Por Hyader Epaminondas
Em junho, eu estava conversando com um americano sobre o sonho americano, até que, em um tom cítrico, quase como quem tenta esconder a melancolia por trás das próprias palavras, ele me disse que o sonho americano infelizmente morreu. O que restou foram suas cinzas e a nostalgia de uma ideia de nação que já não encontra correspondência na realidade.
Essa constatação é simbólica, sobretudo quando pensamos em como os Estados Unidos construíram parte de sua identidade a partir da promessa de que qualquer indivíduo poderia conquistar seu lugar no mundo por meio do próprio esforço. Quando essa promessa perde sua força, o que entra em crise não é apenas a possibilidade de prosperidade, mas o próprio imaginário de sociedade que sustentava a ideia de futuro.
É justamente sobre as ruínas desse imaginário que James Gray desenvolve seu próprio “Tigre de Papel”, filme escolhido para abrir a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ambientada em Nova York, em 1986, a trama acompanha dois irmãos que enxergam em uma oportunidade de negócio a possibilidade de mudar de vida, até que o envolvimento com a máfia russa transforma suas ambições em uma ameaça à própria estrutura familiar.
Com Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson no elenco, Gray retorna a um território que atravessa boa parte de sua filmografia: personagens que tentam encontrar alguma estabilidade em um mundo no qual as promessas de ascensão carregam, desde sua origem, as condições de sua própria ruína.
O filme se desenvolve a partir de duas narrativas paralelas: enquanto Johansson encarna no corpo as consequências de um Estado corroído pela corrupção, os irmãos assumem o protagonismo ao transformar o enfrentamento e a sobrevivência em uma experiência de resistência compartilhada. É justamente na relação entre eles que a obra atinge alguns de seus momentos mais potentes, revelando uma fraternidade genuína, capaz de comover pela cumplicidade e pelo afeto que emergem mesmo diante de um cenário de absoluta precariedade civil.
O título “Tigre de Papel” concentra uma contradição que atravessa tanto a trajetória dos personagens quanto o imaginário de uma nação que aprendeu a confundir a imagem do poder com a garantia de sua permanência. A figura do tigre evoca força, ferocidade e domínio territorial, um animal cuja presença desperta medo justamente pela capacidade de transformar sua vontade em ameaça concreta. O papel, por outro lado, introduz uma fragilidade material nessa representação, como se toda a imponência do animal dependesse da crença do observador naquilo que vê.
Um tigre de papel pode intimidar enquanto sua aparência sustentar a crença em sua própria força, mas essa imagem começa a ruir quando confrontada com aquilo que escapa ao seu controle. A metáfora ganha uma dimensão estética ao traduzir a própria constituição do personagem de Adam Driver, cuja aparente imponência esconde a fragilidade de uma autoridade sustentada muito mais pela imagem que projeta do que pela força que realmente possui. É nessa contradição que James Gray encontra uma das possibilidades mais interessantes para pensar na promessa de ascensão que movimenta os protagonistas de seu filme.
A sedução desse universo reside justamente na aparência de que o poder pode ser adquirido, negociado e incorporado à própria identidade. Para quem deseja escapar das limitações impostas pelas circunstâncias, aproximar-se de estruturas que concentram riqueza e influência pode parecer uma maneira de abandonar a posição de vulnerabilidade e finalmente participar do jogo em condições mais favoráveis. O problema é que o poder conquistado por meio dessa aproximação não necessariamente pertence àqueles que acreditam tê-lo adquirido.
A máfia representa uma estrutura hierárquica na qual as possibilidades de ascensão estão condicionadas à obediência, à dependência e à disposição de aceitar regras estabelecidas por outros. Os irmãos podem acreditar que estão construindo uma saída para suas dificuldades, mas a oportunidade de enriquecimento os aproxima de forças diante das quais continuam vulneráveis.
O tigre adquire uma ambiguidade decisiva: representa tanto a força que os personagens desejam incorporar quanto a estrutura que pode devorá-los quando descobrirem que não possuem o controle que imaginavam. A promessa de liberdade econômica se converte em dependência, enquanto a tentativa de escapar da vulnerabilidade coloca em risco justamente aquilo que eles pretendiam proteger.
Essa contradição também permite aproximar o filme da melancolia que acompanha o imaginário americano. Durante décadas, o sonho americano foi vendido como a possibilidade de superar as próprias origens por meio do trabalho, da ambição e da capacidade individual de transformar o futuro. Essa narrativa, entretanto, obscurece as estruturas econômicas e sociais que determinam quem pode ascender, quais sacrifícios são exigidos e quem termina pagando a conta quando a promessa fracassa.
Ao transformar o sucesso em uma conquista individual, essa ideologia também desloca a responsabilidade pelas desigualdades para aqueles que não conseguem superá-las, como se a incapacidade de prosperar fosse consequência de uma insuficiência pessoal, e não das condições materiais que delimitam suas possibilidades. Enquanto isso, a grandiosidade nacional permanece no discurso, nos símbolos e na nostalgia de uma época idealizada, mesmo quando a experiência concreta de seus cidadãos revela contradições cada vez mais difíceis de conciliar com essa imagem.
O sonho não precisa desaparecer para deixar de funcionar, basta que continue sendo desejado mesmo quando suas condições de realização se tornam progressivamente mais estreitas. Assim como os protagonistas se aproximam de um universo que promete oferecer-lhes poder, o imaginário nacional continua seduzindo aqueles que esperam encontrar na promessa americana uma saída para suas próprias limitações, mesmo quando essa promessa exige que aceitem as mesmas estruturas responsáveis por produzi-las.
O diretor frequentemente organiza seus dramas em torno de personagens que perseguem formas de pertencimento, reconhecimento e estabilidade, apenas para descobrir que os caminhos escolhidos carregam contradições que não podem ser resolvidas pela vontade individual.
Em “Tigre de Papel”, a tragédia não está simplesmente em acreditar em uma promessa falsa, mas em descobrir que ela possuía força suficiente para reorganizar toda uma existência antes que sua fragilidade pudesse ser reconhecida. O tigre de papel não precisa ser inofensivo para constituir uma ilusão: sua imagem pode produzir consequências reais, provocar medo e determinar escolhas, mesmo quando a solidez que lhe atribuímos não corresponde àquilo que existe por trás dela.
Uma promessa não precisa ser verdadeira para mobilizar pessoas, organizar desejos ou justificar sacrifícios, basta conservar sua capacidade de parecer possível. Quando essa crença se desfaz, as consequências das escolhas feitas em seu nome não desaparecem junto com ela, e permanecem as relações destruídas, as ambições frustradas e a percepção tardia de que a saída procurada conduzia a outra forma de dependência.
E o que fica quando uma nação continua reproduzindo a imagem de sua própria grandeza, mas já não consegue garantir que essa grandeza se traduza em uma promessa compartilhada de futuro? Restam os símbolos, a nostalgia e a necessidade de preservar uma narrativa que oferece sentido mesmo quando a realidade insiste em contradizê-la.
Como um tigre recortado em papel, o sonho americano continua circulando no imaginário coletivo, capaz de despertar fascínio e orientar comportamentos, embora sua aparência de força esconda as fissuras de uma promessa que talvez tenha sobrevivido por mais tempo como imagem do que como possibilidade concreta. O sonho continua vivo para continuar nos devorando.
Fonte: Mídia Ninja.
