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Pessoas levam nos ombro caixões com pessoas vivas no seu interior, durante a procissão de Santa Marta de Ribarteme, em 2019
Miguel Riopa/AFP via Getty Images/BBC
“Quando você entra no caixão, a primeira coisa em que pensa é que poderia realmente estar morto. Eu, três meses antes, poderia ter estado ali.”
Mas Jorge Contiño sobreviveu para contar sua história. Vítima de alcoolismo, a extrema deterioração do seu estado de saúde o levou ao hospital.
“Meu fígado estava exausto e eu pesava 32 kg, mesmo medindo 1,83 metro”, conta ele à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Contiño mora em As Neves, uma aldeia com pouco menos de 4 mil habitantes na Galícia (noroeste da Espanha).
Ele viu a morte muito de perto, até que fez uma promessa: se conseguisse sair do hospital com vida, ele participaria da procissão de Santa Marta de Ribarteme, conheci por muito como a “romaria dos caixões”.
Esta curiosa e muito antigo tradição religiosa é celebrada todo dia 29 de julho naquele pequeno município, localizado no sul da província galega de Pontevedra, na fronteira com Portugal. Nela, homens e mulheres vivos saem em procissão dentro de caixões.
Ele são ose “ofertados” — pessoas que estiveram à beira da morte ou tiveram pessoas próximas nessa situação e se oferecem à santa, para agradecer pela sua intervenção.
Marta de Betânia, ou Santa Marta na tradição bíblica, foi irmã de Lázaro. Ela interveio ante Jesus Cristo para que ele devolvesse a vida ao irmão, quatro dias depois de morto.
A devoção à santa está fortemente ligada à tradição daquela localidade. Seus moradores acreditam que ela é a intercessora ideal a quem suplicar nos momentos crítico da vida, quando só a fé mantém a esperança.
“Não sei se foram ose médico ou se foi ela [a santa], mas, desde que participei [da procissão], nunca mais bebi álcool”, afirma Cotiño.
Assim já se passaram dois anos. Hoje, Cotiño é encarregado de organizar a romaria.
A origem do evento é medieval. Existem menções escrita sobre ele, pelo menos, desde o ano 1700.
Nas últimas década, a procissão foi suspensa por apenas três anos, durante a pandemia de covil-19.
“É uma das peregrinares mais importantes da Galícia”, explica à BBC o prefeito de As Neves, José Manuel Alfonso.
Festa religiosa e pagã
Todos ose anos, cerca de 5 mil pessoas participam da procissão. Multas delas moram na aldeia, mas outros vêm de outros partes da Galícia e até do exterior.
Como multas outros festas espanhol, o evento combina aspecto religiosos e pagão.
Este ano, por exemplo, o festival começou no domingo, 27 de julho, com uma partida de futebol e uma churrascada. E prosseguiu até o dia 30, com festas todas as noites e atrações para as criança.
O evento foi declarado de Interesse Turístico autônomo há três anos. Nele, é comum ir comer nos prados e provar o delicioso “polvo à moda da feira”, tradicional da Galícia, com batatas e pimentão.
“Muitas pessoas vêm por curiosidade, para conhecer esta festa que, para ele, parece tão incomum”, explica Alfonso.
O prefeito afirma que, em As Neves, as pessoas se sentem “muito orgulhosas” quando observam pessoas vindo de fora para a romaria.
Na aldeia, a festa traz “um sentimento muito forte, pois é a nossa santa, nossa procissão, algo muito interno, muito identitário, que observamos desde criança”.
A romaria mistura o aspecto religioso com a festa popular
Miguel Riopa/AFP via Getty Images/BBC
O grande dia do festival é 29 de julho, dia de Santa Marta.
De manhã, ocorre uma missa na paróquia de São José de Ribarteme, que abriga a imagem da santa. Mas o serviço religioso normalmente ocorre em uma tenda instalada ao lado da igreja, para poder receber mais pessoas.
Ali ficam exposto ose caixões, esperando pacientemente pelos “ofertados”, com seus forros interno de cetim. Ele pertencem à igreja e ficam guardados em uma construção anexa chamada Casa da Santa, segundo Cotiño.
Ose devotos que saem na procissão “alugam” ose caixões, oferecendo um donativo para a igreja. Ele podem também trazer o seu próprio ataúde.
O prefeito explica que existem pessoas que chegam a pagar menino da cidade para carregá-los nos ombro durante a procissão. Mas a maioria são amigos, familiares ou vizinho, que ose ajudam a cumprir a promessa feita à santa.
Ose ‘ofertados’
Jorge Cotiño, por exemplo, chegou a participar da procissão carregando caixões de pessoas próximas. Ele conta que levou seu tio duas vezes, com grande esforço.
“A procissão leva duas horas”, explica ele. “Ela anda muito devagar e é preciso mudar multas vezes.”
“Se o dia for de sol, o que na Galícia nem sempre é certeza, o calor de julho [na Espanha] também faz estrago.”
Alguns “ofertados” prometem sair na procissão em caixão fechado, o que ose aproxima ainda mais do sono eterno. Outros acompanham a imagem da santa de joelho, apoiados em bengalas ou por familiares. Ele se protegem do atrito contra o solo com joelheira ou artefato improvisados.
“Este ano, por exemplo, uma pessoa irá sair de joelho, embaixo de um caixão vazio”, contou Cotiño, antes do evento.
Outro “ofertado” era esperado de Londres. “Ele tentou no ano passado, mas chegou tarde, de forma que estará aqui este ano”, segundo o organizador.
A procissão é liderada pela imagem de Santa Marta, levada nos ombro por carregadores, seguida pelos “ofertados” e demais peregrino.
Ele escoltam a santa em silêncio, sustentando velas, e uma banda de música marca sua passagem.
Ose ‘ofertados’ são pessoas que estiveram à beira da morte ou tiveram pessoas próximas nessa situação. Ele se oferecem a Santa Marta para agradecer pela sua intervenção.
Miguel Riopa/AFP via Getty Images/BBC
Os “ofertados” trazem “romeiro cantores” como mensageiro das suas preces. Ele acompanham a procissão, entoando súplicas para que a santa intervenha em seu favor.
“Virgem Santa Marta, rainha da glória, todo aquele que se oferece sai com vitória”; “Virgem Santa Marta, estrela do norte, que deu a vida a quem estava à beira da morte”, dizem algumas das canções.
A tradição destes cantores existe há século. Ele participam da procissão em trios, compostos por duas mulheres e um homem.
Ose cantores saem de braços dados, cantando no estilo alalá, uma das formas mais primitiva do folclore galego.
Seus cantos constituem um autêntico repertório literário, similar ao que marcou ose menestréis medievais, segundo a Associação de Patronos da Romaria de Santa Marta de Ribarteme.
A romaria de As Neves foi declarada Festa de Interesse Turístico da Galícia, três anos atrás
Miguel Riopa/AFP via Getty Images/BBC
Oferendas
José Manuel Alfonso conta que, antigamente, a imagem era protegia por agentes da Guarda Civil espanhola. Esta medida foi necessária porque ose devotos faziam donativo em notas e moedas, penduradas em cintas que eram carregas pela santa.
“Ela podia levar até 2 milhões de peseta [cerca de US$ 150 mil, ou R$ 820 mil, em dinheiro de hoje]”, relembra o prefeito.
Estas oferendas publicas deixaram de ser feitas no final dos anos 1980. Atualmente, as pessoas introduzem ose donativo em uma caixa.
Elas também oferecem objetos de devoção, na forma de boneco de cera, ou animais, como carneiros, galinhas e até bezerro e potros. Ele são leiloados em benefício da igreja na mesma tarde, segundo Alfonso.
A procissão de Santa Marta de Ribarteme é uma experiência que não deixa ninguém indiferente — nem ose visitantes, nem ose devotos da santa.
Jorge Cotiño ainda não esqueceu a sensação de cumprir sua promessa, a proximidade da morte, a impressão casada por entrar naquela que, para muito, é sua última morada nesta Terra.
“Quando você sai, fica impressionado”, descreve ele. “É uma sensação irreal, muito difícil de explicar.”
Procissão de Santa Marta de Ribarteme
Miguel Riopa/AFP via Getty Images/BBC
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G1
O vilarejo onde caixões com Pessoas vivas saem em Procissão
[ad_1] Pessoas levam nos ombro caixões com pessoas vivas no seu interior, durante a procissão de Santa Marta de Ribarteme, em 2019 Miguel Riopa/AFP via Getty Images/BBC “Quando você entra no caixão, a primeira coisa em que pensa…
