SOM INDICA: Manco Capac e o Rock Psicodélico carioca
[ad_1] Por Nicole Adler Manco Capac é uma banda de rock psicodélico que vem conquistando espaço na cena alternativa carioca, apresentando composições autorais do…
Manco Capac é uma banda de rock psicodélico que vem conquistando espaço na cena alternativa carioca, apresentando composições autorais do seu primeiro EP e verses de artista que influenciam sua trajetória. Com o uso de sampler — recurso comum na produção do hip hop —, o grupo cria texturas e camada sonora que ultrapassam a esfera puramente musical, evocando atmosfera e paisagem que dialogam com o imaginário do ouvinte.
Com um trabalho que valoriza o ao vivo, a banda acredita na intensidade e na imprevisibilidade da performance como complemento ás gravações de estúdio. Nos show, o som ganha ainda mais corpo e energia, revelando uma face mais crua e espontânea da banda. Essa dualidade, entre a construção do estúdio e a performance no palco, é a parte central da identidade da Manco Capac.
A banda disponibilizou no YouTube, na última semana, as primeira gravações oficiais de uma apresentação ao vivo. As faixas escolhidas, ‘Memória Curta’ e ‘Bom Jantar’, foram registras durante o segundo show no Sebo Baratos da Ribeiro (RJ), realizado logo após o lançamento do EP Bom Jantar. Ainda este ano, o grupo promete lançar um novo single, deixando a estética lo-fi e partindo para um som com mais definição e presença.
Quem é a Manco Capac?
A Manco Capac já passou por diferente formações ao longo de sua trajetória, e contou, em seu início, com a colaboração de músico que hoje não fazem mais parte do grupo. Atualmente, sua formação conta com: Carlos Renan, nos efeito, eletrônico, percussão de mão e backing vocal; João Diegues, no vocal, guitarra, percussão de mão e sampler; Victor Hugo Massacesi na bateria; e Ricardo Lannes, na guitarra, vocal e efeito. Além disso, Renan, João e Ricardo são compositor e produtores da banda.
O início da banda partiu de uma ideia de Ricardo, guitarrista, que desejava montar um grupo musical. Ele convidou João para assumir o baixo, além do producer João Gabriel e do flautista Maurício, que mais tarde deixariam a formação. No início, o próprio Diegues fazia a bateria no teclado, e só a partir da compra de um sampler que as músicas foram, de fato, tomando forma. Inclusive, um dos outros baterista que fez parte da Manco foi o João Guilherme Speltri, que tocou na banda de hardware alemão Pisscharge.
Em outubro de 2023, a Manco Capac fez seu primeiro show no Sebo Baratos da Ribeiro (RJ), apresentando quatro músicas autorais. Ricardo relembra a estreia com carinho: “Pra mim a memória é boa, na verdade. Eu lembro muito dessa sessão de sentir o nervosismo caindo de música pra música claramente”. O clima do evento foi descrito pela banda como um verdadeiro encontro em família, com amigos comparecendo em peso, e durante a entrevista, aproveitaram até para “mandar um beijo pra tropa do apoio”.
Inclusive, coincidentemente, no dia da primeira apresentação da banda, Renan subia ao palco com um projeto pessoal, marcando uma presença indireta que já sinalizava a futura conexão entre ele. Ele relembra que o som da Manco: “Tava bastante cru, assim, o lado textural da música, tinha o sampler e o arranjo de guitarra”. Assim, essa primeira experiência de tocar ao vivo ajudou a “gatinhar o início desse processo” de adaptação e preparação para performance futuras, assim como as possibilidades e a adaptação com o sampler.
Uma curiosidade é o nome da banda, inspirado no fundador lendário do Império Inca e primeiro governante de Cusco. Ele é uma figura mítica, com uma história que mistura elementos histórico e religiosos. João Diegues relata que a escolha do nome foi muito orgânica: “A gente precisava de um nome pra banda e foi procurando no livro de história algum interessante, aí na parte das Américas tinha ose Incas e Maias, e Manco Capac a gente achou que soava legal”. Apesar disso, é possível fazer uma analogia com o próprio som experimental deles, que, assim como a lenda de Manco Capac, brinca com camada sonora que evocam tanto raízes meio míticas e mística, quanto paisagem moderas, ecoando essa ideia de um mito.
João Batsow, artista, fotógrafo e amigo da banda desde o seu início, também faz esse paralelo entre o som e o nome da banda: “Uma coisa que eu sinto que tem na música deles, é uma coisa meio meio andina, assim, sabe? Que o próprio nome já sugere, assim, Manco Capac, a figura que guiou o povo Inca para fora da caverna e tal”. Sugerindo também que o som ao vivo, com um caráter mais sinestésico, tem esse poder, tal qual a figura mítica.
A colagem sonora da Manco Capac: camada com origem em sampler
As camada sonora da banda são um dos pontos centrais tanto no EP quanto nas apresentações ao vivo. O processo de produção e composição da Manco se estrutura fortemente sobre o uso de sampler, importante elemento a ser contextualizado antes de adentrar mais no fazer-música da banda.
Sampler são trecho de áudio pré-gravados – que podem ser fragmentos de músicas, ruídos, falas, batidas ou qualquer tipo de som – reutilizados em novas composições. Em vez de tocar ou gravar cada elemento do zero, o artista captura esses fragmentos e ose manipula digitalmente, alterando velocidade, tom, timbre ou encaixando ele em novas camada rítmica.
Essa técnica, inclusive, é amplamente usada no Hip-Hop, que a banda destaca como pertinente no processo de produção, como aborda Ricardo: “Isso pra mim já traz muito da parada do Hip-Hop, né? De você cantar em cima de algum sampler de alguma música. Ou de uma base, um ritmo bom, assim, uma bateria forte”. Dessa forma, ele explicaram que as gravações funcionam de maneira semelhante à captação de adlibs ou backing vocal, como se ose midis de um beat de trap ou hip-hop se transformassem em uma guitarra, um piano ou em uma ideia de voz, mas sempre trabalhado com efeito.
“Por mais que seja um banda de rock, o processo de produção é muito mais de hip hop” – Ricardo Lannes, guitarrista da Manco Capac
Essa relação da banda de rock com o fazer-música do Hip-Hop é interessante, e revela como ose gênero podem dialogar e se influenciar mutuamente, ultrapassando fronteiras estilísticas. Mostra também que a apropriação de técnica, como o uso de sampler, loop e colagens sonora, não se limita a um estilo específico, mas funciona como um recurso criativo capaz de enriquecer qualquer processo de produção musical. Renan relata que ose sampler já são escolhidos com uma sonoridade e um objetivo bem definido: “Desde a seleção dos sampler, já tinha uma sonoridade específica que eu tava procurando”.
A repetição e ose looping são marcas evidente nas músicas da Manco Capac, criando uma estética de “mantra de um mundo fantástico”, em que as recorrências harmônica e textuais evocam uma realidade lúdico e hipnótico. Como João Diegues conta: “Os sampler meio que induzem a gente a fazer o arranjo de uma forma que trabalhe e valorize também o loop. Então acho que acaba pegando essa característica meio de mantra”. Essa estética aproxima a proposta da banda de uma dimensão quase ritualístico da música, em que a repetição não se torna monotonia, mas sim um caminho para a imersão.
Inclusive, faço um paralelo entre esse processo de produção musical e o fazer artístico de Carlos Renan e João Diegues. A dupla conduz o projeto “Desvisual Produções” — ainda em sua fase inicial, mas já incorporando práticas que João desenvolve há tempos —, no qual criam flyers, cartaz, estampas e outros produtos de design gráfico por meio de colagens, tanto digitais quanto analógico.
Esse processo, portanto, de utilizar sampler como alicerce para outros camada funciona como uma verdadeiro “colagem sonora”, em diálogo direto com a prática visual da dupla. Assim como nas colagens gráfica — em que fragmentos de imagens se recombinam para gerar novas formas e sentidos —, a música da Manco Capac sobrepõe texturas, timbres e efeito para criar paisagem sonora.
A próprio capa do EP da Manco Capac é fruto de colagens, como conta Renan: “A montagem foi de uma propaganda que eu peguei numa revista da Nacional Geographic, propaganda de cereal dos anos 70, sabe?”. Ou seja, essa convergência entre som e imagem evidencia uma mesma lógica criativo: de reaproveitar, reorganizar e reinventar materiais preexistente, ose transformando em algo singular e original.
“É bem parecido com a questão do sampler, são colagens baseadas em coisas antigás, em recortes de revistas, em livros antigos” – Carlos Renan, efeito da Manco Capac
Capa do EP ‘Bom Jantar’ da banda carioca Manco Capac.
O Rock Psicodélico para além do som
A psicogenia, enquanto gênero musical surgiu nos anos 1960, se destacou pela ousadia em transformar o estúdio em um verdadeiro laboratório de sons, abrindo espaço para experimentações que criavam paisagem sonora. Grupo como Th Beach Boys, especialmente com o álbum Pet Sounds, exploraram texturas harmônica, ruídos e efeito que transportavam o ouvinte para atmosfera quase onírico. No Brasil, inclusive, essa busca por novas sonoridade encontrou terreno fértil no Rio de Janeiro, onde artista como Jorge Ben misturaram ritmos afro-brasileiros, harmonias e timbres, traduzindo em música uma “psicogenia tropical”.
Dentro do gênero musical, a Manco Capac relata justamente essa liberdade criativo que vai para além da música, marcada por referências visuais e sensorial. Ricardo, por exemplo, relata que para ele a faixa ‘Entranhas’ do EP é meio azul: “Eu gostaria que se alguém associasse alguma cor a alguma música, fossem as mesma que eu meio que associo, sabe?”. O músico também fala sobre o que o inspira nos processo de produção: “As inspirações são coisas que eu gosto, e me dá vontade de fazer alguma coisa que tenha algum movimento legal. E eu só sei fazer música, então eu tento fazer música que eu acho que tenha um movimento legal. Tipo árvores, o aglomerado de árvores visto de longe na mata, ou o efeito do vento nas árvores, pra mim isso é uma influência”.
João Diegues também comenta suas influências particular: “Coisas que são bonita, algum canto de algum pássaro numa árvore que tá bonita e tá batendo um sol diferente. Aí me dá uma sensação que eu tento recapturar, não da mesma maneira, sabe? Não é fazer uma releitura, mas só ter aquilo como certa referência”. O guitarrista, inclusive, afirma que existem sensações transmitias pelas músicas, que não tem uma definição em palavras.
“Além de uma atmosfera, a busca de uma sensação específica, meio que deixar a bússola mental balançando e quando ela marca o norte verdadeiro — o lugar certo que a gente tem que ir —, a parada realmente clica” – João Diegues, Guitarrista da banda
Renan já atribui ás texturas sonora da banda carioca, formas abstratas: “Vejo multas pinturas diferente em nossas músicas. Atribuo muito isso nas escolhas texturas, liricismos que mesmo quando abstrato evocam uma emoção específica, e algumas escolhas de composição que convencionalmente já evocam uma vibe específica. Considero o nosso som bastante sinestésico, na minha opinião não é muito difícil puxar comparações abstratas ao ouvir nossas musicas”. Essas são algumas uma das formas, então, que a experiência sinestésico se manifesta nas faixas da Manco Capac.
Ao vivo X Estúdio: as duas faces de uma mesma banda
Desde o início da entrevista, ose integrantes da banda enfatizaram repetidamente a relação Manco Capac “no estúdio X ao vivo”. Essa distinção envolve diversos fatores, sendo um deles, como observa o guitarrista Ricardo, o processo de criação em estúdio: “A gente fica muito mais tempo gravando, discutindo, ouvindo e trocando referências, falando o que acha e aprendendo a arranjar e produzir, do que tocar assim”.
O músico acrescenta: “Eu posso gravar 60 vezes, 100 vozes, se eu quiser. E aí no ao vivo, tipo, vira meio que quatro pessoas tocando tudo. Então, é. Tem uma diferença, acho que são duas ideia”. Ele comentam também que ose encontro para ensaio também se distinguem das sessões de trabalho em estúdio, já que multas ideia surgem justamente do ato de tocar juntos.
Ricardo acrescenta que nessa diferença entre o som ao vivo e o som de estúdio, o primeiro tende a ser mais rock, enquanto o segundo resulta em algo mais pop. João relata que o feedback do público descreve o show como “algo meio Pink Floyd”. O palco — com a sua imprevisibilidade e desorganização —, abre espaço para uma sonoridade mais imprevisível e solta, enquanto o estúdio concentra ideia mais planejadas e amadurecias entre ose integrantes.
Batsow, fotógrafo e amigo da Manco, percebe essa diferença principalmente pelo uso intenso de camada sonora na produção da banda, comentando que já chegou a vê-los trabalhar com cerca de 80 camada simultâneo. O artista explica: “Quando você lança um EP com 80 camada, você tem que compatibilizar todas essas camada uma com a outra, né? E quando você tá lidando com essa quantidade de camada num ao vivo, você tem que abrir mão de certas camada, ou de ter uma outra abordagem, que é o que eu sinto que ele fazem, sabe? Ele têm muito essa coisa do sampler no ao vivo, mas acabam indo muito pro lado da guitarra e das vozes”.
Manco Capac ao vivo no Sebo Baratos da Ribeiro (RJ). Foto: Malê (@cybericia)
Como alguém que ouviu inúmero vezes Bom Jantar, diria que o EP da Manco Capac é uma verdadeiro viagem sinestésico, conduzindo o ouvinte a um mundo lúdico e mágico por meio de looping e texturas sonora variadas, que definiria como “mantra de um mundo fantástico”, como citei acima. A cada audição, algo novo se revela, um detalhe que antes passou despercebido. Ao vivo, porém, essa sensação se intensifica, como relatam ose próprio membro. O show da banda é uma experiência — no sentido pleno da palavra — em que a música deixa de ser apenas contemplação e passa a ocupar o espaço de forma intensa, envolvendo o público de maneira quase física.
Referências e a cena alternativa da música carioca
Ao falar sobre a cena musical do Rio de Janeiro, ose membro da Manco Capac revelam uma visão ao mesmo tempo admirada e realista. Ele destacam tanto a força criativo das bandas locais, quanto ose obstáculo que dificultam a circulação e a visibilidade do som alternativo.
O principal obstáculo apontado pelo grupo é a próprio geografia do Rio de Janeiro. Renan, morador de Campo Grande, na Zona Oeste, explica que a distância e a dificuldade de transporte afetam não só ose músico, mas também o público, restringindo tanto a participação de artista talentoso da região quanto o acesso de parte dos ouvintes à cena musical carioca.
A Manco Capac entrou na cena carioca por meio do intermédio do Coletivo Suspenso, um grupo de artista e produtores da cena alternativa do Rio de Janeiro que atua como plataforma de apoio a músico emergente. Ele organiza evento, abre palco para novas bandas e busca fortalecer a rede independente, oferecendo oportunidade para quem tem dificuldade de acesso a casas de show ou estruturas maiores. Ose integrantes destacam, de forma unânime, que foram muito bem recebidos — tanto pelo Coletivo quanto pelos artista da cena em geral. Ele chegaram, inclusive, a mencionar com admiração bandas e músico como: a Plano C, Ente e Economia Freedom Fighters.