Por Ana Clara B. Caldas – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
Em outubro, Belém se transforma em um grande espaço de manifestação da fé. O Círio de Nossa Senhora de Nazaré reúne milhões de devotos em uma das celebrações religiosas mais importantes do Brasil, marcada por promessas, procissões, encontros familiares e expressões da cultura paraense. Mas a história da festividade também abre espaço para refletir sobre a diversidade religiosa que compõe a sociedade amazônica, incluindo as tradições de matriz africana.
Entre essas possibilidades de diálogo está a aproximação simbólica entre Nossa Senhora de Nazaré e Oxum, orixá associada às águas doces, à fertilidade, à beleza, ao amor e ao cuidado nas tradições religiosas afro-brasileiras.
Oxum e Nossa Senhora de Nazaré: duas referências de proteção e maternidade
Foto: Felipe Omartins
No Pará, a relação entre Oxum e Nossa Senhora de Nazaré revela encontros simbólicos entre tradições religiosas distintas. Enquanto Oxum é uma orixá associada às águas doces, à fertilidade, ao amor e ao cuidado com a vida nas religiões de matriz africana, Nossa Senhora de Nazaré ocupa, na devoção católica, um lugar de mãe protetora, a quem os fiéis recorrem em busca de amparo para si e para suas famílias.
Embora tenham origens e significados religiosos diferentes, as duas figuras podem se aproximar pela maternidade, pelo acolhimento e pela proteção. Essa conexão, porém, não é interpretada da mesma forma por todas as comunidades: seus sentidos variam conforme a tradição e a experiência de cada terreiro.
O babalorixá Vodunon Airton Gouveia, dirigente do Ilê Ashé Ogum Sogbô, de São Luís do Maranhão, explica como essa relação é compreendida em determinadas casas religiosas:
“Nas casas do Tambor de Mina, Nossa Senhora de Nazaré é associada a Oxum pela aproximação entre a maternidade, a proteção, a fertilidade e a força das águas doces, fazendo parte de como essas diferentes comunidades vivem e interpretam o sagrado. Oxum é a orixá das águas doces, ligada à fecundidade, ao amor e ao cuidado com a vida. Nossa Senhora de Nazaré é reverenciada como a mãe protetora, a quem seus devotos pedem amparo para si e para seus familiares, e é nessa experiência de acolhimento e proteção maternal que as duas referências se aproximam”.
A aproximação entre as duas também é abordada no artigo As águas de Nazaré: análise psico-antropológica da simbologia afro-religiosa presente na festa de Nossa Senhora de Nazaré em Belém do Pará, de Patrício Carneiro Araújo, Maria Célia P. Vergolino e Francisco Almeida de Lucena (2015). O estudo investiga a presença de simbologias afro-religiosas na festividade e contribui para compreender como diferentes experiências de fé se relacionam com o Círio.
Sincretismo religioso: resistência, identidade e diálogo entre tradições
Foto: Felipe Omartins
O sincretismo religioso é um processo histórico e cultural pelo qual referências, símbolos e práticas de diferentes tradições religiosas se aproximam e passam a adquirir sentidos próprios em determinados contextos. No Brasil, essas relações também estão ligadas às estratégias de resistência das populações negras escravizadas e à formação de expressões populares de religiosidade.
Na tradição do Tambor de Mina, religião de matriz africana presente principalmente no Maranhão e no Pará, o dirigente Daniel de Ogum, do Ilé Asé Akoró Omin Lodé, em Mosqueiro, Belém, compreende a aproximação entre Oxum e Nossa Senhora de Nazaré a partir da história, da cultura popular e das experiências de fé vividas no estado.
Para ele, essa relação não significa que as duas sejam a mesma divindade, mas evidencia como pessoas de diferentes tradições podem construir vínculos próprios com o sagrado:
“E a gente entende o sincretismo como parte de um processo histórico de resistência e da construção da religiosidade popular. No Maranhão e no Pará, que é onde pulsa mais o Tambor de Mina, percebe-se que essa relação é profundamente ligada à cultura popular e, quando a gente pensa na relação com o Círio de Nazaré, a gente percebe que o Círio também ultrapassa os limites de uma manifestação exclusivamente católica. Tornou-se uma manifestação de fato popular, que é vivida por pessoas com diferentes experiências religiosas. O sincretismo permite que essas imagens e experiências religiosas dialoguem e que as pessoas estabeleçam suas próprias relações com o sagrado”.
A água como elo
Foto: @ctrllipe
A água ocupa um lugar simbólico importante nessa aproximação. Na tradição afro-brasileira, Oxum está ligada às águas doces e a aspectos como fertilidade, cuidado e renovação da vida. No contexto do Círio, a água também integra a memória da devoção a Nossa Senhora de Nazaré, tradicionalmente associada ao encontro da imagem às margens do igarapé Murutucu, e permanece presente na Romaria Fluvial.
Essas relações não tornam as duas figuras equivalentes, mas mostram como a água pode estabelecer conexões entre experiências religiosas e culturais. Mais do que um elemento da paisagem amazônica, ela representa sustento, memória e pertencimento para muitas comunidades.
O Círio e a diversidade religiosa paraense
Foto: Bárbara Freire
O Círio de Nazaré ultrapassa os limites de uma celebração exclusivamente religiosa e se tornou uma manifestação popular que reúne pessoas com diferentes histórias, crenças e formas de vivenciar a fé. Nesse contexto, a presença de pessoas de religiões de matriz africana e as aproximações simbólicas entre Oxum e Nossa Senhora de Nazaré evidenciam a diversidade religiosa presente no Pará.
Daniel de Ogum ressalta que essa pluralidade faz parte da riqueza da religiosidade amazônica:
“É justamente isso que o Círio ensina sobre a diversidade religiosa presente no Pará: a fé do povo paraense não cabe em uma única forma de expressão. No Círio, diferentes tradições, histórias e experiências se encontram. Pessoas de religiões de matriz africana podem participar da procissão e ter devoção a Nossa Senhora de Nazaré, sem que isso necessariamente apague as suas relações com os orixás, voduns ou encantados. É uma expressão que traz a própria complexidade e a grande riqueza da religiosidade popular presente na Amazônia”.
Reconhecer as conexões entre Oxum e Nossa Senhora de Nazaré é também respeitar as particularidades de cada tradição. Em um estado marcado pela pluralidade cultural e religiosa, o diálogo entre diferentes formas de fé pode fortalecer o respeito, combater a intolerância religiosa e valorizar as muitas maneiras pelas quais a população paraense se relaciona com o sagrado.
Fonte: Mídia Ninja.
