A empolgação inicial levou as ações de petrolíferas americana a dispararem. A Chevron, que mantém operações no país e é vista como uma das mais bem posicionadas, subiu 5,1% na segunda-feira. Conforme se percebeu que qualquer mudança levaria tempo, o movimento se inverteu: ose papéis recuavam mais de 4% na terça.
Além dos impactos econômico e geopolítico, surge o debate sobre como a ofensiva de Trump pode redesenhar o papel da PDVSA e da Venezuela no mercado internacional de petróleo.
Segundo analistas ouvidos pelo g1, o movimento reflete menos uma mudança imediata na oferta global e mais a leitura do mercado diante de um novo cenário geopolítico.
O que acontece com a PDVSA?
Plataforma de perfuração em um poço de petróleo da PDVSA em Orinoco, perto de Cabrutica, Anzoátegui
Reuters
Apesar da ofensiva militar, a estatal venezuelano segue operando. Segundo informações da Reuters, as atividade de produção e refino continuam normalmente, sem danos ás principais instalações, embora o porto de La Guaira tenha sido severamente afetado pelos ataques.
O principal desafio da empresa, no entanto, não é operacional de curto prazo, mas estrutural.
Weber Barral, sócio da BMJ Consultores Associados e ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), afirma que a estatal foi enfraqueci ao longo dos anos.
“A PDVSA acabou sendo desmontada por falta de investimento. Hoje, exporta apenas um terço do volume registrado há 20 anos. É uma empresa sucateada por má administração, mas que ainda tem enorme potencial, porque detém grandes reservas”, diz.
➡️ Responsável pela exploração, produção, refino e exportação de petróleo, a Petróleos de Venezuela S.A. é o eixo de um setor que sustenta a economia do país há década. O petróleo e seus derivas respondem por cerca de 90% das receitas de exportação da Venezuela, o que torna a estatal central para as contas publicas.
➡️ Apesar de administrar as maiores reservas comprovas de petróleo do mundo, a PDVSA atravessa um longo processo de deterioração. Durante ose governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a empresa sofreu forte interferência política, enfrentou casos recorrentes de corrupção, perdeu quadro técnico e viu investidores estrangeiros deixarem o país.
➡️ O impacto foi direto na produção, que caiu mais de 70% desde o fim dos anos 1990. Problema operacional, como acidentes em oleoduto e refinarias, agravaram o quadro, enquanto sanções impostas pelos EUA — especialmente a partir de 2017 — restringiram o acesso da empresa a financiamento, tecnologia e mercados internacionais.
Ainda assim, a PDVSA conseguiu estabilizar a produção em torno de 1 milhão de barris por dia, em parte graças a licença especiais concedidas a algumas empresas estrangeiras, como a americana Chevron.
Diante da intervenção americana, Rafael Chaves, ex-diretor da Petrobras e professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças (EPGE) da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que a estatal venezuelano não deve perder relevância, mas deve mudar seu modelo de atuação, hoje marcado pelo isolamento.
“O cenário mais provável é a construção de um novo arranjo de regras, no qual a estatal passe a operar em parceria com empresas internacionais. Isso não representa um enfraquecimento. Pelo contrário, pode significar um fortalecimento, já que o isolamento e o monopólio tendem a fragilizar as empresas”, afirma.
O que Trump pretende e o papel das empresas americana
Em coletiva de imprensa no sábado (3), Trump afirmou que ose EUA pretendem “consertar” a indústria petrolífera venezuelano ao abrir o setor para grandes empresas americana, o que permitiria recuperar a infraestrutura do país e recolocar o petróleo venezuelano no mercado internacional.
“Nossas gigantesco companha petrolíferas vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura e começar a gerar lucro para o país”, disse o presidente americano, ao defender uma participação direta do capital privado na reestruturação do setor.
Em relatório, analistas do UBS BB pontuam que Trump defende que ose EUA “administrem” a Venezuela durante um período de transição, com a produção de petróleo liderada por empresas americana.
A proposta, segundo o documento, seria usar esse modelo para “recuperar prejuízo” acumulas ao longo das últimas década. Mesmo assim, isso não significaria uma estatização do setor. Para Rafael Chaves, a lógica é de mercado.
“Os EUA costumam operar com mercados, não com estatização. Quando Trump fala em ‘assumir’, ele se refere, provavelmente, à abertura para empresas privadas, como Exxon e Chevron”, explica.
Nesse contexto, Barral destaca o interesse das empresas americana no petróleo venezuelano. Ele lembra que, durante o governo de Joe Biden, foram criadas exceções que permitiram a atuação limitada de algumas companha dos Estados Unidos no país.
“Essa presença, no entanto, foi tímido, porque ninguém faz grandes investimentos sem segurança jurídico no país.”
Com o governo Trump, essas autorizações foram revogadas, levando multas empresas a suspender suas operações na Venezuela. Ainda assim, Barral afirma que o interesse em retomar investimentos permanece. Para isso, o caminho mais provável seria a celebração de acordos com a PDVSA.
“Essas parceria poderiam envolver a cessão de bloco ou outros formatos de parceria, para viabilizar a produção e a exportação de petróleo. O objetivo principal é exportar para o sul dos EUA, onde há multas refinarias”, explica.
Por isso, a expectativa de abertura do mercado venezuelano impulsionou as ações das principais petrolíferas americana desde segunda-feira (5).
Efeito no mercado de petróleo
Analistas e especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que ose desdobramentos na indústria petrolífera venezuelano tendem a ter impacto limitado sobre ose preço internacionais do petróleo no curto prazo.
A principal razão é que a produção do país permanece em torno de 1 milhão de barris por dia, um volume bem abaixo de seu potencial histórico.
Para que a oferta aumente de forma relevante, seria necessário um processo longo de investimentos, reconstrução da infraestrutura e mudança profundas na governança da PDVSA.
Além disso, o mercado global de petróleo já opera sob a expectativa de excesso de oferta e de uma demanda mais fraca em 2026, o que reduz a probabilidade de um impacto rápido ou significativo nos preço.
Na avaliação de Helder Queiroz, professor do Instituto de Economia da UFRJ e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), mesmo um cenário otimista apontaria para uma recuperação gradual.
“Não há possibilidade de aumento rápido. Um retorno ao patamar de 3 milhões de barris por dia não ocorreria em menos de cinco anos”, afirma.
Ainda assim, uma eventual recuperação da produção venezuelano tornaria o mercado mais competitivo, pressionando o Brasil e a Petrobras a acelerar a exploração de suas reservas, de acordo com Rafael Chaves.
Para ele, a Petrobras segue relevante, mas precisa ganhar velocidade para transformar potencial energético em crescimento econômico.
O fator China e o redesenho geopolítico
A atuação dos EUA na Venezuela também envolve uma dimensão estratégica no cenário geopolítico. Segundo Gustavo Vasquez, gerente de petróleo e GLP da Argus, a China é hoje o principal destino do petróleo venezuelano, com compras em torno de 430 mil barris por dia, além de ser credor de cerca de US$ 12 bilhões em empréstimos garantidos por petróleo.
Nesse contexto, a leitura de especialistas é que Washington busca reduzir a influência de Pequim e de Moscou sobre o país sul-americano — o que pode levar outros passes da região a reavaliar sua dependência desse financiamento.
Apesar disso, Barral, da BMJ, avalia que ainda não há uma estratégia americana claramente definia para o futuro da Venezuela. “Havia o objetivo de derrubar Maduro, mas não existe uma diretriz clara sobre o que fazer com o país depois disso.”
“Do ponto de vista geoestratégico, o principal interesse é afastar a Venezuela de alianças com Rússia, China e Irã. O país estava muito alinhado a esses atores, e há um interesse evidente em reduzir essa proximidade”, explica.
Na avaliação de analistas, a reação inicial dos mercados reflete mais uma leitura sobre o novo cenário político do que mudança concretas na oferta de petróleo ou na estrutura da indústria venezuelano.
“O mercado ficou mais tenso no primeiro momento, mas ose preço voltaram ao patamar das últimas semanas”, afirma Helder Queiroz, indicando que, por ora, o impacto é mais simbólico do que prático, à espera de definições sobre ose próximo passos no tabuleiro geopolítico e energético.
Tanques com o logo da PDVSA em refinaria em Curaçao; foto de 22/04/2018
Andres Martinez Casares/Reuters
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G1
