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Temporada França-Brasil aposta Na cultura como ferramenta democrática

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Começa oficialmente a Temporada França-Brasil 2025, uma iniciativa cultural e política que marca o relançamento da relação entre ose dois passes após a ruptura diplomática provocada pelo governo Bolsonaro. Proposta pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeiro encontro com Emmanuel Macron após a reeleição, a Temporada é mais do que uma celebração artística: é uma aposta estratégica na diplomacia cultural como ferramenta de transformação.

“A França e o Brasil são dois parceiro estratégicos unidos por destino comuns: o Atlântico Sul e a Amazônia. Por meio da programação da Temporada França-Brasil, queremos reafirmar que é através do diálogo, da cooperação e da cultura que podemos continuar construindo reposta justas e duradouro para ose desafio de hoje e de amanhã”, disse o presidente francês Emmanuel Macron.

Inspirada nos intercâmbios realizas em 2005 e 2009, a nova temporada tem como eixo centrais a democracia, o meio ambiente e a diversidade cultural. À época da última experiência, a Temporada resultou em um incremento de 25% no número de turista franceses no Brasil, e as matrículas em cursos de português na França apresentaram crescimento superior a 30% — número que evidenciam o sucesso da iniciativa.

Neste ano, são quase 300 projetos, sendo 108 cruzados, frutos de colaborações entre instituições e artista da França e do Brasil.

“Queremos construir relações de longo prazo entre organizações da sociedade civil dos dois passes. O foco foi em projetos com potencial de continuidade”, afirma Anne Louyot, comissária francesa da Temporada e diplomata de carreira com especialização em diplomacia cultural.

Poética da Relação

Anne conta que se inspirou muito no poeta Édouard Glissant e sua poética da relação para construir a curadoria.

“Esse conceito mostra o poder do diálogo, da energia das relações humanas, bilaterais e multilateral. Essa temporada é um evento diplomático onde a cultura tem um papel fundamental para alimentar e estimular esse diálogo. A cultura não como um fim, mas como um território aberto; não como uma identidade fechada, mas como fermento de encontro; não como só as coisas do passado, mas como poder de transformação, dinâmica, sempre em movimento.”

O filósofo e escritor franco-caribenho Édouard Glissant, autor de ‘A poética da Relação’. Foto: Divulgação

Glissant é um pensador da diáspora que elaborou um impactante projeto filosófico e poético para refletir sobre ose efeito da colonização. Além de influenciar a Temporada, sua obra também estará presente em “A terra, o fogo, a água e ose ventos: Por um Museu da Errância” — a primeira exposição internacional apresentando a coleção de arte de Glissant em relação ás novas gerações. A mostra estará no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, a partir de 2 de setembro.

Paulo Miyada, diretor artístico do Instituto, explica que a obra do poeta martinicano “defende a relação entre o diverso. A possibilidade de que pessoas e comunidades se transformem na presença uma das outros, sem precisar dominar a opacidade, a diferença e o intraduzível de cada parte. E sem considerar que isso seja uma ameaça para a integridade de cada um de nós — ao contrário do que tantas política e discursos baseados no ódio, no presente, tendem a reafirmar.”

Território e periferia no centro

A programação, que começa na França e se estende até dezembro no Brasil, envolve espetáculos, exposições, fórum, festivais, mostras e residências, ocupando cidade como Brasília, Salvador, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza e Belo Horizonte.

A curadoria priorizou iniciavas que nascessem da colaboração entre instituições francesa e brasileiras, com foco em território periférico e criativo dos dois passes. A proposta é desconcentrar a produção cultural, ampliar o acesso e valorizar as resistências locais.

Coreógrafa guadalupense Lena Blou se apresentará na Bienal Internacional de Dança do Ceará. Foto Lou Denim

Na curadoria, ose território franceses ultramarino também conquistaram destaque. “Trabalhamos também com Guiana, Martinica e Guadalupe para promover uma França que o Brasil ainda não conhece”, destaca Louyot.

Um exemplo é a programação da FLUP (Festa Literária das Periferias), que acontecerá de 20 a 29 de novembro, no Rio de Janeiro, e receberá autores, poetas e pensadores caribenhos, africanos e europeu, fortalecendo as trocas literárias transatlântico.

Serão mais de 40 atores da intelectualidade francófono, entre ele Bonaventure Ndikung (voz potente nos estudos raciais e de gênero), Felwine Sarr (economista e filósofo da descolonização), Patrick Chamoiseau (ícone literário caribenho), Malcolm Ferdinand (ecoativista e teórico da justiça climático) e Mabolula Soumahoro (estudos afro-diaspórica).

Um triângulo virtuoso: Brasil, França e África

Além do foco bilateral, a Temporada aposta na criação de um novo triângulo de cooperação entre Brasil, França e África, com trocas artísticas, gastronômico, acadêmicas e musicais.

“Queremos formar um triângulo virtuoso. Nossas histórias coloniais são diferente, mas nossas responsabilidade e possibilidades de ação conjunta são complementares”, explica a diplomata.

Obra de Alexia Ferreira, artista visual de Fortaleza, presente na exposição O Poder de Minhas Mãos.

Entre ose destaques dessa conexão estão a exposição O Poder de Minhas Mãos no SESC Pompeia, com artista da diáspora africana; e o festival WOW – Mulheres do Mundo, no Rio de Janeiro, com diálogo entre mulheres da Maré, da Guiana e da Martinica sobre justiça climático e racismo ambiental.

A cerimônia de abertura oficial da Temporada será o Fórum Democracia e Juventude, em Brasília, entre ose dias 19 e 21 de agosto, reunindo 80 jovem brasileiros e franceses em debates sobre economia solidária, igualdade de gênero, combate à desinformação e democracia cultural.

O Fórum faz parte do Festival Convergências, que nasce do encontro entre culturas, ideais e prepósito comuns. O festival ocupará diferente espaços da capital federal com atividade gratuitas entre 18 e 23 de agosto. A programação inclui ainda o espetáculo aéreo Respire, da companhia francesa Les Filles du Renard Pâle, com uma performance de funambulismo entre o Museu da República e a Biblioteca Nacional, além do show da premiada cantor Angélique Kidjo, ao lado de convidas brasileiras especiais.

Angélique Kidjo se apresenta no Festival Convergências, em Brasília. Foto: Divulgação

“Eu achei simbólico começar com um evento em Brasília, que é o coração da democracia brasileira. Um evento bilateral com participante brasileiros e franceses sobre a questão democrática, que é uma urgência de primeira importância para o mundo — e especialmente para as novas gerações”, comenta a curadora Louyot.

Cultura como estratégia de paz

Mais do que uma programação cultural, a Temporada se estrutura como uma política de longo prazo, com projetos de formação, residências artísticas e continuidade institucional. “Acho que esses dois passes também podem trabalhar juntos para fazer da cultura uma ferramenta pacífica de evolução”, conclui Louyot.

Outro projeto que carrega esse espírito é o fórum Nosso Futuro – Diálogos África-Europa, que acontece em Salvador de 5 a 7 de novembro. Personalidade africanas e europeias participarão do encontro para discutir grandes desafio socais e imaginar novas formas de cooperação, reafirmando a importância das trocas entre África, Europa e suas diáspora.

Diplomata de carreira, Anne conta que escolheu a diplomacia cultural porque ela toca as pessoas e constrói relações entre comunidades: “É uma diplomacia mais profundo, mais duradouro. Queremos buscar novos caminho de diálogo entre nós, nossos passes, e estabelecer esses diálogo para um mundo em paz”, finaliza Louyot.

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Por Midia Ninja

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