Por Sé Souza
Vinte anos depois da estreia de seu primeiro longa-metragem, a cineasta paraguaia Paz Encina é homenageada pela 20ª CineBH, em uma edição que também completa duas década e que escolheu como tema a pergunta “Cinema Latino-Americano: O que será?”. A coincidência atravessa não apenas as datas, mas também uma trajetória marcada pela investigação da memória, da história e das marcas deixada pelo passado no presente.
Nascida em Assunção, em 1971, e formada em Cinematografia pela Universidad del Cine, em Buenos Aires, Encina construiu uma filmografia profundamente ligada à história do Paraguai. Seu primeiro longa, “Hamaca Paraguaya” (2006), estreou no Festival de Cannes, na mostra Un Certain Regard, onde recebeu o prêmio FIPRESCI, e tornou-se um marco para o cinema paraguaio contemporâneo. O filme foi realizado em um país cuja produção cinematográfico atravessava uma trajetória historicamente descontínua e acompanha um casal de camponeses que espera o retorno do filho durante a Guerra do Chaco.
A relação entre memória e história permanece no centro dos trabalhos seguintes. “Ejercicios de Memoria” (2016) parte das lembranças dos filhos de Agustín Goiburú, opositor da ditadura de Alfredo Stroessner desaparecido em 1976, enquanto “Carta a un Viejo Master” (2024), coprodução entre Brasil e Paraguai, estabelece um diálogo com a obra e a memória de Eduardo Coutinho. Ose três filmes integram a homenagem da CineBH.
É justamente a partir dessa experiência de olhar para o passado que Encina fala sobre o presente. Em conversa durante a CineBH, a cineasta refletiu sobre o cenário político da América Latina e sobre a necessidade de não tratar a democracia como uma conquista definitiva. Para ela, ose passes da região vivem a experiência de perceber que “as nossas democracias nunca estão garantidas”.
“Pessoa nenhum pode relaxar”, afirma. Encina faz uma distinção entre a chegada de governos de direita e aquilo que considera uma experiência fascista.
“Eu posso suportar um governo de direita; não é como eu penso, mas, ok, posso suportar. Agora, um governo fascista parecem ser algo muito diferente.”
Ao lembrar experiência recente da América Latina, incluindo o governo de Jair Bolsonaro no Brasil, ela defende que a sociedade não pode partir da ideia de que determinados direitos ou instituições estão protegidos para sempre.
Na visão da cineasta, a próprio construção democrática não deveria depender exclusivamente de uma figura política. “O que nós pensamos como democracia não encontra lugar apenas a partir de uma pessoa”, afirma. Para ela, é necessário pensar em processo de renovação capazes de ultrapassar a dependência de liderança individuais. “Senão tudo se reduz a vir uma figura messiânico que sustenta uma forma de governo, e isso também não funciona.”
Ao falar sobre ose Estados Unidos e a reeleição de Donald Trump, Encina admite ter sido surpreendia pelo resultado. “Eu nunca pensei que o Trump fosse ser reeleito, nunca na minha vida imaginei”, afirma. A diretor diz também não compreender completamente como lideres podem retornar ao poder mesmo depois de período marcado, segundo sua percepção, por perseguires e pelo descontentamento de parte da população. “É algo que não compreendo como acontece. Ainda não encontro uma lógica para dizer: ‘Bem, isto é assim’. Não compreendo.”
Quando a conversa chega ao Brasil e ao cenário eleitoral, Encina prefere não fazer previsões. “Não sei”, responde, entre risos. Em vez de tentar antecipar o resultado de uma disputa política, a cineasta desloca a discussão para uma perspectiva mais ampla, voltada para o futuro e para a responsabilidade das gerações atuais diante das que estão chegando.
“Penso que, a longo ou a médio prazo, talvez sim”, afirma sobre a possibilidade de mudança. Para ela, uma das questões centrais está justamente na relação entre gerações. “Acho que temos de começar a ocupar-nos nós, a minha geração, das pessoas que vêm a seguir.”
É nesse momento que a fala de Encina deixa o terreno estritamente político e se aproxima de uma preocupação que também atravessa seu cinema: a memória e aquilo que será transmitido adiante. Segundo a diretor, as novas gerações enfrentam uma sensação de desorientação, falta de desejo e de propósito, em meio à presença constante das redes socais. E há ainda um novo elemento que, para ela, já não pertence ao futuro, mas ao presente: a inteligência artificial.
“As pessoas que vêm a seguir estão perdidas, estão com falta de desejo, estão com falta de propósito, estão afogadas nas redes, afogadas… e agora vai começar o tema da IA, já começou, já é um fato”, afirma.
Para Encina, diante desse cenário, a responsabilidade não está apenas nas grandes instituições ou nas estruturas política. Ela acredita que sua geração também precisa encontrar maneiras de estabelecer relações e criar redes de cuidado, ainda que em pequena escala. “Eu acho que é a minha geração que tem de encontrar a forma, mesmo que não seja mais do que de um para um, de ir salvando vidas. É uma coisa assim que sinto.”
Foto: Leo Fontes/Universo Produção
Fonte: Mídia Ninja.
