latinos.
“A economia vai ter um peso enorme nestas eleições. O custo de vida, os alimentos, a moradia e a dificuldade que muitas famílias enfrentam para chegar ao fim do mês são preocupações muito concretas dentro da comunidade latina”, afirmou.
O impacto econômico também foi agravado pela guerra no Irã, iniciada em fevereiro de 2026, que provocou aumento dos preços internacionais dos combustíveis.
Segundo a Associação Automobilística Americana, o preço médio do galão de gasolina chegou a US$ 4,27, diante dos US$ 2,98 registrados antes do conflito.
A inflação anual norte-americana alcançou 3,7% em setembro, de acordo com os dados oficiais citados pela reportagem.
O encarecimento dos combustíveis repercute nos custos de transporte, produção agrícola, indústria e distribuição de alimentos, afetando diretamente o poder de compra das famílias.
O peso político de 36 milhões de eleitores latinos
A influência do eleitorado latino vai além de seu crescimento demográfico.
Os latinos representam aproximadamente um quinto da força de trabalho dos Estados Unidos e possuem presença expressiva em estados como Califórnia, Texas, Flórida, Nevada, Arizona e Novo México.
Em disputas eleitorais apertadas, sua participação pode determinar quais partidos conquistarão cadeiras no Congresso.
Nesta terça-feira, os norte-americanos elegem os 435 integrantes da Câmara dos Representantes e disputam 35 cadeiras do Senado, atualmente sob controle republicano.
As pesquisas apontam vantagem democrata na disputa pela Câmara, enquanto os republicanos concentram esforços para preservar sua maioria no Senado.
Caso a oposição conquiste o controle de uma ou das duas Casas, Trump poderá enfrentar obstáculos para aprovar novas medidas de sua agenda política, econômica e migratória.
Entretanto, a comunidade latina não constitui um bloco eleitoral homogêneo. Diferenças de origem nacional, geração, classe social e posicionamento político influenciam as escolhas individuais. “Trump perdeu apoio, mas a comunidade latina não é homogênea e nem todos votam pelas mesmas razões”, destacou Bilbao.
Das ruas às urnas: a luta migrante diante do governo Trump
A eleição acontece em um contexto de mobilização social contra as políticas migratórias e o endurecimento das medidas de segurança interna.
Organizações de defesa dos direitos humanos, coletivos de imigrantes e movimentos comunitários denunciam os efeitos das deportações sobre famílias trabalhadoras e reivindicam o respeito às garantias fundamentais das pessoas migrantes.
Ao mesmo tempo, a insatisfação com o custo de vida amplia o desgaste do presidente entre setores que haviam apoiado sua candidatura em 2024.
O desafio para os democratas será transformar essa rejeição em participação efetiva nas urnas, especialmente entre os eleitores que demonstram maior interesse político, mas ainda não decidiram se comparecerão à votação.
Para os movimentos migrantes, a disputa também ultrapassa a composição partidária do Congresso: envolve o futuro das políticas de deportação, a proteção das comunidades e as condições de vida de milhões de trabalhadores e suas famílias.
Fontes: TN, reportagem de Marcelo Izquierdo (1º de novembro de 2026); Pew Research Center; Migration Policy Institute; The New York Times; American Friends Service Committee.
Fonte: Mídia Ninja.
