- Conselheiro de Infantino renuncia em protesto
- Diretor acusa Infantino de enganar funcionários
- O que prevê o plano da Fifa
- Fifa nega que esteja vendendo o futebol
- Associações receberiam US$ 40 milhões
- Uefa ameaça boicotar competições
- Concacaf rejeita proposta sem apoiar boicote
- Confederação Asiática se une à oposição
- Federações nacionais ainda podem divergir
- Torcedores cobram transparência
- Trump nega participação nas conversas
- Primeiro-ministro britânico critica Infantino
- Consulta seguirá apesar da resistência
Fifa pretende criar uma subsidiária avaliada em US$ 20 bilhões e oferecer até 20% a investidores externos. Uefa, Concacaf e Confederação Asiática se posicionaram contra a proposta.
Um plano da Fifa para oferecer a investidores externos uma participação nos negócios comerciais da Copa do Mundo desencadeou uma crise interna, provocou a saída de um conselheiro de Gianni Infantino e levou confederações continentais a se posicionarem contra a proposta.
Carlos Cordeiro, conselheiro sênior do presidente da Fifa, renunciou ao cargo nesta sexta-feira (31) em protesto contra o projeto. Ele classificou a iniciativa como “um mau negócio para o futebol” e afirmou que a entidade estaria comprometendo o futuro do esporte sem apresentar uma justificativa convincente.
A Fifa pretende criar uma subsidiária avaliada em US$ 20 bilhões, chamada FIFA Forward Enterprise. A nova empresa seria responsável pela administração comercial da Copa do Mundo e de outras competições organizadas pela entidade.
Pelo projeto, uma participação de até 20% poderia ser oferecida a investidores privados. A Fifa afirma que não está vendendo o futebol e garante que não criará a subsidiária sem o apoio da maioria das suas 211 associações nacionais.
A Uefa lidera a oposição e acusa a entidade de colocar a “alma” do esporte à venda. Concacaf e Confederação Asiática de Futebol também rejeitaram o plano.
Conselheiro de Infantino renuncia em protesto
Carlos Cordeiro anunciou sua saída com efeito imediato após manifestar oposição ao projeto.
Ele havia sido nomeado por Infantino em 2021 para participar das discussões sobre o futuro da Fifa.
Ex-banqueiro e antigo vice-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos, Cordeiro afirmou que não participou da elaboração da proposta e que se opõe integralmente à entrada de investidores externos nos negócios comerciais da Copa do Mundo.
Segundo ele, o projeto prejudicaria as associações nacionais, a própria Fifa e o futuro do futebol no longo prazo.
Cordeiro também acusou a entidade de “hipotecar o futuro do futebol” sem demonstrar por que a mudança seria necessária.
A renúncia ampliou a pressão sobre Infantino em um momento no qual o presidente da Fifa enfrenta resistência interna e oposição crescente das confederações continentais.
Diretor acusa Infantino de enganar funcionários
A crise também provocou críticas públicas do diretor de operações da Fifa, Kevin Lamour.
Segundo ele, os funcionários da entidade foram enganados por Infantino sobre a condução do projeto.
Lamour classificou a proposta como um “projeto de uma pessoa” e acusou o presidente de colocar interesses pessoais acima da missão institucional da organização.
O dirigente afirmou que o papel da Fifa é servir ao futebol, e não aos interesses de alguém que acredita personificar a própria entidade.
As declarações revelam que a resistência ao projeto não está limitada às confederações e associações nacionais. Integrantes da estrutura administrativa da Fifa também questionam a transparência e o processo utilizado para formular a proposta.
O que prevê o plano da Fifa
A proposta determina a criação da FIFA Forward Enterprise, subsidiária que administraria a Copa do Mundo e outros eventos da entidade.
A nova empresa seria avaliada em aproximadamente US$ 20 bilhões.
A Fifa continuaria como acionista majoritária, mas poderia oferecer uma participação de até 20% a grupos externos.
O fundo Thrive Eternal, administrado pela Thrive Capital, era apontado como possível líder do grupo de investidores.
A Thrive Capital foi fundada pelo empresário Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A entrada de capital privado permitiria à Fifa antecipar receitas e ampliar os recursos distribuídos às associações nacionais.
Os críticos, porém, afirmam que a operação concederia a investidores privados influência sobre receitas e decisões relacionadas às principais competições do futebol mundial.
Fifa nega que esteja vendendo o futebol
Diante das críticas, a Fifa afirmou que a expressão “venda do futebol” não corresponde ao conteúdo da proposta.
A entidade declarou que jamais consideraria comercializar o controle do esporte ou abandonar sua função institucional.
Segundo a Fifa, cada uma das 211 associações filiadas terá o direito de analisar o projeto e votar de maneira independente.
A organização argumenta que nenhuma confederação pode falar em nome de todos os países e que o processo de consulta respeitará os princípios democráticos da entidade.
A Fifa também garantiu que a subsidiária não será criada sem o apoio da maioria das associações.
Mesmo com a oposição crescente, a entidade pretende manter a consulta e apresentar formalmente o plano aos dirigentes nacionais.
Associações receberiam US$ 40 milhões
Infantino enviou uma carta às associações nacionais oferecendo US$ 40 milhões para cada uma caso o projeto seja aprovado até 19 de setembro.
A Fifa apresenta o valor como um financiamento sem precedentes para o desenvolvimento do futebol.
Os recursos poderiam ser utilizados pelas federações nacionais em infraestrutura, formação de jogadores, competições e projetos locais.
Os críticos consideram que a proposta financeira pode influenciar a votação e dificultar uma discussão independente sobre os efeitos do projeto no longo prazo.
A Fifa afirma que os pagamentos representam uma distribuição global das oportunidades comerciais geradas pelo esporte.
Para a entidade, a criação da subsidiária permitiria aumentar os investimentos sem retirar das associações o poder de decisão.
Uefa ameaça boicotar competições
A Uefa assumiu a liderança da oposição ao plano apresentado por Infantino.
As 55 associações europeias votaram de maneira unânime a favor de um boicote a todas as competições organizadas pela Fifa.
A ameaça foi aprovada menos de duas semanas depois de a Espanha conquistar o título mundial.
A próxima grande competição prevista no calendário da Fifa é a Copa do Mundo Feminina Sub-20, que será realizada em setembro.
A Polônia, país-sede do torneio, informou que ainda não recebeu qualquer comunicação sobre uma possível retirada das seleções participantes.
A ameaça europeia aumenta a pressão sobre a Fifa porque um boicote poderia comprometer a realização e a relevância comercial de diferentes torneios internacionais.
Concacaf rejeita proposta sem apoiar boicote
A Concacaf, responsável pelo futebol na América do Norte, América Central e Caribe, também rejeitou o projeto durante uma reunião realizada na quinta-feira (30).
A entidade possui 41 associações filiadas.
Apesar de se posicionar contra a venda da participação, a Concacaf não acompanhou a ameaça de boicote aprovada pela Uefa.
A posição possui importância adicional porque Victor Montagliani, presidente da confederação norte-americana, é apontado como possível adversário de Infantino na eleição presidencial da Fifa.
Infantino tentará conquistar um novo mandato em 2027, enquanto Montagliani avalia uma candidatura ao comando da entidade.
A crise sobre a subsidiária pode se transformar em um dos principais temas da disputa eleitoral.
Confederação Asiática se une à oposição
A Confederação Asiática de Futebol declarou solidariedade à Uefa e à Concacaf.
A entidade, que reúne 47 associações, questionou a viabilidade da proposta e levantou dúvidas sobre a maneira como as decisões foram tomadas.
A manifestação foi considerada especialmente significativa porque a confederação asiática historicamente adota uma postura menos crítica em relação à Fifa.
Apesar da oposição, a entidade também não ameaçou boicotar as competições.
Juntas, Uefa, Concacaf e Confederação Asiática possuem 143 das 211 associações filiadas à Fifa, número superior à maioria necessária para impedir o avanço da proposta.
Isso não significa, porém, que todos os países seguirão automaticamente a posição adotada pelas respectivas confederações.
Federações nacionais ainda podem divergir
A Fifa pretende consultar individualmente todas as associações nacionais.
Mesmo dentro das confederações que rejeitaram o projeto, algumas federações demonstraram interesse em analisar os possíveis benefícios financeiros.
O presidente da federação da República Tcheca chegou a afirmar que enxergava impactos positivos nas intenções da Fifa. Posteriormente, a entidade rejeitou a proposta e acompanhou a posição da Uefa.
A Federação Mexicana informou que estudará o plano antes de tomar uma decisão, apesar da oposição da Concacaf.
Essas divergências mostram que o resultado da consulta ainda não está definido.
A oferta de US$ 40 milhões para cada associação poderá pesar principalmente entre países que possuem menos recursos para desenvolver suas estruturas esportivas.
Torcedores cobram transparência
Representantes de organizações de torcedores também criticaram o projeto.
Stuart Dykes, diretor de Assuntos Europeus e Institucionais da Football Supporters Europe, afirmou que decisões dessa dimensão não podem ser tomadas a portas fechadas por um grupo reduzido.
Ele defendeu maior participação das federações nacionais, dos jogadores, dos torcedores e de outras partes diretamente envolvidas com o futebol.
Para a organização, o valor comercial do esporte é construído pelos atletas e pelo público e não deveria ser explorado em benefício de investidores privados.
A crítica reforça a cobrança por transparência na elaboração do projeto e na escolha dos potenciais compradores.
Trump nega participação nas conversas
Donald Trump afirmou que não discutiu com Infantino a possibilidade de a Fifa oferecer uma participação a investidores externos.
O presidente americano possui uma relação próxima com o dirigente, especialmente depois que os Estados Unidos participaram da organização da Copa do Mundo.
A possível entrada de um fundo fundado por Joshua Kushner aumentou os questionamentos sobre conexões políticas em torno da proposta.
Joshua é irmão de Jared Kushner, marido de Ivanka Trump e genro do presidente americano.
Trump, entretanto, negou ter tratado do projeto com Infantino.
Primeiro-ministro britânico critica Infantino
O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, também se manifestou contra a proposta.
Ele afirmou que Infantino é “o homem errado para liderar a organização”.
Burnham já havia criticado o projeto quando ele foi anunciado e voltou a pressionar a Fifa após a renúncia de Carlos Cordeiro.
A declaração acrescentou pressão política à crise, que até então estava concentrada principalmente entre dirigentes do futebol.
Infantino, de 56 anos, deverá disputar a reeleição no próximo ano sob um cenário de oposição crescente.
Consulta seguirá apesar da resistência
A Fifa afirmou que reportagens incorretas prejudicaram o processo de consulta planejado pela entidade.
Mesmo assim, a organização garantiu que continuará apresentando a proposta às 211 associações.
Segundo a Fifa, cada federação deverá votar com base nos fatos e terá participação na definição do futuro comercial do futebol.
A entidade sustenta que o projeto combina financiamento para desenvolvimento, propriedade global das oportunidades comerciais e autonomia das associações.
A oposição argumenta que a entrada de investidores criaria compromissos financeiros de longo prazo e poderia reduzir o controle institucional sobre a Copa do Mundo.
Com três grandes confederações posicionadas contra a proposta, Infantino precisará convencer parte significativa das federações nacionais a romper com as orientações regionais.
A disputa deverá continuar até a votação, prevista para ser concluída em setembro.
