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Quanto custa continuar existindo no futebol Brasileiro?

Série D terminou, Série C decide acessos e clubes buscam transformar calendário em sobrevivência O post Quanto custa continuar existindo no futebol brasileiro? apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Manoel Costa

Quando o Uberlândia levantou a taça da Série D, em 13 de setembro, quase 40 mil pessoas estavam no Parque do Sabiá. O clube mineiro empatou por 1 a 1 com o ASA e confirmou o título diante de 36,5 mil torcedores. A festa poderia ser apenas a imagem de encerramento do campeonato, mas também revela uma questão menos visível do futebol brasileiro: existe público, dinheiro e identidade longe dos grandes centros. O problema é transformar isso em continuidade.

A Série D de 2026 foi a maior da história. A competição passou de 64 para 96 clubes, chegou a 610 partidas e distribuiu R$ 65,5 milhões em cotas de participação. O novo formato também criou os play-offs de acesso, ampliando as possibilidades de permanência no calendário nacional. Para a CBF, a reformulação faz parte de uma tentativa de dar mais previsibilidade à base da pirâmide do futebol brasileiro.

Mas uma temporada maior não significa que todos os clubes tenham encontrado um modelo sustentável.

Quando a torcida aparece

Créditos: Léia Ventura

Os números de público da Série D ajudam a quebrar uma imagem comum sobre as divisões inferiores: a de que o futebol fora da Série A acontece diante de arquibancadas vazias.

O ABC terminou a competição com a maior média de público, levando 122.483 torcedores aos estádios em dez partidas como mandante, média de 12.248 por jogo. O Uberlândia ficou em segundo, com 9.941 torcedores por partida. Gama, América-RN e CSA também passaram de 6 mil de média.

O resultado apareceu também nas bilheterias. O Uberlândia arrecadou R$ 3,39 milhões nos jogos como mandante, enquanto o ABC chegou a R$ 2,66 milhões. Em um único jogo da final, o clube mineiro teve público de 36.536 pessoas e renda bruta de R$ 1,54 milhão.

São números relevantes para clubes que estão na quarta divisão nacional. Mas eles também mostram que torcida não é sinônimo automático de sustentabilidade.

O ABC, por exemplo, teve uma das maiores receitas de bilheteria da competição, mas continua disputando uma divisão em que a diferença de estrutura para os clubes das categorias superiores é enorme. O público pode ajudar a financiar uma temporada. Não necessariamente garante a seguinte.

O problema começa quando o jogo acaba

É aí que a discussão sobre clubes menores muda de escala. Para um clube da Série A, o calendário ocupa praticamente todo o ano. Há Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, competições continentais e, em muitos casos, estaduais. Para quem está na base da pirâmide, cada competição nacional pode representar uma janela de atividade profissional.

Mas, quando a janela se fecha, o clube precisa encontrar outra maneira de continuar existindo. A própria CBF reconheceu esse desequilíbrio ao reformular o calendário. Dos 882 clubes registrados pela entidade, apenas 124 disputavam, no momento da apresentação da mudança, uma das quatro divisões do Campeonato Brasileiro. Isso significa que somente 14% dos clubes tinham calendário nacional.

A diferença é importante porque o futebol profissional não funciona apenas durante os 90 minutos. Existe folha salarial, comissão técnica, categorias de base, manutenção de estádio, departamento médico, viagens e uma série de despesas que continuam existindo quando não há partida. Para alguns clubes, portanto, a pergunta depois da eliminação não é apenas esportiva: é quando será o próximo jogo.

Subir muda tudo — mas não resolve tudo

Créditos: Apollo Fotografia & Films

É justamente por isso que o acesso pode representar muito mais do que um troféu. O ASA passou nove anos na Série D antes de conseguir chegar à Série C. O presidente do clube, Rogério Siqueira, classificou o período como uma longa espera pelo acesso e destacou que o novo formato da competição ajudou a dar mais sustentabilidade aos participantes.

O Uberlândia também volta à Série C em 2027, depois de 23 anos longe da competição. ABC e Gama completaram a lista dos semifinalistas que garantiram o acesso, enquanto Nacional-AM e Goiatuba conquistaram as outras vagas nos play-offs.

A mudança de divisão pode ampliar a exposição, as receitas, o calendário e a capacidade de atrair patrocinadores. Mas também aumenta os custos. Mais viagens, mais jogos, uma estrutura maior e uma folha salarial compatível com adversários mais fortes fazem com que o acesso seja apenas o começo de outro desafio.

É uma espécie de paradoxo da pirâmide: subir é necessário para crescer, mas crescer custa dinheiro antes mesmo de produzir novas receitas. Por isso, o sucesso de um clube não pode ser medido apenas pela divisão em que ele está.

O clube e a cidade

Existe ainda uma variável que não aparece completamente nos balanços: a relação com a cidade. Em muitos lugares, o clube profissional é uma das poucas instituições capazes de mobilizar milhares de pessoas em torno de uma identidade comum. O estádio movimenta o transporte, a alimentação e o comércio nos dias de jogo. Empresas locais encontram uma vitrine. A camisa se torna espaço de publicidade. A campanha esportiva vira assunto cotidiano.

Quando o Uberlândia levou mais de 36 mil pessoas ao Parque do Sabiá na decisão da Série D, não estava apenas vendendo ingressos. Estava mobilizando uma cidade em torno de uma partida de futebol.

O mesmo aparece, em escalas diferentes, no ABC, no Gama, no América-RN, no CSA e em tantos outros clubes que conseguiram levar milhares de pessoas aos estádios ao longo da competição. O problema é que essa força local precisa ser convertida em recursos capazes de atravessar o intervalo entre uma temporada e outra.

O próximo degrau já está sendo decidido

Créditos: Paulo Matheus / FPF

Enquanto a Série D terminou há poucas semanas, a Série C chega à sua rodada decisiva no próximo sábado, 10 de outubro.

Botafogo-PB, Maringá, Floresta, Santa Cruz, Brusque, Ferroviária, Inter de Limeira e Paysandu disputam quatro vagas na Série B de 2027. Os dois primeiros colocados de cada grupo garantem o acesso. Para esses oito clubes, a rodada pode representar uma mudança significativa de patamar. Para os demais, começa novamente a preocupação com o que virá depois.

É esse movimento que ajuda a entender a economia dos clubes longe dos holofotes. A questão não é simplesmente quanto dinheiro um clube recebe, quantos torcedores leva ao estádio ou quantos patrocinadores consegue colocar na camisa. É a capacidade de reunir essas peças e construir um ciclo que não termine quando o campeonato acaba.

A Série D mostrou que existe público. A Série C mostra que existe um caminho possível de ascensão. Entre uma coisa e outra está o problema que atravessa boa parte do futebol brasileiro: como transformar paixão local em estrutura profissional permanente?

Porque, para quem está longe dos grandes contratos de televisão, dos maiores patrocinadores e das maiores receitas, o desafio mais difícil talvez não seja chegar à próxima divisão, mas conseguir permanecer nela. Seja na Série D, C ou B, o verdadeiro desafio é conseguir estar lá novamente no ano seguinte.

Fonte: Mídia Ninja.

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