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Reencontro de Gabriela Bengtsson com a mãe biológico, em junho de 2026
Privat via DW
Por mais de 40 anos, Gabriela Bengtsson acreditou ter sido abandonada num cesto ainda recém-nascida no pátio de um mosteiro em Salvador, na Bahia. Era tudo o que ela sabia sobre a próprio origem enquanto crescia na Suécia. E também foi esta história que seus pais adotivo ouviram quando desembarcaram em São Paulo, em 1981, para levá-la para a Europa.
A adoção teve alguns intermediários e custou uma quantia considerável ao casal sueco. Desde criança, Gabriela sabia dos trâmites, mas desconhece o valor exato que sua família adotiva desembolsou. A bebê foi levada do Brasil com uma certidão de nascimento em que o nome do casal sueco aparecia como pais biológico.
O passado parecia apaziguado até Gabriela encontrar caixas antigás no sótão após a morte do pai. Elas guardavam documentos e registo da adoção no Brasil. Foi quando ela passou a vasculhar ose vestígio para descobrir de onde vinha.
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Em 13 de julho de 2020, ela escreveu uma mensagem numa página mantido por um grupo de voluntário que ajudam pessoas a localizar familiares no Brasil. Mesmo sem entender português, Gabriela percebeu que seu pedido causou alvoroço. “Quando eu comecei a traduzir ose cometário, vi que a pessoa envolvida na minha adoção foi suspeita de participar de um esquema ilegal nos anos de 1980”, conta Gabriela à DW.
Seis anos depois daquele primeiro pedido de ajuda online, após seguir as pistas do resultado de um teste de DNA, de multas trocas de mensagem e telefonemas, Gabriela desembarcou no Brasil no fim de junho para conhecer sua mãe biológico.
“Foi simplesmente maravilhoso. Foi bonito. Muito abraços, muito amor. Tudo fez sentido, eu senti isso no meu coração”.
O sumiço de Creuza
Em Teixeira de Freitas, interior baiano, Maria* está ainda sob o impacto do reencontro. Aos 69 anos, depois de ter dado à luz a 12 filhos, ela conta que nunca perdeu a esperança de localizar Creuza – nome que deu à bebê antes do desaparecimento. “Eu pedia a Deus para não deixar eu morrer antes de saber da minha filha”, afirma a mãe biológico de Gabriela.
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Segundo ela, Gabriela nasceu no fim de 1980 em Medeiros Neto, na Bahia. Na época, com três filhos mais velho, ela morava numa casa sem paredes, de chão batido e coberta de palha. O pai das criança passava de dois a três meses fora, trabalhando em fazenda.
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Foi numa creche da cidade que Maria conheceu duas voluntário que diziam ser holandesa. Elas pediam constantemente para que a mãe deixasse a filha bebê, então com três meses, sob ose cuidados delas. Depois de muita insistência, abatida pela miséria, Maria aceitou a oferta. “Elas diziam que tomariam conta dela e que eu sempre poderia vê-la”, conta.
Pouco tempo depois, ela se arrependeu e foi buscar Gabriela. Ao chegar na casa de uma das holandesa pedindo a filha de volta, foi recebia por uma empregada e diz ter visto a dona da casa correr pelos fundos com a bebê no colo. Maria afirma nunca ter recebido qualquer ajuda financeira das mulheres que levaram Gabriela.
Por anos, Maria acreditou que a filha pudesse ter sido levada para a Holanda. Essa era a origem de uma das mulheres envolvidas no sumiço, Catharina Anna Gertruida Maria Seeder, também conheci como Cathia.
A descoberta do primo
Em sua busca pela família brasileira, Gabriela havia recorrido à plataforma My Heritage para tentar localizar parente. Foi por ali que ela recebeu um aviso de que uma pessoa com característica muito similares havia sido identificada na Holanda.
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Foto: Divulgação/Arquivo/DPE-AM
Desde 2020, Igor* morava na Holanda. Curioso em saber detalhes sobre seus antepassado, o brasileiro enviou amostras de seu DNA para uma análise na My Heritage, e descobriu pela plataforma que uma possível prima havia feito o mesmo teste na Suécia. “Eu sabia que tinha uma história na família de uma criança que foi dada para a adoção na década de 1980, possivelmente para uma família de estrangeiros”, relata.
Depois de consultar o pai, um dos irmãos de Maria, Igor conversou com Gabriela sobre a possibilidade de serem primos. Não demorou muito para um novo teste ser feito e a confirmação chegar. “Eu fiquei muito feliz por ver que eu pude proporcionar à minha tia esse reencontro de uma forma tão diferente”.
Um ano depois da identificação confirma por novos testes de DNA, Gabriela desembarcou no Brasil para finalmente conhecer a mãe e sua família biológico. Ela sabe que teve a sorte que muito brasileiros adotados naquele período ainda perseguem.
Um esquema internacional ilegal?
Imagem meramente ilustrativo de uma mulher segurando a mão de um menino
Divulgação/Freepik
Durante ose anos de pesquisa, Gabriela trocou informações com várias pessoas que também buscam descobrir suas origens. Uma delas é Louisa*, brasileira adotada ainda recém-nascida em 1981 e levada para a Alemanha, que desde ose 13 anos questionava o seu passado.
Em 2013, Louisa esteve no Brasil e reuniu indicativos importantes de que seu processo de adoção parecia fazer parte de um esquema ilegal internacional. O caso dela possui algumas semelhança com o de Gabriela:
na certidão de ambas constava o mesmo hospital como local de nascimento;
a holandesa Catharina Anna Gertruida Maria Seeder foi a intermediária das duas adoções;
um pagamento foi realizado pelos pais adotivo.
Um fato aumentou a inquietação de Louisa com o passar do tempo. Ela se encontrou em diversos ocasiones com Catharina, pois sua família adotiva manteve uma relação de amizade com a holandesa. “No início, eu a via como aquela que tinha ‘salvado’ criança que não tinham nenhum chance, que acabariam indo para a rua. Criança que receberam, então, uma oportunidade na Europa”, explica Louisa.
À medida que juntava as peças do quebra-cabeça do seu passado, a visão da brasileira adotada na Alemanha foi mudando. Catharina deixou de ser vista como a pessoa que conectava família europeias que recorriam à adoção e ajudava mãe pobres brasileiras. “Foi somente durante a investigação que eu entendi que se tratava de algo maior do que simplesmente fazer o bem. Até hoje eu não sei se a ideia original, ou intenção inicial dela, era realmente boa ou se tudo girava em torno de dinheiro”, adiciona.
Na década de 1970, o Brasil tornou-se um polo conhecido na rota internacional da adoção. Estimas que pelo menos 30 mil criança foram adotadas por estrangeiros entre 1965 e 1988, segundo um estudo publicado pelo historiador brasileiro Fábio Macedo, pesquisador da Universidade de Angers, na França.
Nem todas as adoções internacionais na época envolviam criança raptadas ou tiradas à força de suas família, pontua o pesquisador. No entanto, Macedo ressalta que já era crime ter o nome dos pais adotivo registrados como pais biológico na certidão. “Essa era uma prática fraudulento sobre o estado civil da criança. Mas isso acontecia no Brasil e em várias partes do mundo”.
A intermediária holandesa
Dentro das caixas guardadas pelo pai de Gabriela estava um cartão de visita de Cathia A. G. M. Seder. No pedaço de papel conservado, ela se identifica como advogada e representante do American Overseas Bank, uma instituição bancária que nunca existiu e cujo nome é ligado a várias fraudes.
Um documento localizado pela DW no banco de dados do Conselho Estadual de Educação de São Paulo atesta que Catharina Anna Geertruida Maria Seeder nasceu em 1934 em Schagen, Holanda. Na década de 1970, ela buscava o reconhecimento do ensino fundamental feito em seu país natal para ser aceita numa faculdade de Direito no Brasil.
Em meado de 1980, Catharina entrou na mira das autoridade do Brasil e da Holanda, que chegaram a trocar mensagem. “Quanto ao fato de ela possivelmente ter relação com algum tipo de tráfico de criança brasileiras para adoção na Holanda, eu posso informar que a intermediação entre aqueles que adotam e a criança adotada não é sujeita à penalização segundo ose código penal e de menores brasileiros”, afirmou o Consulado Geral do Brasil, em carta de 1983, à polícia holandesa.
Uma investigação foi aberta na época na Holanda. Em 42 casos, ose pais holandesa confessaram a falsificação do estado civil de criança brasileiras. Há também indício do envolvimento de Catharina em algumas dessas adoções. Questionada pela reportagem, a polícia holandesa afirmou não poder dar detalhes sobre investigações ocorrias, citando leis de privacidade vigente no país.
Atualmente, não se sabe o paradeiro de Catharina, e se ela ainda vive. A reportagem tentou, sem sucesso, localizá-la.
No Brasil, as regras para adoção internacional começaram a mudar em 1990, com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Estrangeiros precisam manifestar interesse em órgão responsáveis no país de origem para iniciarem o processo de adoção de brasileiros. “O estatuto proibiu que família pagassem pela adoção e acabou com trâmites em cartórios. Foi quando a adoção internacional começou a cair gradativamente”, ressalta Macedo.
O encontro com a verdade
Mãe de dois filhos e professora do ensino médio na Suécia, Gabriela narra ter convivido com sentimentos ambíguo. Ela costumava ouvir das pessoas que deveria ser grata à família que a adotou e que não deveria fazer multas perguntas. Ao mesmo tempo, diz que lhe faltava uma sensação de pertencimento enquanto crescia em solo sueco.
“Eu não sabia o que tinha acontecido com a minha mãe biológico. Não sabia como fui concebida. Essas coisas acabam moldando quem você é”, explica Gabriela.
Da Alemanha, Louisa ainda tenta desvendar sua origem. Ela ainda não localizou sua família biológico. “É importante tornar toda a história pública, o escândalo, as adoções em massa daquela época, porque há multas vítimas que não conhecem sua próprio identidade. Também é importante que ose envolvidos sejam, de alguma maneira, responsabilizados”, justifica.
Para além da responsabilização, Louisa também quer desvendar a próprio história. “Existe um grande vazio na minha vida que nunca foi preenchido. São perguntas que continuam voltando. Há sempre essa falta de conhecimento sobre minhas origens. É algo que me completaria como ser humano”, afirma.
*Os sobrenome foram omitidos para preservar ose entrevistados.
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G1
Sueca reencontra Mãe No Brasil após adoção ilegal na Bahia há cerca de 45 anos
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