Pular para o conteúdo
DóLAR R$ 5,43 ▲ 0,59% EURO R$ 6,06 ▲ 0,59% BITCOIN R$ 418.934 ▼ 0,83% SEGUNDA-FEIRA, 02/11/2026 14:34
Notícias

‘Pequenas Tragédias’: entre o desejo e o luto, Daniel Nolasco celebra a liberdade de existir

Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, longa mistura realidade e fabulação para revisitar memórias, confrontar a violência e afirmar a potência da liberdade queer O post ‘Pequenas Tragédias’: entre o desejo e o luto, Daniel Nolasco celebra a liberdade de existir apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Hyader Epaminondas

O cinema queer brasileiro encontra na subversão das convenções sociais e na reinvenção das formas de representação um terreno fértil para investigar as contradições do desejo e da experiência humana. Em “Pequenas Tragédias”, Daniel Nolasco transforma a própria memória em matéria cinematográfica, articulando documentário e ficção para revisitar Catalão, cidade goiana onde viveu, e investigar as marcas deixadas pelas experiências LGBTQIA+ em um ambiente atravessado pelo conservadorismo, pela homofobia e pelas violências que insistem em determinar quais existências podem ocupar o espaço público sem precisar justificar a própria presença.

Entre lembranças pessoais, relatos de terceiros e situações que desafiam as fronteiras entre realidade e fabulação, o cineasta constrói um retrato fragmentado de uma comunidade cujas histórias se entrelaçam pelo desejo, pela perda, pela resistência e pela necessidade de encontrar formas de continuar existindo.

A vivência de Monalisa, mulher trans cuja trajetória integra esse mosaico de experiências, ganha força justamente por expor as contradições de uma sociedade que transforma a identidade de gênero em motivo de exclusão, constrangimento e violência. Nolasco não trata essas agressões como acontecimentos isolados, apartados de uma estrutura social mais ampla, mas como parte de uma realidade que atravessa os corpos, as relações e as possibilidades de pertencimento.

A intimidade deixa de ser um território protegido das tensões políticas para revelar como o preconceito invade a vida cotidiana, condiciona os afetos e produz marcas que sobrevivem aos próprios acontecimentos. Ao aproximar a história de Monalisa das demais memórias que compõem o filme, o diretor também impede que a experiência trans seja reduzida a uma narrativa única de sofrimento, reconhecendo a complexidade de uma existência que não cabe nas categorias estreitas impostas pelo olhar normativo.

É na maneira como Daniel Nolasco dribla essas violências por meio de uma ironia visceral que “Pequenas Tragédias” encontra uma de suas forças. Seu humor é ácido, por vezes desconcertante, mas carrega uma sinceridade que impede a provocação de se transformar em mero exercício de deboche. O cineasta conhece a brutalidade das situações que revisita e, justamente por isso, recusa a obrigação de narrá-las sob o peso permanente da solenidade.

Há uma irreverência que desarma as expectativas, expõe o ridículo das convicções homofóbicas e devolve àqueles que foram historicamente transformados em alvos do escárnio a possibilidade de rir, provocar e confrontar. A decisão de dedicar um capítulo inteiro a uma figura homofóbica explicita essa disposição: em vez de conceder ao preconceito a autoridade de organizar o discurso, Nolasco o coloca sob escrutínio, revelando as pequenas e grandes misérias de quem acredita ter o direito de regular a existência alheia.

Essa acidez, contudo, não elimina o peso do luto que atravessa a narrativa. Ao revisitar a própria história e a de pessoas que marcaram sua trajetória, incluindo um amigo que viveu com HIV, Nolasco confronta as perdas que constituem a memória de uma comunidade submetida a diferentes formas de abandono. A morte, a ausência e a violência social aparecem como experiências particulares que também carregam uma dimensão coletiva, sobretudo quando observadas à luz de uma história em que corpos dissidentes foram frequentemente tratados como descartáveis.

A articulação entre lembrança e fabulação permite ao diretor reorganizar esses fragmentos sem fingir que as feridas podem ser inteiramente reparadas. O cinema surge, assim, como um espaço de elaboração do luto, mas também como uma forma de devolver presença àqueles que permanecem na memória, recusando que suas histórias desapareçam junto com eles.

A linguagem híbrida do filme acompanha essa operação ao embaralhar registros, tons e expectativas, fazendo com que a dimensão documental conviva com a liberdade da encenação e do exagero. Nolasco não parece interessado em estabelecer uma fronteira rígida entre aquilo que aconteceu e aquilo que a memória transforma, porque é justamente nessa instabilidade que encontra uma maneira de se aproximar da experiência vivida.

Existe algo no cinema de Daniel Nolasco que me fascina particularmente: a capacidade de me surpreender a cada novo movimento, como se assistir a um de seus filmes fosse sempre aceitar o convite para uma montanha-russa de sensações tangíveis, cores exuberantes e imagens que parecem desafiar qualquer tentativa de antecipar seus próximos caminhos. Adoro a maneira como seu olhar transita entre o absurdo, o deboche, a sensualidade e a melancolia, encontrando beleza justamente naquilo que escapa às convenções e às expectativas de uma narrativa comportada. Seu cinema tem uma vitalidade muito própria, uma liberdade estética que não pede licença para exagerar, provocar ou se contradizer.

Há um prazer genuíno em acompanhar essa imprevisibilidade, porque Nolasco parece compreender que a experiência cinematográfica também precisa nos atravessar fisicamente, despertar sensações, provocar desconforto e, sobretudo, devolver ao espectador o encantamento de não saber exatamente o que encontrará na imagem seguinte.

O exagero visual, com cores ultrassaturadas e a exploração do corpo masculino como objeto de desejo, integra essa lógica de apropriação do olhar gay, assumido sem constrangimento e levado deliberadamente ao limite. Existe uma dimensão provocadora nessa insistência, como se a explicitação do desejo também fosse uma maneira de confrontar os mecanismos que historicamente censuraram ou disciplinaram sua expressão. O corpo deixa de ser apenas objeto de julgamento para reivindicar sua condição de imagem, fantasia e prazer.

Foto: Divulgação

Em “Pequenas Tragédias”, a ironia não suaviza a violência, assim como o humor não transforma o sofrimento em algo menor. Ambos funcionam como instrumentos de enfrentamento, permitindo que o cineasta revisite as próprias feridas sem entregar sua narrativa à lógica da vitimização. Ao reunir a própria vivência, as marcas deixadas pela homofobia, a experiência de quem vive com HIV e as perdas que atravessam sua memória, Daniel Nolasco apresenta um retrato queer belíssimo de Catalão que ultrapassa os limites de uma autobiografia convencional.

Suas pequenas tragédias carregam o peso de estruturas sociais que insistem em produzir exclusão, mas também revelam a potência de quem responde a elas com irreverência, desejo e uma disposição inegociável para falar por conta própria. É nessa combinação de dor e escárnio, ternura e acidez, que o filme encontra sua sinceridade mais radical: rir diante da brutalidade não significa ignorar suas consequências, mas recusar que ela tenha a última palavra.

Fonte: Mídia Ninja.

Compartilhe esta matéria:
Portal Inhaí

Portal Inhaí

Confira as notícias e colunas publicadas por Portal Inhaí no Portal Inhaí.