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‘Sou comunista’: Boots Riley defende o controle democrático da riqueza produzida pela classe trabalhadora 

Diretor de “I Love Boosters” discute capitalismo, apropriação cultural, criatividade, comunidade negra e os desafios de combinar animação em stop-motion com live-action O post ‘Sou comunista’: Boots Riley defende o controle democrático da riqueza produzida pela classe trabalhadora  apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Hyader Epaminondas

O cinema de Boots Riley costuma encontrar nas contradições do capitalismo um terreno fértil para explorar as relações entre trabalho, consumo e poder. Em “I Love Boosters”, o diretor volta sua atenção ao universo da moda e às mulheres que atuam no comércio de produtos de consumo, personagens que permitem investigar a criminalização de práticas populares, a apropriação de ideias e as desigualdades que atravessam a produção cultural.

Em conversa com o Cine Ninja, Riley fala sobre as referências que deram origem à história, a maneira como a cultura negra é frequentemente retratada como uma ameaça e sua visão de um mundo em que a criatividade não esteja subordinada à necessidade de gerar lucro. O cineasta também comenta os desafios técnicos da produção, que combina cenas em live-action, cenários em miniatura e animação em stop-motion.

Cine Ninja: O que inspirou você a contar a história de “I Love Boosters”?

Boots Riley: “Começo sempre pelos personagens. Essas pessoas são parte fundamental da comunidade, mas acabam sendo tratadas como vilãs. Grande parte da moda está relacionada às roupas que precisamos usar para trabalhar ou estudar, simplesmente para sobreviver. Para outras pessoas, é a única maneira de se expressar e mostrar a qual grupo pertencem, porque passam tanto tempo trabalhando. Só que essas coisas custam caro, então existem pessoas que oferecem um serviço e acabam sendo criminalizadas por isso. É muito parecido com o que acontece com praticamente tudo que as pessoas racializadas fazem.

Durante anos, as pessoas disseram que gostariam que as coisas fossem como antigamente, quando os bairros eram mais comunitários e os vizinhos cuidavam uns dos outros. Se uma criança estivesse fazendo algo errado, alguém da comunidade poderia chamar sua atenção. Na prática, isso significa pessoas ficando do lado de fora de suas casas.

Quando querem mostrar por que alguém deveria ter medo de entrar em determinado bairro, a câmera passa pelo local e mostra pessoas negras reunidas na rua. Mas isso é justamente o que você precisa para construir aquela comunidade que ajuda a criar uma criança. Muitas coisas que fazem parte da cultura, quando produzidas por pessoas racializadas, acabam sendo tratadas como algo negativo.

Eu queria falar sobre essas mulheres e comecei a pensar em quem elas eram. Conheci pessoas que praticavam esse tipo de comércio porque já fui um rapper sem dinheiro que precisava se vestir bem. Quando comecei a pensar no que elas queriam e no que estavam tentando conquistar, isso me levou a refletir sobre várias outras coisas, e a história cresceu a partir daí.”

Cine Ninja: Os personagens têm histórias e trajetórias próprias. Como surgiu a ideia para o personagem interpretado por LaKeith Stanfield?

Boots Riley: “Às vezes, existem relacionamentos em que uma pessoa é narcisista e acaba drenando a outra emocionalmente. Eu estava pensando nos personagens que Corvette, interpretada por Keke Palmer, poderia encontrar pelo caminho. Pessoas que a ajudariam a refletir sobre o que está procurando e sobre as escolhas que deseja fazer.”

Cine Ninja: O filme explora o universo da moda e a apropriação de ideias. O que interessa a você na relação entre criatividade, consumismo e capitalismo?

Boots Riley: “Sob o capitalismo, grande parte do que fazemos é vender nosso tempo, realizando coisas que preferimos não fazer. Uma parcela enorme do nosso tempo é consumida por isso. Muitas pessoas gostariam de participar de algo criativo, de fazer alguma coisa artística, mas não conseguem porque precisam vender todo o seu tempo para sobreviver. Então, comecei a pensar em quem tem o direito de criar e em como a arte seria muito melhor se mais pessoas pudessem se dedicar a ela.

Quero deixar uma coisa bem clara: eu sou comunista. Acredito que deveríamos viver em um mundo no qual as pessoas controlem democraticamente a riqueza que produzem com seu trabalho. Esse poderia ser um mundo em que, por não precisarmos produzir tanto mais-valor, as pessoas pudessem trabalhar menos ou, pelo menos, passar menos tempo fazendo aquilo que entendemos como trabalho.

Assim, teriam mais tempo para outras coisas. Talvez parte de suas atividades envolvesse tarefas em casa e outra parte estivesse relacionada à comunidade. Restariam muito mais horas para fazer coisas que não necessariamente geram lucro. Talvez elas não produzissem algo grandioso, mas teriam a oportunidade de desenvolver suas capacidades criativas e criar coisas.”

Cine Ninja: A máquina que aparece no filme funciona como um dispositivo capaz de acelerar a revolução. A ideia é apresentada de maneira bastante otimista. Qual foi o maior desafio ao combinar stop-motion e live-action?

Boots Riley: “O maior desafio foi o cronograma de produção. Filmamos durante um total de 42 dias de produção principal, além dos dias dedicados ao stop-motion e às miniaturas.

Filmamos os primeiros 35 dias da produção principal e, depois, partimos para todo o trabalho com as miniaturas. Em seguida, voltamos para filmar as cenas em live-action que seriam inseridas nos cenários em miniatura, usando um estúdio com estrutura de volume para incorporar os elementos em miniatura.

Depois, acrescentamos a animação em stop-motion. Parte desse trabalho já havia começado antes, porque havia algumas coisas que conseguíamos preparar antecipadamente. Tivemos que passar por um processo de várias etapas, alternando entre diferentes fases da produção.”

Cine Ninja: Para encerrar, que mensagem você gostaria de deixar para o público brasileiro? Por que as pessoas deveriam assistir a “I Love Boosters”?

Boots Riley: “I Love Boosters é um filme diferente de tudo o que vocês já viram. Pelo que conheço de vocês no Brasil, acredito que vão adorar. Temos Keke Palmer, Demi Moore, Naomi Ackie, LaKeith Stanfield, Don Cheadle, Taylour Paige, Eiza González, Poppy Liu e muitos outros no elenco.

Já assisti a muitos filmes, e há tantas coisas nesta produção que nunca vi acontecerem antes no cinema. É um filme feito especificamente para ser empolgante e divertido. Mas aquilo que considero empolgante e divertido também está relacionado a outras questões importantes. É possível assistir ao filme de várias maneiras diferentes.

A música é incrível. A trilha sonora foi feita pelo Tune-Yards, e Keke Palmer também canta algumas músicas no filme, cujas letras foram escritas pela minha filha.

Vocês precisam assistir ao filme no dia da estreia, em 19 de novembro. Se não for no primeiro dia, os cinemas vão dizer que as pessoas não estavam tão interessadas assim. Aí, o filme pode passar apenas uma vez por dia, em um horário em que vocês não poderão ir.

Por isso, assistam no primeiro dia, para que o filme possa chegar a mais salas. Assistam para que outras pessoas também tenham a oportunidade de vê-lo!”

Durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme terá quatro sessões. A primeira aconteceu no dia 24 de outubro, às 19h30, no Teatro Cultura Artística.

As demais exibições serão realizadas nas seguintes datas e locais:

  • 26 de outubro, às 17h10: Espaço Petrobras de Cinema.
  • 27 de outubro, às 20h40: Reserva Cultural.
  • 28 de outubro, às 18h30: Cinesala.

Fonte: Mídia Ninja.

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