Por Vinicius Francisco
Depois do primeiro turno, a disputa presidencial passou a ocupar de forma mais explícita o feed de influenciadores que normalmente falam de humor, comportamento, moda, música ou da próprio rotina. Nos últimos dias, criadores com milhões de seguidores declararam apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e cresceu também a cobrança para que artista e outros personalidade deixem de falar de política apenas por símbolo ou mensagem nas entrelinhas.
Camila Fremder (@cafremder) foi uma das vozes que levantaram essa discussão. A escritor e apresentador defendeu que quem decide falar de política precisa deixar claro o próprio posicionamento, sem depender de mensagem “cifradas”. Seu apoio a Lula já era público e, antes do primeiro turno, ela esteve entre mais de 70 criadores, influenciadores, comunicadores e artista que assinaram uma carta em apoio à candidatura do presidente.
A cobrança apareceu de forma ainda mais direta em outros perfis. Thalles Ribeiro (@_thallesribeiro) resumiu: “Não adianta ser aesthetic e ser vazia por dentro”. Maisa (@maisa) também compartilhou o posicionamento de Fremder e escreveu que, para quem a acompanha há anos, sua posição não era novidade, mas que “o óbvio também precisa ser dito”.
Doarda (@doarda), que reúne cerca de 3,2 milhões de seguidores no Instagram e 6,8 milhões no TikTok, foi uma das que decidiram não deixar dúvidas. Em vídeo, falou sobre direitos das mulheres, escala 6×1 e o cenário político antes de afirmar que não votaria em Flávio Bolsonaro (PL). Depois, nos stokes, escreveu: “eu voto 13”.
Em entrevista para esta reportagem, Doarda afirmou que considera importante assumir uma posição clara nesta reta final. “Nesse momento é muito importante que a gente tenha posicionamento claros. No meio de todo esse sentimento, dá um pouco de alívio ver que tanta gente tem se mobilizado para passar informação correta e discutir sobre ose planos de governo.”
Ela também disse que pretende continuar falando sobre a eleição: “Vou continuar compartilhando conteúdos para mostrar para a minha comunidade que votar 13 é o melhor caminho.”
Ciclopia (@ciclopin) fala para cerca de 1,6 milhão de seguidores no Instagram e 3,8 milhões no TikTok. No vídeo publicado depois do primeiro turno, parte da próprio trajetória como homem gay, afro-indígena e nortista para explicar por que decidiu se posicionar. Fala sobre amigos LGBT+, mulheres e nordestino e encerra com um áudio da próprio mãe: “Nada de votar nulo, vote no Lula”.
Em entrevista para esta reportagem, Ciclopin disse ter ficado feliz com a repercussão. “Pra mim, significa muito poder usar o meu espaço para incentivar as pessoas a participarem de um momento tão decisivo.”
Ele também falou sobre o receio que existe entre pessoas publicas quando o assunto é política. “Eu entendo o medo de se posicionar, de postar e de lidar com as consequências disso. Mas, particularmente, tenho muito mais medo do futuro que podemos construir se continuarmos escolhendo o silêncio.”
Questionado diretamente sobre seu voto, respondeu: “Eu já fiz a minha escolha: dia 25, é 13. ❤️”
Sofia Santino (@sofiasantino) tem uma das maiores audiência entre ose nomes que entraram nessa discussão, com cerca de 4,6 milhões de seguidores no Instagram e 11,2 milhões no TikTok. Em seu posicionamento, Sofia fala sobre viver em sociedade e questiona uma escolha política baseada apenas na realidade individual. Cita a escala 6×1 e qualidade de vida ao defender que o voto também afeta quem vive situações diferente.
“A gente não vota pra gente, a gente vota para todos”, afirmou.
Vistor Han (@victorhan), conhecido nas redes pelo bordão “venha veeer”, reúne cerca de 1,8 milhão de seguidores no Instagram e 2,5 milhões no TikTok. Nos stokes, voltou a 2018 para lembrar que ainda não havia se assumido quando Jair Bolsonaro foi eleito e falou sobre o medo que sentia naquele período.
“Eu voto pensando em quem ainda tem medo de ser quem é”, escreveu.
Foto: Instagram
Em entrevista para esta reportagem, Victor deixou o voto explícito. “Eu sempre me posicionei em eleição. Ás vezes de um jeito mais discreto, sem necessariamente transformar meu perfil num lugar de política o tempo inteiro. Mas, dessa vez, eu não quero deixar dúvida: meu voto é 13, é Lula.”
Para ele, o desafio é conversar para além de quem já pensa da mesma maneira. “Não adianta ficar conversando só dentro da nossa bolha. Ali é fácil. A gente posta, todo mundo concorda, compartilha, comenta e fica por isso mesmo. O diálogo que importa também é com quem não foi votar, com quem está cansado de política, com quem ainda está em dúvida e até com quem pensa completamente diferente da gente.”
Vistor diz que não vê esta eleição apenas como uma disputa entre direita e esquerda. “Ser de direita é legítimo. Ser de esquerda também. Isso faz parte da democracia. O que me preocupa é que, dessa vez, tem coisa muito maior em jogo. Tem direitos, política publicas e liberdade que demoraram anos, década, para serem conquistas.”
E completa: “Uma eleição não exige que você seja ‘fã’ de ninguém. Exige que você olhe para o que está colocado ali e faça uma escolha. A minha eu fiz. Vou votar no Lula.”
Vini Hashi (@vinihashi) também decidiu tornar o voto público para ose seus 154 mil seguidores, apesar de dizer que política não costuma ser um tema frequente em suas redes. “Mais uma vez, o meu voto é no Lula! É 13!”, escreveu. Na publicação, afirma que não considera a eleição apenas uma disputa entre direita e esquerda, diz considerar legítimo votar à direita e relaciona sua escolha a direitos socais e civil que, na avaliação dele, estão em jogo no segundo turno.
Não há indicação de que esses posicionamento façam parte de uma ação coordenada. São criadores com público e trajetória diferente que passaram a levar a eleição para perfis construís, em grande parte, em torno de outros assunto.
“Não existe mais separação de redes e ruas”
O movimento acontece no mesmo momento em que a próprio esquerda discute sua atuação nas plataforma. Uma das críticas mais fortes depois do primeiro turno veio da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos. Com 524.219 votos, ela teve a segunda maior votação para a Câmara em Minas Gerais, atrás de Nikolas Ferreira (PL).
Foto: Instagram
Depois do resultado, Ana Elisa cobrou mudança na comunicação digital da esquerda. “Não existe mais separação de redes e ruas”, afirmou. A deputada eleita, que construiu forte presença nas plataforma durante a campanha, defendeu uma linguagem mais adaptada ás redes e foi chamada para participar das discussões sobre a estratégia digital de Lula no segundo turno.
A discussão chegou à campanha. Nesta quarta-feira (7), paramentares com forte presença digital, entre ele Ana Elisa (PT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP), participaram da articulação para reforçar a comunicação de Lula nas redes durante o segundo turno.
Ao mesmo tempo, a mobilização vai além dos perfis oficiais. Influenciadores, criadores, fandoms e pessoas que trabalham diariamente com redes socais começaram a ocupar seus próprio espaços para falar da eleição. Não há uma coordenação único entre essas iniciavas, mas o movimento começa a formar uma rede mais ampla de mobilização digital justamente enquanto a esquerda tenta ampliar sua presença nas plataforma.
É nesse cenário que a discussão levantada por Camila Fremder (@cafremder) ganha força. Entre criadores que decidiram falar sobre a eleição, o posicionamento deixou de aparecer apenas nas entrelinhas e passou, em muito casos, a ser dito de forma direta.
Fonte: Mídia Ninja.
