Em julho de 2025, Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre grande parte dos produtos brasileiros. A justificativa não era apenas comercial. O presidente norte-americano vinculou a medida ao tratamento dado pela Justiça brasileira a Jair Bolsonaro. Na mesma ocasião, Washington anunciou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Uma potência econômica tentava usar seu mercado e seu aparato de sanções para pressionar as instituições de outro país.
Lula reagiu denunciando a interferência na soberania brasileira. Não rompeu relações com os Estados Unidos, tampouco abandonou as negociações comerciais. Recusou, porém, a ideia de que o Brasil devesse aceitar pressões sobre seu sistema de Justiça como condição para negociar. A distinção importa: diplomacia não é submissão.
Em setembro de 2026, na Assembleia Geral da ONU, voltou ao assunto. Advertiu sobre interferências estrangeiras nas eleições brasileiras e afirmou que o país não pertence ao quintal de nenhuma potência. A declaração tinha destinatários reconhecíveis, mas alcançava uma questão mais antiga. A América Latina conhece bem as consequências de ter seus governos, recursos e escolhas políticas tratados como assuntos de interesse estratégico de Washington.
A coragem política de Lula aparece nesse enfrentamento, mas seria ingênuo confundi-la com ausência de cálculo. O Brasil precisa negociar com os Estados Unidos. Lula sabe disso. O que está em disputa é a possibilidade de negociar sem reconhecer ao interlocutor o direito de decidir os limites da democracia brasileira.
A tensão com Israel expôs outro aspecto de sua política externa. Em fevereiro de 2024, depois de comparar a ofensiva israelense em Gaza ao extermínio de judeus pelo nazismo, Lula foi declarado persona non grata pelo governo israelense. A comparação provocou críticas severas, inclusive pela especificidade histórica do Holocausto. O Itamaraty chamou seu embaixador para consultas e convocou o representante de Israel para prestar esclarecimentos.
O episódio teve custos diplomáticos. Também mostrou que o governo brasileiro estava disposto a confrontar um aliado estratégico das potências ocidentais diante da destruição de Gaza.
Em junho de 2025, numa entrevista ao jornal francês Le Monde, Lula voltou a classificar a ofensiva israelense como genocídio e questionou a incapacidade das Nações Unidas de proteger a população civil palestina. Defendeu o reconhecimento do Estado palestino e cobrou mudanças numa organização cujas decisões mais importantes permanecem condicionadas aos interesses dos membros permanentes do Conselho de Segurança.
Não é necessário concordar com cada declaração de Lula para reconhecer a importância dessa cobrança. O direito internacional perde autoridade quando sua aplicação depende da identidade de quem viola suas normas. Para os palestinos, a distância entre as resoluções diplomáticas e a proteção efetiva de suas vidas tem consequências devastadoras.
Há uma ligação entre esse posicionamento e a defesa brasileira de maior participação do Sul Global nas decisões internacionais. Na presidência do BRICS, em 2025, Lula insistiu na necessidade de reformar instituições financeiras, ampliar alternativas de financiamento e cobrar dos países ricos responsabilidades proporcionais à sua contribuição histórica para a crise climática.
São reivindicações que atingem interesses concretos. Países endividados enfrentam dificuldades para financiar saúde, educação e adaptação climática, enquanto decisões sobre crédito, comércio e segurança continuam concentradas em poucos centros de poder. Lula procura ampliar o espaço de negociação dessas nações. Isso não elimina as diferenças entre os próprios integrantes do BRICS, nem torna o bloco imune a disputas econômicas e autoritarismos.
A COP30, realizada em Belém, revelou tanto a ambição quanto os limites dessa atuação. Segundo o Financial Times, Lula interveio pessoalmente nas negociações para tentar superar divergências sobre combustíveis fósseis e financiamento climático. O acordo final ampliou os compromissos de financiamento para adaptação, mas não estabeleceu um roteiro obrigatório para abandonar os combustíveis fósseis.
O Brasil, por sua vez, continua dividido entre a defesa da floresta e os interesses ligados à exploração de petróleo. Essa contradição precisa ser cobrada. Não faz sentido exigir responsabilidade ambiental dos países ricos e dispensar o governo brasileiro do mesmo escrutínio.
Também não basta denunciar violações de direitos humanos quando os responsáveis são adversários políticos. A coerência de uma política externa deve ser medida pela capacidade de aplicar seus princípios inclusive nas relações com governos aliados.
Essas ressalvas não diminuem a importância dos enfrentamentos protagonizados por Lula. Impedem apenas que a análise se transforme em devoção.
Sua trajetória ajuda a explicar por que sua atuação desperta reações tão intensas. Um ex-metalúrgico, formado politicamente no movimento sindical, chegou três vezes à Presidência do Brasil e passou a ocupar espaços tradicionalmente reservados a representantes das elites econômicas. Sua biografia não o torna infalível. Mas é difícil ignorar o significado de um trabalhador brasileiro discutir, diante das grandes potências, quem deve pagar pela crise climática, quem tem direito à soberania e por que a fome continua existindo num mundo capaz de produzir tanta riqueza.
Há algo que os episódios de Washington, Gaza e Belém deixam evidente: as instituições internacionais não funcionam em condições de igualdade. Alguns países têm recursos para impor sanções, bloquear decisões ou transferir os custos de suas escolhas para populações que sequer participaram delas. Outros precisam lutar para que suas demandas sejam ouvidas.
Lula não modificou sozinho essa estrutura. E dificilmente conseguiria fazê-lo. Mas tem usado a posição do Brasil para contestá-la, inclusive quando isso provoca conflitos diplomáticos.
É por essa razão que sua presença importa para além das eleições brasileiras. O que está em jogo não é a necessidade de um líder indispensável, e sim a existência de governos dispostos a questionar quem estabelece as regras e quem suporta suas consequências.
Num cenário em que a pressão econômica se mistura à ingerência política e a proteção de civis continua subordinada a alianças estratégicas, essa disposição tem valor. Lula incomoda porque insiste em disputar decisões que os países mais poderosos se acostumaram a tomar entre si.
Referências
REUTERS. Trump eleva tarifa do Brasil para 50%, mas isenta setores importantes do aumento. 30 jul. 2025.
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2025/07/30/tarifas-dos-eua-sobre-brasil-excluem-avioes-suco-de-laranja-energia-e-outros.htm
REUTERS. Brasil não é quintal de ninguém e não permitirá interferência nas eleições, diz Lula na ONU. 22 set. 2026.
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2026/09/22/brasil-nao-permitira-que-inimigos-internos-ou-externos-interfiram-nas-eleicoes-diz-lula-na-onu.htm
REUTERS. Itamaraty chama de volta enviado em Israel e convoca embaixador israelense para dar explicações. 19 fev. 2024.
https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2024/02/19/lula-chama-de-volta-embaixador-do-brasil-em-israel-para-consultas-diz-folha-de-spaulo.htm
LE MONDE. Lula: We need global governance now more than ever. 3 jun. 2025.
https://www.lemonde.fr/en/international/article/2025/06/03/lula-we-need-global-governance-now-more-than-ever_6741954_4.html
REUTERS. Lula urges BRICS leaders to combat climate denialism. 7 jul. 2025.
https://www.reutersconnect.com/item/lula-urges-brics-leaders-to-combat-climate-denialism/dGFnOnJldXRlcnMuY29tLDIwMjU6bmV3c21sX1ZBNzkzMjA3MDcyMDI1UlAx
FINANCIAL TIMES. Brazil’s Lula weighs into COP30 talks to resolve geopolitical rifts. 20 nov. 2025.
https://www.ft.com/content/c5f10370-d3c4-431d-9e09-baaac28ac127
REUTERS. Takeaways from the COP30 climate summit in Brazil. 23 nov. 2025.
https://www.reuters.com/sustainability/cop/takeaways-cop30-climate-summit-brazil-2025-11-23/
Fonte: Mídia Ninja.
