Publicado originalmente nas redes sociais
Eu fotografei a pandemia inteira. E talvez essas sejam algumas das fotos que eu mais precisava mostrar.
Porque eu estava lá.
Estava dentro de UTIs, acompanhando pessoas tentando respirar, famílias esperando notícias, profissionais completamente exaustos. E estava também nos enterros.
Essa foto do caixão lacrado, com o sepultador sozinho, é uma das imagens que mais me atravessam.
Não tinha família.
Não tinha abraço.
Não tinha despedida.
Era só um caixão fechado, lacrado, e uma pessoa ali, trabalhando no meio de uma tragédia que parecia não ter fim.
Foram mais de 700 mil brasileiros mortos pela Covid. Mais de 700 mil famílias que perderam alguém. Filho que perdeu mãe. Mãe que perdeu filho. Irmão. Pai. Avó. Amigo. Gente que saiu de casa e nunca mais voltou.
E eu não consigo olhar para essas fotos e fingir que foi só uma página triste da nossa história.
Eu lembro da “gripezinha”.
Lembro do “e daí?”.
Lembro da cloroquina sendo tratada como solução, quando as evidências já mostravam que ela não funcionava contra a Covid.
Lembro da falta de ar sendo imitada enquanto pessoas de verdade estavam morrendo sem conseguir respirar.
Eu lembro.
E é por isso que eu posto.
Porque eleição também é memória.
É lembrar quem estava onde quando tudo aconteceu. É olhar para as escolhas que foram feitas, para as vidas que estavam em jogo e decidir que tipo de país a gente quer construir daqui para a frente.
Eu não quero esquecer.
Não quero que meus sobrinhos, nem ninguém da minha família, cresça achando que aquilo foi normal.
Minha sobrinha mais velha, inclusive, trabalhou na linha de frente. Era psicóloga e foi o primeiro emprego dela. Logo de cara, um baque desses.
Era ela quem, muitas vezes, dava notícias às famílias, fazia essa ponte entre quem estava internado e quem estava do lado de fora. Tentava, de alguma forma, amenizar o sofrimento de pacientes que estavam ali, sozinhos, sem saber o que ia acontecer com eles.
Ela também estava lá. E isso faz parte da nossa história. Eu não quero esquecer.
Essas fotos são a minha forma de lutar contra o esquecimento.
Porque eu estava lá.
Eu vi.
Eu fotografei.
E eu não vou esquecer.
Por isso, eu sou 13.
Fonte: Mídia Ninja.
