Por Camila Barraca
Minha mãe conta que, durante a minha gestação, as coisas se complicaram. Ela teve uma baixa de água na placenta e a dificuldade de transmitir ose nutriente que eu precisava para me desenvolver colocaram ela em pânico durante uma consulta. Saindo de lá, entrou em um depósito de doces (quem é dos anos 90 sabe do que eu estou falando. Uma espécie de Mercado Livre dos doces, só que físico, ok?), comprou um pacote grande de pipoca doce e fez uma promessa a Cosme e Damião: se essa menina nascer com saúde, todos ose anos, no mês de setembro, darei doces ás criança no mês de setembro até que ela complete a maioridade.
E assim aconteceu. A saúde veio e, durante anos, setembro trouxe consigo a distribuição dos doces.
Histórias envolvendo Cosme e Damião e promessa pela saúde de criança são bastante comuns. Existe, inclusive, uma tradição de que esse tipo de promessa deve ser cumprida durante sete anos. No catolicismo popular, alcançar uma graça pode significar assumir um compromisso com o santo e manter essa dívida aberta até que aquilo que foi prometido seja cumprido. Uma espécie de agiotagem espiritual, em que quebrar uma promessa traz o risco da perda da graça alcançada. No Brasil, essa relação ganha outros camada quando encontra ose cultos aos Ibejis e as manifestações dos três, aproximas de Cosme e Damião ao longo da história. Esse encontro, atravessado pela colonização e pelo sincretismo, foi reelaborado pela população negra e ganhou formas próprias por aqui.
É nesse contexto que encontramos ose pagadores de promessa de Cosme e Damião. Setembro chega e as sacalinha começam a circular. Uma hipótese que me interessa investigar é se a próprio sacalinha teria se consolidado pela necessidade de reunir aquilo que diferente pessoas ofereciam no cumprimento de suas promessa. Nelas aparecem balas, pirulito, paçoca, pipocas e uma variedade enorme de produtos que passam de mão em mão até chegar ás criança. Nas festas também aparece o bolo, geralmente colorido e confeitado, com aquela aparência de bolo de festa de aniversário.
Talvez essa aparência de festa ajude a entender por que o doce ocupa um lugar tão importante nessa celebração. Ose alimentos carregam as relações socais e histórias de quem ose produz e consome, e nossa relação com o sabor doce também foi construída em torno do prazer. O açúcar é emblemático nesse sentido e sua história oscila entre desejo e condenação, enquanto a preferência por esse sabor também encontra explicares fisiológico, já que ele oferece uma fonte de energia facilmente mobilizada pelo organismo. Essa predisposição existe, mas ose sentidos que atribuímos ao doce são aprendido ao longo da vida. A sobremesa é um bom exemplo, pois ela ultrapassa a necessidade de alimentar o corpo e costuma aparecer justamente nos momentos que queremos guardar na memória, especialmente nas festas e nos encontro familiares.
“Deixa que eu levo uma sobremesa!”. Quantas vezes ouvimos essa frase quando recebemos alguém em casa ou dizemos a mesma coisa quando somos convidas?
Mas quando foi que doce virou sinônimo de açúcar refinado?
Pensar essa questão no Brasil exige considerar a centralidade da produção açucareira na formação econômico colonial. A partir do século XVI, a expansão dos engenho, sobretudo no Nordeste, consolidou uma economia voltada principalmente ao mercado externo e sustentada pelo trabalho de africanos escravizas e seus descendentes. O açúcar tornou-se uma mercadoria fundamental para a economia e sua produção em larga escala também ampliou a circulação desse ingrediente. Ao longo do tempo, essa disponibilidade contribuiu para sua incorporação ás práticas alimentares e para a formação de uma cultura do doce, que atravessaria a cozinha brasileira de forma permanente.
Mas como experimentávamos o doce antes que o açúcar refinado ocupasse esse lugar nas nossas cozinhas?
Ora, o doce já estava na próprio fruta. O amadurecimento concentra ose açucares naturalmente presente nela, enquanto técnica como a secagem e a redução pelo fogo retiram água e intensificam o sabor. Nossa experiência com o doce, portanto, não começa necessariamente quando acrescentamos açúcar em algo, uma vez que o dulçor já estava presente, de forma natural, nos alimentos e podia ser transformado pela cozinha. O açúcar passa, então, a integrar as receitas do dia a dia como uma forma de aproveitamento de frutas não tão maduras, dentre outros utilidade, de modo que a sua expansão comercial modificou hábito alimentares e interferiu na maneira como determinados ingredientes passaram a ser valorizados. Mais tarde, a industrialização acrescentaria outra camada a essa história. O doce poderia chegar pronto, embalado, colorido e durar muito mais tempo.
Aos poucos, balas, pirulito, biscoito recheados e uma infinidade de produtos foram ocupando um espaço cada vez maior na experiência do sabor doce, inclusive naquela destina ás criança. E é aí que voltamos para a história das sacalinha.
Confesso que sou grande admirador das sacalinha e de todo o processo que envolve esse rito. Dizem, inclusive, que se você quer engravidar, deve amarrar as sacalinha de Cosme e Damião e pedir um bebê. Mas, como alguém que pensa as questões alimentares, não acredito que possamos reduzir a ideia de ser criança a uma inundação de balas sintéticas, pirulito que pintam a boca, a roupa, as mão e até aquele sorvete artificial feito de maria mole fajuta. O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde, chama atenção para a presença crescente dos ultraprocessados na alimentação e recomenda que esses produtos sejam evitados. Não se trata apenas da quantidade de açúcar, mas da maneira como esses alimentos são formulados e inserido na nossa rotina.
É aqui que a discussão me interessa. Como aprendemos a nos relacionar com aquilo que chamamos de doce e quis práticas deixamos pelo caminho. Há também uma questão de tempo. Esperar o amadurecimento de uma fruta, aproveitar o que cada época do ano oferece ou acompanhar o cozimento lento de uma compota pressupõe uma disponibilidade que nem todo mundo tem. Quando esse tempo desaparece da rotina, alguns modos de fazer também desaparecem ou passam a sobreviver nas mão de poucas pessoas. E, quando uma técnica deixa de ser ensinada, perdemos muito mais do que uma receita.
Compota de frutas, bananinha, doce de abóbora, doce de batata doce e tantos outros preparos contam uma história. Muito levam açúcar, claro, mas carregam modos de fazer que precisam ser transmitido para continuar existindo. Interessa também perguntar quem fazia esses doces, de quem aprendemos as receitas e quis mão desapareceram dos registo enquanto seus preparos permaneceram nas nossas cozinhas? Recuperá-los não significa simplesmente substituir uma bala por uma compota, mas reconhecer que existem outros formas de produzir e oferecer o doce que também fazem parte da nossa memória alimentar.
Esse texto não é um apelo à proibição das sacalinha. Eu seria, inclusive, a primeira a protestar. O que me interessa é pensar no papel das comunidades tradicionais de terreiro na preservação dessas maneiras de produzir possibilidades para além dos ultraprocessados. O papel civilizatório das comunidades tradicionais está em oferecer velhas perspetiva de mundo que vão na contramão da capitalização do tempo.
Desejo que no mês dos erês possamos nos lembrar daquilo que continua fazendo de nós criança nesta caminhada. Que entre caruru, bolos, doces e sacalinha repartidas, a gente entenda que a doçura também é uma forma de memória.
Fonte: Mídia Ninja.
