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‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’: O mundo nem suspeitava, mas precisava desse encontro

Por Viviane Pistache Um título que poderia ser uma epígrafe. “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, novo longa-metragem de André Novais Oliveira, é um filme de escala e trama estratosféricas. Nos créditos finais, a informação de que mais de 900 pessoas foram empregadas, direta ou indiretamente, sugere a dimensão desta obra. O filme, que teve sua estreia mundial no Festival de Berlim deste ano, finalmente começa sua carreira em festivais brasileiros. A…

Por Viviane Pistache

Um título que poderia ser uma epígrafe. “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, novo longa-metragem de André Novais Oliveira, é um filme de escala e trama estratosféricas. Nos créditos finais, a informação de que mais de 900 pessoas foram empregadas, direta ou indiretamente, sugere a dimensão desta obra. O filme, que teve sua estreia mundial no Festival de Berlim deste ano, finalmente começa sua carreira em festivais brasileiros. A chegada em Brasília foi arrebatadora, ganhando os Candangos de Melhor Longa-Metragem pelo júri oficial, além dos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Figurino e de Menção Honrosa para Norberto Novais e Conceição Evaristo.

O longa teve sua estreia belorizontina na 20ª edição da Mostra de Cinema de Belo Horizonte, a CineBH, sob a regência de Raquel Hallak, que construiu uma tela de cinema no palco nobre do Cine Theatro Brasil Vallourec para uma plateia de 1.200 pessoas. A abertura do festival teve ainda a homenagem a Conceição Evaristo, grande escritora mineira, nascida na antiga Favela do Pindura Saia, numa saudosa Belo Horizonte. O encontro de Conceição e André, a princípio, soa improvável, mas se revela profundamente orgânico. André tem idade para ser filho de Conceição, mas é certamente um herdeiro de axé na escrita, como roteirista. Por sua vez, Conceição aceita o desafio de encarar novas vias de fabulação da existência negra e mineira.

“Se Eu Fosse Vivo… Vivia” foi pensado para a primeira grande musa do André, sua mãe, Dona Zezé, a Malute, já eternizada no cinema e no Orum. Dona Zezé e Conceição Evaristo têm a mesma doçura de timbre, a mesma cadência de ritmo mineiro que acolhe e nos faz lembrar que a vida pode ser dura, mas tem refúgios de descanso. Para quem conhece a filmografia do André, este longa revisita a vida cotidiana de um casal aposentado, bem à la “Ela Volta na Quinta”, primeiro longa de André. Nestes dois trabalhos, um casal de idosos tem tempo para a fruição da canção. No curta “Quintal”, reaproveita a toada do casal aposentado que tem tempo para uma laranja descascada com maestria e a intimidade ordinária para adentrar portais do realismo fantástico. Ou ainda, “O Dia que te Conheci”, em que a intimidade de um casal se apoia nas questões de saúde e autocuidado com o artifício da comédia para encarar temas delicados.

“Se Eu Fosse Vivo… Vivia” também revisita os anos 70, rememorando a juventude negra e mineira das serenatas e bailes blacks, com a textura de 16 mm, cuja apoteose é um baile com duzentos figurantes que reluz a resistência negra dançante ao som de Hyldon. O jovem casal Jacira (Tainá Evaristo) e Gilberto (Jean Paulo Campos) está na iminência da perenidade, onde é gostoso até o caroço do angu que se dissolve com carinho.

Do prólogo em película, o filme apresenta o fantástico, a ufologia e o ordinário na vida de um casal de velhinhos, numa casa onde se aninha a teimosia do amor e a leveza da graça, apesar da morte à espreita. O filme convida ao riso, mas vai dando uma rasteira aos poucos, como a cadência de um casal idoso que atravessa um quadro inteiro enquanto caminha num cemitério. Por vezes, a vida é fraca e engraçada, como um café que precisa de ajuda para sair da garrafa.

Das muitas belezas deste filme, certamente é a atuação de Seu Norberto Novais, que assume o protagonismo pela primeira vez na filmografia do André, cuja obra se fundamenta na mãe, passa pela Grace Passô, eventualmente por seu irmão Renato Novais e aporta agora na maturidade de atuação de seu pai, que está gigante na tela. É impressionante o monólogo final, a modulação de estado de espírito que Seu Norberto imprime numa cena tão arrebatadora, que, por questões de produção e caracterização, foi gravada primeiro. Como é a estreia de Conceição Evaristo no cinema, percebe-se também a generosidade de Seu Norberto com sua companheira de cena, numa valsa de corações que pulsam sincronizados, até quando dói.

Pelo menos em cena, André Novais postula o amor afrocentrado, num Brasil em que homens negros, geniais e gigantes, mas incapazes de amar mulheres negras, deixam seus legados a serem gestados por mulheres brancas oportunistas ou medíocres, salvo raras exceções. Neste longa, André Novais ainda faz um casamento interessante entre ufologia e negritude, evocando universos criados por Murilo Rubião, Steven Spielberg e Steve McQueen, com trilha de Juçara Marçal e Kiko Dinucci, para traduzir o quanto a presença negra pode soar alienígena em alguns universos, como um ninho de amor perene numa periferia sem caricaturas. Vida longa à Filmes de Plástico!

Foto: Janine MoraesFoto: Leonor Teles

Viviane Pistache é pesquisadora, curadora, roteirista e, de vez em quando, crítica de cinema.

Fonte: Mídia Ninja.

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