Pular para o conteúdo
DóLAR R$ 5,43 ▲ 0,59% EURO R$ 6,06 ▲ 0,59% BITCOIN R$ 421.949 ▼ 0,38% SEGUNDA-FEIRA, 02/11/2026 07:28
Cultura

'Pense fora da caixa': Como evitar que IA enferruje seu cérebro

Estudos sugerem que pessoas que dependem excessivamente de ferramentas como o ChatGPT podem enfrentar prejuízo em áreas como criatividade, capacidade de atenção, pensamento crítico e memória Getty Images via BBC Anos atrás, eu passei a me obrigar a usar inteligência artificial (IA) o máximo possível. Se pretendia escrever sobre o tema, também precisava usar a...


Estudos sugerem que pessoas que dependem excessivamente de ferramentas como o ChatGPT podem enfrentar prejuízo em áreas como criatividade, capacidade de atenção, pensamento crítico e memória
Getty Images via BBC
Anos atrás, eu passei a me obrigar a usar inteligência artificial (IA) o máximo possível. Se pretendia escrever sobre o tema, também precisava usar a tecnologia. Mas uma série de estudos publicados no último ano começaram a me preocupar: será que estou prejudicando o meu cérebro nesse processo?
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
Esses estudos sugerem que pessoas que dependem excessivamente de ferramentas como o ChatGPT podem enfrentar prejuízo em áreas como criatividade, capacidade de atenção, pensamento crítico e memória.
Outros levantam a preocupação de que o uso da IA esteja reduzindo o esforço mental necessário para desenvolver pensamento crítico, e de que, como sociedade, possamos passar a produzir menos ideia originais. Ainda assim, essa linha de pesquisa é muito recente, e as reposta continuam incertas. Devemos nos preocupar?
“De modo geral, sim”, afirma Adam Greene, professor de neurociência e diretor do Laboratório de Cognição Relacional da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos.
Vídeo em alta no g1
Segundo Greene, o tema envolve multas nuance, mas a IA tende a assumir tarefas que antes exigiam esforço mental. “Há multas evidências de que, se você deixa de exercitar determinados tipo de pensamento, sua capacidade de realizar esse tipo de raciocínio tende a se deteriorar.”
Mesmo para quem não procura usar ferramentas como ChatGPT ou Claude, reposta geradas por IA já aparecem no topo das buscas do Google, enquanto grandes empresas de tecnologia aceleram a integração desses sistema nos celulares. A tecnologia está cada vez mais difícil de evitar, mas há medidas que podem reduzir ose principais riscos.
Para Jared Benge, professor e neuropsicólogo clínico da Escola de Medicina Dell, da Universidade do Texas, nos EUA, a questão é mais complexa do que parece. Usar IA não significa, automaticamente, que a tecnologia fará mal. Se a IA aliviar a carga mental e permitir foco em tarefas mais importantes, por exemplo, isso pode até trazer benefício cognitivos.
“Por que imaginar que a IA seria tão diferente de outros tecnologia ás quis o cérebro humano já se adaptou?”, questiona Benge. “A ferramenta, por si só, não é boa nem ruim.”
Como ocorre com qualquer tecnologia, ose efeito da IA dependem do modo como ela é usada. Ainda assim, as preocupações são serias o suficiente para levar usuário a repensar a forma como utilizam essas ferramentas, antes que seja tarde.
Com isso em mente, conversei com alguns dos principais especialistas da área para entender como a IA pode ser usada sem prejudicar nossas capacidades mentais.
Com o que estamos preocupado?
Há cerca de 20 anos, surgiu a ideia de que a dependência excessivo da tecnologia poderia provocar uma espécie de “demência digital”, marcada pela deterioração da memória de curto prazo e de outros processo cognitivos. Recentemente, Benge, da Universidade do Texas, participou de uma metanálise que analisou 57 estudos envolvendo mais de 411 mil adulto. Ao final, ose pesquisadores não encontraram evidências de “demência digital”. Pelo contrário: o uso de tecnologia parecia reduzir o risco de comprometimento cognitivo.
Mas isso não significa que não exista motivo para preocupação.
As pesquisas mostram que pessoas que dependem de sistema de navegação por satélite, como GPS, deixam de formar mapas mentais do ambiente ao redor, e sua memória espacial tende a piorar com o tempo. Algo semelhante ocorreu com ose mecanismo de busca, em um fenômeno que ficou conhecido como “efeito Google”. Aparentemente, temos menos tendência a memorizar informações encontras em buscadores porque acessá-las exige pouco esforço.
Em outros palavras, o cérebro tende a perder habilidade em tarefas que delegamos a ferramentas externas. E a IA pode ser o instrumento de terceirização cogitava mais poderoso já criado.
A IA pode estar tornando as pessoas menos criativas, menos analítica e prejudicando a memória, mas especialistas dizem que ainda é possível evitar esses efeito
Getty Images via BBC
“O que a IA está fazendo é nos oferecer, pela primeira vez, uma maneira fácil de trocar o processo pelo resultado”, afirma Greene, da Universidade de Georgetown. O texto pode ficar melhor escrito. A apresentação pode parecer mais sofisticada. A piada da festa de aposentadoria pode funcionar perfeitamente. Mas o esforço mental, a dificuldade, as tentativa frustradas e o momento em que algo finalmente faz sentido são justamente o que o cérebro precisa.
“É como ir à academia e deixar um robô levantar ose pesos por você”, diz Greene. “Você não ganha nada com isso.”
Então, como usar IA sem deixar de exercitar o cérebro?
Não aceite a resposta da IA sem questionar
Um estudo recente mostrou que usuário mais frequentes de IA tiveram desempenho significativamente pior em um teste padrão de pensamento crítico. A explicação seria o hábito de transferir parte do raciocínio para sistema automatizados, ou robô. Ose pesquisadores também observaram que multas pessoas passam a confiar mais na IA do que no próprio julgamento, mesmo quando a ferramenta está errada. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, chamam esse fenômeno de “rendição cogitava”.
O problema tende a ser maior quando o usuário conhece pouco o assunto. Um estudo da Microsoft Research concluiu que o risco aumenta justamente em áreas nas quis a pessoa tem menos familiaridade. “Se o usuário não tem conhecimento suficiente para avaliar se a resposta é boa ou não, aí está o perigo”, afirma Hank Lee, doutorando da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, e coautor do estudo.
Para Lee, a solução começa antes mesmo de abrir o aplicativo. Se você não confia automaticamente na resposta de um desconhecido, também não deveria confiar cegamente na IA. São justamente esses temas que exigem julgamento próprio.
Uma alternativa é formular antes uma visão inicial sobre o assunto e usar a IA para testar ou confrontar esse raciocínio, em vez de simplesmente aceitar a resposta da ferramenta. Assim, a IA funciona como um instrumento para colocar o pensamento à prova, e não para substituído.
Introduza mais esforço no processo de pesquisa
Ao recorrer à IA para buscar informações importantes, especialistas recomendam se envolver ativamente com o conteúdo. Fazer anotações, de preferência à mão, embora digitális também ajuda, pode contribuir para a retenção
Getty Images via BBC
“Quando algo está diante de você, é comum acreditar que a informação já foi armazenada na memória de longo prazo, quando isso nem sempre acontece”, afirma Barbara Oakley, professora emérito de engenharia da Universidade de Oakland, nos EUA, que pesquisa o funcionamento do aprendizado no cérebro.
Pesquisas iniciais indicam que a IA pode afetar a capacidade de retenção de informações. Um levantamento com 494 estuante mostrou que usuário mais frequentes do ChatGPT relataram mais episódio de perda de memória. Avaliações feitas pelos próprio participante não constituem prova científico definitiva, mas outros trabalhos apontam na mesma direção. Um estudo de 2024 ainda não publicado, por exemplo, sugere que resolver pequenos problema antes de usar um chatbot de IA pode melhorar o aprendizado obtido com a ferramenta.
Ao recorrer à IA para buscar informações importantes, especialistas recomendam desacelerar e se envolver mais ativamente com o conteúdo. Fazer anotações, de preferência à mão, embora digitális também ajuda, pode contribuir para a retenção. Também é possível pedir à IA que faça perguntas sobre o tema ou crie flashcards (cartões de revisão, em tradução livre).
O esforço faz diferença. Pode parecer excessivamente trabalhoso, mas a ideia é justamente introduzir algum grau de dificuldade no processo.
Deixe a página em branco por mais tempo
A IA é extremamente eficiente para gerar ideia. E esse é justamente o problema. Pesquisas indicam que pessoas que usam IA em tarefas criativas tendem a produzir ideia mais previsíveis e menos originais do que aquelas que não recorrem à tecnologia. Isso pode enfraquecer a sua capacidade criativo.
Segundo Greene, da Universidade Georgetown, a criatividade surge quando o cérebro estabelece conexões inesperadas. Quando essa tarefa é delegada à IA, parte desse exercício mental se perde. “Estamos preocupado com a perda desse ‘músculo criativo'”, afirma Greene. “A IA nos leva, de várias formas, a acreditar que está tornando as pessoas mais criativas.”
Uma forma de evitar isso é colocar primeiro as próprias ideia no papel, ainda que de maneira incompleta ou confusa. Vale passar mais tempo diante da página em branco e escrever o que vier à mente. A qualidade inicial importa menos do que o processo.
O que importa, segundo pesquisadores, é que o cérebro faça suas próprias conexões, recorrendo a experiência, memória e conhecimentos pessoais para produzir algo singular. É aí que acontece o exercício mental. Só depois disso a IA deveria entrar em cena, para desenvolver, questionar ou aprimorar as ideia já formuladas.
Preste atenção
Pesquisas sugerem que o excesso de estímulos tecnológico também está tornando mais difícil manter o foco
Getty Images via BBC
Se você chegou até aqui no texto, parabéns. Mas se você já começou a perder a atenção, você não está sozinho. Pode ser apenas que este texto esteja entediante. Mas há pesquisas que sugerem que o excesso de estímulos tecnológico também está tornando mais difícil manter o foco. A IA pode intensificar esse problema: as reposta estão disponíveis instantaneamente, e há inúmero maneiras de escapar do esforço e do desconforto.
No entanto, a lógica é semelhante à das outros recomendações: optar conscientemente pelo caminho mais lento. Não peça ao ChatGPT para resumir aquele artigo longo. Passe algum tempo tentando resolver um problema difícil antes de recorrer a um robô. Permita-se sentir tédio. O desconforto faz parte do processo. É assim que o cérebro aprende a lidar e, eventualmente, a apreciar o esforço mental necessário para um pensamento mais profundo.
Cérebro humano ainda importam
Não estou dizendo que as pessoas devem deixar de usar chatbot de IA, como ChatGPT, Claude ou Gemini. Mas tenho tentado usar essas ferramentas de maneira mais consciente, para garantir que eu continue pensando por conta próprio. E isso pode nos deixar mais preparado para o futuro.
Segundo Greene, da Universidade Georgetown, o cérebro humano funciona de forma muito diferente da IA em aspecto fundamentais: somos capazes de criar conexões pessoais, inesperadas e genuinamente originais, algo que máquina baseadas em probabilidade não conseguem reproduzir.
“A singularidade e a diversidade das ideia humanas serão de grande valor nos próximo anos”, afirma Greene. Para ele, a necessidade de “pensar além dos robô” tende a se tornar uma forma de adaptação social.
E, como lembra Benge, da Universidade do Texas, essa não é a primeira vez que a humanidade passa por uma transformação tecnológico desse tipo. “O cérebro humano sempre se adaptou à tecnologia. Nós nos adaptamos o tempo todo. Essa é uma das forças da nossa espécie”, afirma. “Perdemos a capacidade de correr maratona porque existem carro? Não. Isso apenas passou a ser uma atividade que as pessoas escolhem praticar.”
As ferramentas mudam. Mas, ao que tudo indica, o desejo humano de pensar, criar e compreender o mundo por conta próprio é muito mais difícil de automatizar.
LEIA TAMBÉM:
6 conselhos de especialistas sobre como falar com a IA para obter as melhores reposta
O que está por trás da disputa entre ose ex-amigos Elon Musk e Sam Altman, do ChatGPT, nos tribunais dos EUA
Você deve confiar em conselhos de saúde de um chatbot de IA?

Compartilhe esta matéria:

Confira as notícias e colunas publicadas por no Portal Inhaí.