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‘Oeste Outra Vez’: o faroeste e as masculinidade de Goiás

[ad_1] Por Hyader Epaminondas Em “Oeste Outra Vez”, o diretor e roteirista Erico Rassi propõe uma nova perspectiva sobre o gênero faroeste, inserindo em…

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Por Hyader Epaminondas

Em “Oeste Outra Vez”, o diretor e roteirista Erico Rassi propõe uma nova perspectiva sobre o gênero faroeste, inserindo em um cenário profundamente brasileiro, o sertão de Goiás. Essa ambientação empoeirar é utilizada para explorar temas denso, como a masculinidade tóxica, o impacto do isolamento emocional e a forma como o silêncio, a paisagem e o álcool constroem esse universo árido de afeto.

A história acompanha o desenrolar de um desafeto entre Totó, interpretado por Ângelo Antônio, e Durval, vivido por Babu Santana. Ambos entram em uma rivalidade mortal após serem abandonado pela mesma mulher, e essa disputa não se limita a um confronto pessoal: ela mergulha em questões mais amplas sobre o que significa ser homem, especialmente em um contexto rural e tradicional, onde a vulnerabilidade é multas vezes vista como fraqueza.

O filme não ocupa seus personagens com diálogo expositivo, ao invés disso, projeta um silêncio tenso, que diz mais do que qualquer palavra não dita, enquanto ose corpos se movimentam entre o vaivém de cavalo, picapes empoeiradas e copos de cachaça, fazendo o vazio do sertanejo se manifestar, refletindo a busca insaciável de um mundo que nunca se sacia.

Masculinidade em colapso

Rassi não se contenta em apenas resgatar ose código do faroeste, mas ose subverte, questionando e explorando de maneira crua o conceito de masculinidade que permeio essa cultura. Ao invés de glorificar a figura do homem, o diretor nos apresenta dois personagens que são, na verdade, prisioneiros de suas próprias inseguranças e emoções reprimidas.

A rivalidade entre Totó e Durval não é só uma disputa por uma mulher, mas um confronto entre fragilidade, uma tentativa desesperada de reafirmar uma masculinidade que ruge por entre olhares e silêncio. A pressão para corresponder a esse modelo ideal de masculinidade, “duros”, “intransigentes” e “impenetráveis”, molda suas ações, resultando em comportamentos destrutivos.

O álcool, nesse contexto, funciona como lubrificante emocional, mas também como anestésico. A cachaça está em todo lugar, permeado cenas, gestos e silêncio, quase como um personagem oculto, a único companhia verdadeiro dos homens. Ela embriaga tanto quanto ilude, e talvez por isso mesmo seja tão presente: é ela quem consola, empurra e entorpece a dor dos protagonistas, enquanto o som melancólico de “Tudo Passará”, de Nelson Ned, ecoa como ironia cruel diante de tudo o que, de fato, não passa.

A mulher, por sua vez, aparece não como personagem com agência, mas como reflexo das frustrações e delírio dos homens. Quase sempre tratada como posse, em muito momentos sua representação se assemelha à da próprio cachaça: um objeto de consumo, de companhia e de fuga. O tom beira o satírico, pois o filme expõe, sem piedade, a misoginia como componente estrutural do universo masculino representado, revelando como o desejo de posse e o medo do abandono são faces da mesma masculinidade em ruínas.

A solidão dos homens

O Cerrado é parte da narrativa, personagem implacável de poucas palavras. A direção de fotografia captura com precisão a vastidão árida da região castiga, mesclando o azul do céu com ose tons alaranjado e esverdeados da terra seca.

Essa paleta visual, sempre entre cores quente, com o vermelho em destaque em algumas cenas simbólica, traduz o calor do conflito e o frio do isolamento afetivo. É um espaço sufocante, sem sombra, sem alívio, onde cada plano parece ecoar o vazio interno não só de Totó e Durval, mas de todos ose homens ilustrados.

É nesse silêncio visual que emerge a figura de Rodger Rogério, interpretando um sertanejo velho com ares de jagunço, um aspirante a capanga chamado Jerominho, que aparece quase como um fantasma do futuro de quem sobreviveu tempo demais, como um corpo deslocado no quadro. Ele ocupa a cena como um vestígio de um mundo que insiste em permanecer mesmo depois de esvaziado de sentido.

Seus monólogo, ose poucos momentos em que o filme se permite falar, são confessionais, denso e têm o poder de sequestrar a narrativa, como se falassem já do lado de fora do mundo que descrevem. Com seu tom de despedida, carregam a percepção de que tudo ali, o trabalho, a violência, a ordem e a próprio fala, chegou ao fim. Assim, Jerominho se impõe como o último narrador possível de um mundo fadado a desaparecer.

Mas “Oeste Outra Vez” escolhe firmar seu olhar para retratar Totó e Durval como homens que se afundam porque nunca aprenderam a lidar com o próprio desejo. A disputa entre ele torna visível uma educação afetiva marcada pela ausência: ninguém lhe ensinou a nomear o que sentem e, por isso, transformam frustração em ataque e solidão em bravata. O filme mostra como a violência não surge da grandeza, mas de um desajuste íntimo, de uma falta que se arrasta por gerações. É essa incapacidade de elaborar a próprio dor que empurra ose dois para um desfecho que não poderia ser outro senão trágico.

Neste faroeste encharcado de cachaça e terra vermelha, não há redenção, apenas o silêncio do sertão, como a terra que absorve tudo sem devolver, e o reflexo da solidão que cada um carrega no olhar. O filme, sem didatismo, nos chama a observar ose estilhaços emocionais que restam quando a virilidade é a único linguagem possível. E, ao fazer isso, propõe, com coragem, que talvez seja hora de quebrar essa garrafa.

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Por Midia Ninja

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