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Quem controla o algoritmo controla o debate Eleitoral?

Entre denúncias de queda de alcance, propaganda irregular e interesses políticos das big techs, cresce uma pergunta: quem fiscaliza os algoritmos que influenciam o debate eleitoral? O post Quem controla o algoritmo controla o debate eleitoral? apareceu primeiro em Mídia NINJA.

O Brasil sabe quantos votos cada candidato recebeu. Mas sabe o que os algoritmos mostraram aos eleitores antes da votação? Na reta final do primeiro turno, quando a lei manda a propaganda paga sair de cena, 568 anúncios eleitorais irregulares foram identificados em circulação nas plataformas da Meta. O levantamento também identificou outros seis que simulavam comunicados do Tribunal Superior Eleitoral e ofereciam ao eleitor uma opção que não existe: votar de casa, pelo celular. Alguns levavam a páginas que pediam o CPF. O levantamento é do Observatório das Big Techs, do NetLab/UFRJ, e saiu dois dias depois da votação.

Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos. Lula (PT), com 45,16% (TSE). Os dois voltam a se enfrentar em 25 de outubro, separados por menos de dois pontos percentuais. Numa disputa desse tamanho, qualquer vantagem de alcance pesa. E alcance, hoje, é decidido por algoritmo.

Nos últimos dias, parlamentares, influenciadores, veículos independentes e militantes de esquerda têm relatado quedas no alcance de suas publicações no Instagram e no Facebook. Há também relatos sobre menor distribuição de stories e vídeos. Sem acesso aos dados internos das plataformas, porém, não é possível determinar se essas oscilações decorrem de mudanças nos algoritmos, do comportamento dos usuários ou de outros fatores.

Algumas coisas não exigem teoria nenhuma, porque foram ditas em público. Em 7 de janeiro de 2025, Mark Zuckerberg anunciou o fim da checagem de fatos por terceiros nas plataformas da Meta nos Estados Unidos. No mesmo vídeo, disse que trabalharia com o governo Trump para resistir a governos ao redor do mundo que pressionassem empresas americanas e citou “tribunais secretos” na América Latina que, segundo ele, mandariam derrubar conteúdo.

Em julho de 2025, a Casa Branca anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e justificou a medida acusando o Brasil de coagir empresas americanas a “censurar discurso político”. A moderação de conteúdo e a regulação de plataformas passaram, assim, a ocupar lugar central na relação entre os governos Trump e Lula. A Meta, uma das maiores empresas de plataformas digitais do mundo, já havia adotado publicamente uma postura mais hostil à regulação externa e mais próxima do governo Trump.

Isso não prova que alguém, num escritório da Califórnia, tenha girado um botão para derrubar o alcance da esquerda brasileira. Mas sabemos que a empresa que decide o que milhões de eleitores veem no celular tem interesse declarado no resultado de disputas que envolvem a regulação dela.

O algoritmo não é neutro

Um sistema de recomendação aprende com o que a gente clica, com o tempo que passa parado num vídeo, com o que compartilha no grupo da família. Depois devolve mais do mesmo, um pouco mais intenso. O algoritmo tem uma preferência clara, que é o engajamento. E poucas coisas engajam tanto quanto raiva e medo, armas conhecidas da extrema direita pelo mundo.

A eleição de 2026 também reacendeu o debate sobre interferência externa. Em 23 de setembro, o PT pediu ao ministro Flávio Dino, do STF, a abertura de inquérito pela Polícia Federal para apurar possível financiamento estrangeiro da candidatura de Flávio Bolsonaro. A petição cita a Rockbridge Network, organização americana que tem entre seus cofundadores o vice-presidente JD Vance, e publicações pagas em perfis do X favoráveis ao candidato. A existência de financiamento ilegal, porém, não foi comprovada.

Num pedido separado, a Advocacia-Geral da União acionou a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República depois que o jornal britânico The Guardian revelou a destinação de US$ 1 milhão pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos a um projeto chamado “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”, voltado a apoiar grupos que contestam a atuação do STF. Em 7 de outubro, a Polícia Federal arquivou a apuração preliminar iniciada após a representação da AGU, por não encontrar indícios mínimos suficientes para instaurar inquérito policial.

Na mesma época, a organização britânica Ekō submeteu à Meta 15 anúncios políticos falsos, criados com inteligência artificial, pagos a partir de uma conta nos Estados Unidos e direcionados a eleitores brasileiros. Um deles usava uma imagem fabricada de Trump declarando apoio a Flávio Bolsonaro na Casa Branca. O sistema automático de moderação da Meta aprovou 13 dos 15. Nenhum foi exibido ao público porque os pesquisadores cancelaram a veiculação.

O Instituto Democracia em Xeque, por sua vez, identificou 255 perfis no Instagram que, entre 15 de agosto e 15 de setembro, publicaram ou coassinaram 1.204 posts feitos com IA. O conjunto somou cerca de 58 milhões de visualizações e 5 milhões de curtidas e comentários. A rede impulsionava pautas da extrema direita, ataques ao Supremo Tribunal Federal e violência política de gênero. Só 155 posts — 12,9% — traziam alguma identificação de uso de inteligência artificial.

Os números de alcance também mostram uma assimetria. Segundo levantamento do Poder360, deputados do PL somam 210 milhões de seguidores, contra 72 milhões dos deputados do PT e de partidos aliados. Desde o primeiro turno, Flávio ganhou 1,2 milhão de seguidores, e Lula, 392 mil. Em média, as publicações de Flávio tiveram 448 mil interações cada, contra 102 mil nas de Lula. Os números representam a soma de seguidores nos diferentes perfis e plataformas, e não usuários únicos.

Parte dessa diferença pode vir de uma estratégia digital mais eficiente. Os dados disponíveis, porém, não permitem saber quanto dela é engajamento orgânico, recomendação do algoritmo, compra de alcance ou outras práticas irregulares.

Soberania quando o território é um feed

A Constituição de 1988 abre o artigo 1º listando a soberania como o primeiro fundamento da República. Foi escrita num tempo em que o espaço público era a praça, o rádio e a televisão operando sob concessão pública. Hoje a praça é privada, tem sede em outro país e muda de regra a cada atualização do aplicativo.

Para uma parte enorme dos brasileiros, isso não é abstração. Nos planos pré-pagos em que WhatsApp e redes sociais não descontam da franquia, a internet acaba sendo, na prática, a Meta. É ali que boa parte da população se informa, conversa, compra e, em ano eleitoral, decide o voto. A desigualdade de acesso vira desigualdade de informação, e quem tem menos alternativas fica mais exposto ao que o algoritmo escolhe mostrar.

O mundo já viu onde isso pode chegar. O escândalo da Cambridge Analytica, revelado em 2018, mostrou os riscos do uso de dados pessoais para direcionar propaganda política. Naquele mesmo ano, o Brasil aprovou a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), um marco na proteção da privacidade. Mas proteger dados pessoais não resolve, por si só, a falta de transparência dos sistemas que organizam e distribuem o conteúdo político nas plataformas.

O Marco Civil da Internet, de 2014, não foi concebido para regular a escala, a opacidade e o poder dos atuais sistemas de recomendação. Já o PL 2630, que buscava estabelecer regras mais específicas de transparência e responsabilidade para as plataformas, foi aprovado pelo Senado em 2020, mas não concluiu sua tramitação na Câmara dos Deputados.

O TSE adotou medidas importantes. Exigiu planos de conformidade de plataformas com mais de 5 milhões de usuários ativos mensais no Brasil, criou regras para conteúdo gerado por IA e mantém estruturas de monitoramento e enfrentamento à desinformação eleitoral. Mas fiscaliza, em boa medida, com os dados que as próprias empresas resolvem entregar.

O que está ao nosso alcance

Há caminhos testados. Na União Europeia, a Lei de Serviços Digitais obriga as plataformas muito grandes a avaliar e reduzir riscos aos processos eleitorais, a abrir dados para pesquisadores e a se submeter a auditoria independente. O Regulamento Europeu de Transparência da Publicidade Política (UE) 2024/900 exige que cada anúncio político seja claramente identificado e informe quem pagou, quanto pagou e a quem foi direcionado.

Não é censura. É prestação de contas.

Para o Brasil, a lista não é longa. Uma biblioteca de anúncios que funcione e seja confiável. Acesso de pesquisadores aos dados garantido por lei, e não por boa vontade corporativa. Auditoria independente dos sistemas de recomendação durante o período eleitoral. Identificação clara e verificável de conteúdos gerados por IA. E investimento em capacidade técnica pública, para que o Estado não dependa da palavra de quem deveria ser fiscalizado.

Não é um dilema só nosso. Boa parte do Sul Global vive a mesma contradição: países que estão entre os maiores mercados dessas plataformas e que pouco ou nada influenciam as regras que as governam. Volume de usuários nunca se converteu em poder de negociação. Talvez seja hora de converter.

Em poucos dias, voltamos às urnas. A urna eletrônica é auditável. O feed que influencia a formação desse voto não é. Enquanto isso não mudar, soberania, em 2026, passa também por saber quem decidiu o que você viu antes de votar.

Fontes:

NetLab/UFRJ — Observatório das Big Techs: boletins do primeiro turno de 2026

Tribunal Superior Eleitoral — Resultado do primeiro turno presidencial

Agência Brasil / CartaCapital — Big techs descumprem regras eleitorais no dia da votação, diz estudo da UFRJ

Meta — More Speech and Fewer Mistakes (7 de janeiro de 2025)

Partido dos Trabalhadores — Pedido de investigação ao STF, 23 de setembro de 2026

Poder360 — PT pede a Dino apuração sobre interferência estrangeira nas eleições

UOL — Lula aciona TSE e STF por suposto apoio estrangeiro à campanha de Flávio

The Guardian — Trump administration diverts human rights funds to push far-right agenda abroad

Folha de S.Paulo — PF arquiva pedido do governo para investigar suspeita de interferência estrangeira nas eleições

Ekō — Meta approves AI ads depicting execution-style threats against lawmakers

Instituto Democracia em Xeque — Produção em escala: fazendas de conteúdo com IA no Instagram nas eleições de 2026

Constituição Federal de 1988 — Artigo 1º

Marco Civil da Internet — Lei nº 12.965/2014

Câmara dos Deputados — Tramitação do PL 2630/2020

Casa Branca — Medidas comerciais contra o Brasil, julho de 2025

União Europeia — Lei de Serviços Digitais (Digital Services Act)

Fonte: Mídia Ninja.

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