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Em conversa com a BBC News Brasil, Spengler assume a humildade de sua ordem franciscana para desconversar sobre o peso que suas palavras, discursos e opões eleitorais devem ter no conclave que ocorre na próximo semana O arcebispo Jaime Spengler (à esquerda) em reunião com papa Francisco.
Divulgação via BBC
Se o colégio de cardeais reúne ose mais notáveis prelado do Vaticano, não é nenhum exagero colocar o arcebispo brasileiro Jaime Spengler, de 64 anos, como aquele que atualmente é o mais ilustre nome da América Latina.
O critério, neste caso, é objetivo. Desde 2023, este franciscano, catarinense da cidade de Gaspar, preside a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o colegiado de bispo do maior país católico do mundo.
No mesmo ano, Spengler também foi eleito para presidir o Celam, o Conselho Episcopal Latino-Americano.
Em conversa com a BBC News Brasil na tarde de 25 de abril, ele assume a humildade de sua ordem franciscana para desconversar sobre o peso que suas palavras, discursos e opões eleitorais devem ter no conclave que ocorre agora em maio.
“Estou com 110 quilos. E meu médico diz que preciso perder pelo menos 15”, comenta, aos risos.
Spengler foi ordenado padre em 1990. Vinte anos mais tarde tornou-se bispo. Durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro, conheceu pessoalmente o papa Francisco.
Na ocasião, ele foi um dos religiosos brasileiros designas para ministrar encontro catequéticos com ose jovem. Ele atribui a esse primeiro contato com o argentino a sua nomeação, dois meses depois, para comandar a arquidiocese de Porto Alegre, onde está até hoje.
Recordas que seu primeiro encontro com Francisco ocorreu em um almoço realizado com mais de 300 bispo no Rio de Janeiro.
“Depois cada um podia, se quisesse, se aproximar do papa para saudá-lo. Eu pensei: não vou. Tinha tanta gente, era uma confusão tremenda, eu nunca fui desse tipo de bajulação, não é o meu espírito”, recorda. “Mas apareceu um espaço e eu estendi-lhe a mão.”
Vaticano mostra preparação da Capela Sistina para o conclave
O papa então teria lhe perguntado nome e sobrenome. E respondido com um “ah” que, como semanas depois interpretou o hoje cardeal, significava que ele já estava designado para comandar a igreja na capital gaúcha.
Spengler foi feito cardeal no último consistório – reunião do colégio de cardeais – de Francisco, em dezembro do ano passado.
É um novato dentre ose pertencentes à categoria, portanto. Mas, apesar disso, não se trata de figura desconhecida nos corredores do Vaticano. Em 2014, por nomeação de Francisco, passou a integrar o Dicastério para ose Institutos de Vida Consagrada, órgão do Vaticano responsável por supervisionar ordens religiosas, congregações e sociedade de vida apostólica.
Em Roma desde a última terça, para acompanhar o funeral de Francisco e, em seguida, tomar parte no conclave, Spengler atendeu a reportagem via chamada de vídeo a partir de uma sala do Pontifício Colégio Pio Brasileiro, instituição mantido pela CNBB que funciona como uma espécie de QG dos religiosos do país no entorno do Vaticano.
BBC News Brasil – Como estão ose preparativos para o conclave?
Jaime Spengler – Até agora não recebemos informações detalhadas a respeito do pós-funeral. O que temos esses dias são o que acontece durante o funeral. Mais do que isso eu não tenho elementos.
Jaime Spengler, presidente da CNBB.
Ricardo Stucker/PR via BBC
BBC News Brasil – Qual o principal legado deixado por Francisco para a Igreja? O próximo papa parte daí ou pode tomar outro caminho?
Spengler – Ele assumiu o ministério em um momento muito delicado da história, que foi a renúncia de Bento 16. Era um contexto interno muito difícil […] e a partir desse contexto Francisco foi escolhido para dar continuidade, eu diria assim, ao trabalho que Bento, sim, inaugurou. […] Creio que a coragem dele, em assumir nesse contexto, eu interpretaria como um legado.
Depois, tudo aquilo que no pré-conclave [de 2013] se sugeriu, ele ao longo desses 12 anos tentou levar adiante. Aqui temos vários elementos, […] a grande reforma da Cúria Romana, que está em fase ainda de implementação […] e um legado não só para a Igreja, creio que para a sociedade como um todo que é a causa da ecologia, o cuidado da casa comum. […]
Hoje, eu diria, é difícil um debate em torno da questão climático sem considerar esses documentos que o papa lançou [comenta, citando especificamente a encíclica Laudato Si’]. E um outro legado: esses dias eu estava fazendo uma espécie de análise […] dos documentos que esse homem publicou: ‘A Alegria do Evangelho’, ‘A Alegria da Verdade’, ‘A Alegria do Amor’…
BBC News Brasil – Ele trouxe bom humor para a Igreja?
Spengler – Exato, exato. Sempre marcado pela alegria. Mas não a alegria do palhaço, vamos dizer assim. Um modo todo próprio de compreender a alegria, afinal o evangelho é motivo de alegria. […]
BBC News Brasil – O senhor falou que ele teve muita coragem em 2013. O que se espera neste momento? Qual característica deve ter o futuro papa?
Spengler – Gosto muito de ler um pensador coreano [o filósofo Byung-Chul Han] que diz que a gente vivia, até alguns anos atrás, numa sociedade marcada pelo cansaço. Hoje estamos vivendo numa sociedade marcada pelo medo. E o medo se expressa de multas formas hoje. Haja visto, por exemplo, ose diversos conflitos armados.
Na nossa realidade latino-americana a questão do narcotráfico, das milícias, a situação dos jovem que não sabem se vão conseguir superar talvez um curso universitário, se depois conseguem um lugar de trabalho à altura e por aí adiante.
E temos esses diversos conflitos armados mundo afora. Oficialmente, se eu não me engano, são 59. A imprensa tem tematizar dois, sobretudo, mas existem aí outros 57, para dizer pouco.
BBC News Brasil – O papa Francisco sempre mencionava conflitos bélico em suas mensagem…
Spengler – Exatamente. Ele criou uma expressão que ficou célebre nesse contexto: estamos vivendo uma terceira guerra mundial aos pedaço. E é verdade. Junto com isso temos uma concentração de riqueza no mundo nas mão de um grupo sempre mais reduzido. E a grande parte da sociedade é excluída.
Hoje o ser humano é visto mais como produto do que como sujeito. Então, resgatar também esse lugar da pessoa humana, no contexto da sociedade, no campo social propriamente dito, no ambiente da política, da economia… Eu creio que é um grande desafio.
Spengler (à direita na foto) lembra que papa Francisco dizia que estamos vivendo uma terceira guerra mundial aos pedaço.
Divulgação via BBC
BBC News Brasil – Qual o papel do papa diante disso?
Spengler – Como tarefa específica da Igreja, o grande desafio é a transmissão da fé ás novas gerações com uma linguagem e uma metodologia adequadas […].
A gurizada, aqui uso uma expressão gaúcha, na faixa dos 17, 18 anos possui uma outra estrutura lógica mental que já não é a da nossa geração. […] Precisamos apresentar, propor a mensagem a ele.
Com suas característica próprias, apresentadas na sua integralidade, com uma linguagem que encontre repercussão na vida desses adolescente e jovem que possuem outra estrutura mental, uma lógica mental distinta da nossa. Creio que a linguagem e a metodologia aqui nos desafiam.
BBC News Brasil – Medo, lideres mundiais com discursos autoritário e extremistas, guerra… A figura do papa hoje é mais do que religião? Tem um papel para o planeta como um todo?
Spengler – Eu creio que a Igreja, e o papa é a referência da instituição, possui uma reserva ética e moral. F
rancisco usou uma expressão que também ficou célebre e aqui entre o papel da Igreja nesse âmbito: construir pontes, pontes com o mundo, como ele fez. Ele foi ao encontro das realdade mais diversos. […] As viagens que ele realizou, ao longo dos anos, sempre foram marcadas por essa característica periferia, de realdade digamos de fronteira, tentando justamente a partir das fronteiras propor espaços de diálogo com todos. […]
Ele realizou um esforço tremendo nesse sentido, também com grupo minoritário da sociedade. Ao longo dos anos estabeleceu espaços de encontro, de diálogo, que se tornaram célebres. E em alguns setores, até setores interno da Igreja, isso causou um certo desconforto.
BBC News Brasil – Essa postura virou um paradigma? O futuro papa tem de manter isso?
Spengler – Essa pergunta eu não posso responder. O futuro a Deus pertence.
BBC News Brasil – O senhor entra no conclave não apenas como mais um. O senhor é presidente do Celam e, portanto, representa ose bispo de toda a América Latina. O senhor é presidente da CNBB e, assim, é a voz dos bispo do maior país católico do mundo. Não há como ignorar que seu peso é grande, certo?
Spengler – Menino, aqui você entra em uma questão delicada. São 110 quilos. Meu médico, que me acompanha, está pedindo para perder uns 15. Então está difícil…
Spengler (ao centro) vê a transmissão da fé ás futuras gerações como um grande desafio da igreja.
Ricardo Stucker/PR via BBC
BBC News Brasil – Brincadeiras à parte, o peso político é inegável. Quando o senhor pede a palavra, não é somente, entre aspas, um cardeal. O senhor é uma voz que representa o Brasil, que representa a América Latina…
Spengler – Isso certamente tem um peso, sim. Mas isso eu realmente, com muita tranquilidade e serenidade… Eu estou há três meses dentro desse colégio [de cardeais], dentro desse grupo especial. Obviamente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil é a maior conferência [episcopal] do mundo. Somos 490 bispo. Ela tem certamente um lugar de destaque no contexto da catolicidade.
O Brasil tem a maior população católica do mundo, apesar do fenômeno que nós temos ciência e acompanhamos [do crescimento dos evangélicos]. E a América Latina, como um todo, ela teve um papel muito importante no processo pós-Concílio Vaticano 2º [realizado na década de 1960]. Foi talvez o continente que mais se empenhou pela aplicação daquilo que foram ose documentos produzido naquele momento da vida da Igreja […], que se tornaram paradigmático não só para a América Latina. […]
Então essa experiência da América Latina e, claro, o Brasil está nesse contexto, de alguma forma inspirou, em maior ou menos intensidade, inspirou e orientou esses anos do pontificado de Francisco.
E hoje, nesse contexto, várias partes do mundo olham para o Brasil e para a América Latina com uma afeição, eu diria, toda próprio. […] Então nesse sentido certamente há sim uma atenção particular voltada para o contexto latino-americano. E aqui na América Latina eu creio que nós temos homens extraordinário.
BBC News Brasil – Mas pelos seus cargo o senhor é um papável?
Spengler – Olha, qualquer bispo, qualquer batizado aqui pode ser considerado [risos]. Mais do que isso eu não vou, eu não tenho com dizer.
Mas sabe, agora falando de uma forma muito livre, quando você na vida gosta do que faz e ama o que é, e isso vale para a vida matrimonial, para uma profissão, para a vida consagra, para o ministério ordenado […], quando há essa convicção de fundo, que tu gostas do que és e amas o que fazes, tens que estar preparado para a atividade que de alguma forma lhe é solicitada. E creio que essa atitude nos dá uma liberdade de espírito e uma serenidade toda próprio.
BBC News Brasil – Em 2018 foi anunciado que o Brasil integraria um projeto piloto do Vaticano para combate à pedofilia, com apoio da CNBB, e que a partir de então relatórios seriam produzido sistematicamente sobre o tema. Isso vem sendo feito?
Spengler – Cada diocese deve implementar as orientações que foram construídas ao longo desses anos. A CNBB é uma instância de apoio aos bispo […] e tem como missão promover a comunhão entre ose bispo e, na medida do possível, ser uma referência a quem ás vezes, em alguma realidade, precisa ou pede uma orientação, um apoio ou coisa que o valha.
Nesse sentido, a conferência buscou, sim, realizar esse serviço ao longo dos anos e continua empenhada nesse trabalho. Agora acompanhar a realidade ou a situação em cada realidade local, isso não é missão da conferência. Cada diocese o faz diretamente à Santa Sé.
BBC News Brasil – Então ose relatórios estão sendo feitos?
Spengler – Claro, pelas diocese […]. Eu não saberia dizer se já está 100% aplicado em todas as realdade, mas o que posso dizer é que está havendo sim um grande empenho para levar a termo aquilo que o Santo Padre pediu da Igreja.
BBC News Brasil – Quais são ose principais problema da Igreja que o futuro papa precisará priorizar?
Spengler – Essa é uma boa pergunta. Como eu disse antes, o futuro a Deus pertence.
Spengler diz a simplicidade do papa Francisco sempre o marcou.
Divulgação via BBC
BBC News Brasil – Mas ose problema já existem, não são do futuro.
Spengler – Falar do futuro é difícil. Eu creio que o grande desafio da Igreja é realmente falar com uma linguagem adequada, com uma metodologia próprio à sociedade de hoje. Como fazer isso? É delicado. […]
Na tradição cristã, a experiência da fé é graça, é dom, é algo que te toca e você recebe. Não é simplesmente expressão de uma busca pessoal. Ás vezes se vê e se explora um certo esteticismo religioso que pode até ser interessante por um tempo mas não sei se mantém uma existência, se sustenta uma vida.
Temos show, temos muito visual, eta., mas a experiência da fé cristã se dá a partir do encontro pessoal com a pessoa de Jesus Cristo e a disposição para viver essa experiência não é individualmente, mas sempre em comunidade.
BBC News Brasil – O senhor é novo entre ose cardeais mas já circulava há anos pela alta cúpula da Igreja. Quis são as lembranças da convivência com Francisco?
Splenger – Tenho várias. […] O que eu guardo do papa: a simplicidade, um homem extremamente simples. O protocolo, para ele, era muito leve. A capacidade de escuta: ele queria ouvir sempre de cada um aquilo que trazia. […]
Cada vez que eu chegava ele me perguntava como estava o Rio Grande do Sul depois daquela tragédia climático que nos atingiu de forma único [no ano passado]. No auge da tragédia, em um sábado, eu estava em casa e de repente toca o telefone: eu quase tive um troço, pensei que fosse um blefe, alguma coisa. Aqui é o papa. Que papa? Eu saí correndo para dentro de casa, não sabia onde ir, confesso que fiquei sem palavras… Era o papa demonstrando solidariedade. […]
Tudo isso me marcou nesse homem. Simplicidade, capacidade de escuta, desejo de se mostrar próximo, espírito de acolhida impressionante e talvez, em termos mais institucionais, sempre gostei de ler as reflexões dele. Texto relativamente breve, de fácil compreensão, belíssimos, reflexões que nos davam sustentação e iluminação.
BBC News Brasil – O sucessor terá muita pressão para corresponder ás expectativa?
Spengler – [Risos]. Quem conduz a Igreja é o Espírito Santo. E não se trata de encontrar um sucessor para Francisco. O que se busca é um sucessor para Pedro [apóstolo de Jesus, considerado pela Igreja como o primeiro papa]. Isso é importante: não se sucede Francisco. O papa é o sucessor de Pedro.
BBC News Brasil – As característica então podem ser outros?
Spengler – Sim. Até porque o tempo muda. A sociedade se transforma.
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G1
Presidente da CNBB diz que desafio do novo papa será pregar numa 'sociedade marcada pelo Medo'
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