Pular para o conteúdo
DóLAR R$ 5,01 ▼ 1,06% EURO R$ 5,62 ▼ 0,86% BITCOIN — TERçA-FEIRA, 20/10/2026 15:58
Notícias

Quem tem tanto medo de professores e movimentos sociais?

No Brasil, a perseguição aos professores e a criminalização dos movimentos sociais revelam como o autoritarismo avança sob o pretexto de proteger a sociedade O post Quem tem tanto medo de professores e movimentos sociais? apareceu primeiro em Mídia NINJA.

O fascismo não precisa de uniformes para conquistar espaço. Hoje, pode disputar eleições, ocupar as redes sociais e apresentar-se como defensor da família, da liberdade e da ordem. O que deveria nos preocupar não é apenas a ascensão de lideranças autoritárias, mas a facilidade com que determinadas formas de perseguição passaram a ser toleradas. Em pleno período eleitoral, o Brasil parece novamente disposto a discutir quem merece ter voz, quem pode ensinar e quem tem o direito de se organizar.

A escola tornou-se um dos principais alvos dessa disputa. Uma pesquisa divulgada em 2025 pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es, da Universidade Federal Fluminense, ouviu 3.012 profissionais. Em todas as regiões do país, pelo menos 90% dos participantes relataram ter sofrido, presenciado ou tomado conhecimento de episódios de censura. Entre aqueles que sofreram censura diretamente, 58% relataram tentativas de intimidação.

Os números ajudam a compreender uma realidade que muitos educadores conhecem de perto. Ensinar determinados conteúdos passou a exigir cautela. Discussões sobre racismo, desigualdade, gênero e ditadura militar podem desencadear acusações de doutrinação, exposição nas redes sociais e constrangimentos institucionais. O professor precisa antecipar não apenas as perguntas dos alunos, mas também as possíveis represálias pelo que ensina.

Há algo profundamente contraditório em uma sociedade que exige educação de qualidade enquanto transforma seus educadores em suspeitos. Paulo Freire defendia uma formação capaz de desenvolver autonomia e pensamento crítico. Mas como ensinar alguém a questionar quando o próprio ato de questionar passa a ser interpretado como ameaça?

A ofensiva contra os movimentos sociais segue caminho semelhante. A CPI do MST, instalada em 2023, tornou-se palco de disputas políticas em torno da reforma agrária e terminou sem a aprovação de um relatório final. Em 2024, a Câmara aprovou o PL 709/2023, que prevê restrições a pessoas envolvidas em determinadas ocupações ilegais de propriedades.

A proteção da propriedade é um direito constitucional. Também são direitos constitucionais a moradia, a manifestação e a organização coletiva. O que está em discussão é a tentativa de responder a conflitos históricos, como a concentração fundiária e a desigualdade social, prioritariamente pela punição, deixando suas causas em segundo plano.

O mesmo discurso alcança movimentos por moradia, sindicatos e organizações estudantis. Reivindicações passam a ser apresentadas como desordem, enquanto a organização popular é associada à criminalidade. É preciso distinguir a responsabilização por condutas ilegais da tentativa de deslegitimar movimentos inteiros.

Afinal, quantos direitos que hoje consideramos fundamentais teriam sido conquistados sem greves, manifestações e mobilização coletiva?

A perseguição aos professores e a criminalização dos movimentos sociais compartilham um objetivo político: enfraquecer a capacidade das pessoas de compreender sua realidade, questionar relações de poder e agir coletivamente para transformá-las.

Há também consequências psicológicas. O medo não precisa assumir a forma de violência física para produzir obediência. Ele aparece quando um professor evita determinado assunto para não ser denunciado, quando um trabalhador deixa de participar de uma manifestação ou quando alguém prefere permanecer em silêncio diante de uma injustiça. Aos poucos, a autocensura ocupa o lugar da repressão explícita.

Robert Paxton, ao estudar o fascismo, mostrou a importância de observar suas práticas concretas. A fabricação de inimigos internos, a deslegitimação dos adversários e a aceitação da violência política são sinais que não deveriam ser ignorados. Reconhecê-los não significa chamar toda posição conservadora de fascista, mas compreender quando a divergência deixa de ser parte da democracia e passa a justificar perseguições.

Às vésperas do segundo turno presidencial, a questão ultrapassa a escolha de um candidato. Que sociedade estamos construindo quando professores precisam temer o conteúdo de suas aulas e trabalhadores são tratados como ameaças por reivindicarem direitos?

A democracia não se resume ao voto. Ela depende da liberdade de ensinar, de discordar, de protestar e de participar das decisões que afetam nossas vidas.

O autoritarismo não precisa fechar escolas nem proibir manifestações para avançar. Basta que ensinar se torne um risco e lutar por direitos, motivo de suspeita.


Rima Awada Zahra é libanesa-brasileira, psicóloga, escritora e coordenadora da pós-graduação em Psicologia e Migração da PUC Minas. É também coordenadora do PSIMIGRA e da SOUT – Vozes em Movimento, iniciativas voltadas à atuação em saúde mental, migração e direitos humanos.

Fonte: Mídia Ninja.

Compartilhe esta matéria:
Portal Inhaí

Portal Inhaí

Confira as notícias e colunas publicadas por Portal Inhaí no Portal Inhaí.